Claude Lévi-Strauss, 1909-2009

there are laws of mythical thinking as strict and rigorous as you would find in the natural sciences.

“I’m just working in my workshop on very particular questions which can hopefully make a little more rigorous some of the human sciences. Nothing I’m doing is going to particularly ease mankind’s problems. I’m a theoretician.”

Com Lévi-Strauss morre o último dos grandes racionalistas clássicos franceses, com ele um estilo de organização sistemática e apelo ao coerentismo marcado pela presença de estruturas fortes de análise de tipos desaparece, perde seu último grande defensor – e em alguns aspectos, o inventor de uma forma de abordagem para fenômenos estruturais. É verdade que Lévi-Strauss viveu para ver sua teoria ser a crista da onda e depois detonada, viveu para ver um ou dois revivals de sua teoria e até foi testemunha da apropriação tardia dos próprios textos – poucos autores tem o privilégio de ver a recepção das suas obras clássicas 50 anos depois da publicação destas.

Lévi-Strauss, se não for colocado no Pantheon, certamente mereceria estar lá. Não pela atualidade da sua obra, mas pela importância do que ele fez, do seu esforço teorizante de compreensão da estrutura do mundo – ainda que hoje possamos ver algumas partes deste esforço de identificação de estruturas abrangentes como essencialmente igênuo, é importante reconhecer o que significou para uma geração de pesquisadores as condições metodológicas estabelecidas por Lévi-Strauss. No mais, talvez nenhum pesquisador estrangeiro tenha sido tão importante para o estabelecimento de uma cultura de pesquisa no Brasil que hoje torna a nossa antropologia uma das mais qualificadas do mundo – inclusive, se algum campo de humanidades no Brasil é relevante internacionalmente, este campo é sem sombra de dúvida a antropologia, e sem Lévi-Strauss antropólogo algum no Brasil escreveria uma linha hoje.

Para quem escreve e fala de filosofia, a importânciafica neste apelo quase que originário a estruturas e ao racionalismo, ao coerentismo semântico e rigor procedimental é indispensável. Lévi-Strauss é importante para autores tão diferentes quanto Tugendhat, Umberto Eco e Geertz justamente por esta razão, e cada um destes autores vai pegar um elemento diferente para criticar, apropriar e re-considerar.  Mesmo teólogos como Levinas e Caputo acharam espaço para a consideração de Lévi-Strauss enquanto um pensador que oferece elementos teóricos indispensáveis para a pesquisa sobre símbolo, sobre experiência e sobre ídolatria.

Mas a lição da biografia intelectual de Lévi-Strauss é a da importância de manter uma teoria consistente e aberta à crítica, que faz a crítica e a construção do conhecimento possível. O apelo a estrutura, ao coerentismo, é justamente o elemento que permitiu que tantos pudessem criticar Lévi-Strauss tão fortemente e a importância da obra dele é justamente ter instigado e dado o tom para duas ou três gerações de antropólogos, sociólogos, filósofos e mesmo teólogos.  Lévi-Strauss nos ensina que sem rigor, sem coerência e sem apelo a algum tipo de fundo estrutural, a gente tá perdido – e esta é uma constatação cada vez mais difícil de escapar.

6 comentários

  1. “teólogos como Levinas”…

    NOP

  2. É possível pensar a noção forte de imanência/alteridade em Levinas sem uma noção forte de religiosidade e Deidade?

    Não?

    Não.

    Então é teologia.

  3. Eu responderia SIM sem hesitar.

    E invocaria como argumento a parte do segundo capítulo de Totalidade e Infinito dedicada à “interioridade” em que Levinas reinvidica expressamento o ATEÍSMO como condição da subjetividade ética.

  4. E sobre o racionalismo do Lévi-Strauss, acho que um antropólogo ainda vivo que persiste nesse racionalismo (e ainda com viés substancialista) é o René Girard, mas não sei se de repente tu achas ele meio canastrão.

  5. Com a palavra, Levinas:

    “O poder do eu não percorrerá a distancia indicada pela alteridade do outro. […] O Outro metafísico é outro de uma alteridade que não ‘formal, de uma alteridade que não é um simples inverso da identidade, nem de uma alteridade feita de resistencia ao Mesmo” [TI:26]
    “Aqui procura dizer-se a incondição do sujeito, que não tem o estatuto de princípio. Uma condição que confere um sentido ao próprio ser e acolhe a sua gravidade: é como repousante sobre um Se que suporta todo ser, que o ser se recolhe em unidade do universo e a essencia se recolhe em evento. O Se é Sub-jectum: é sob o peso do universo – responsável de tudo. A unidade do unvierso não é o que o meu olhar abraça na unidade da apercepção, mas aquilo que de todos os lados me toca, me diz respeito me acusa, é meu problema”[AQE, 182-183]

    “o Infinito significa a partir da responsabilidade por outrem, do um-para-outro, de um sujeito que suporta tudo – sujeito a tudo – que sofre por todos, ma encarregado de tudo; sem ter tido que decidir deste tomar a cargo que se amplifica gloriosamente à medida que se impõe.”[AQE, 232]
    E finalmente, com chave de ouro:
    “Bondade, virtude infantil; mas já caridade e misercórdia e responsabilidade para com outrem, e já possibilidade do sacrifício em que a humanidade do homem desabrocha, rompendo a economia geral do real e decidindo sobre a perseverança dos entes que se obstinam em seu ser: por uma condição em que outrem passe antes de si mesmo. Desinteressamento da bondade: outrem em sua súplica, que ‘uma ordem, outrem como rosto, outrem que me diz respeito [que me observa] mesmo quando não me olha, outrem como próximo e sempre estranho – bondade como transcendência; e eu, aquele que é obrigado a responder, o insubstituível e, assim, o eleito e, desse modo, verdadeiramente único. Bondade para o primeiro que vem, direito do homem. Direito do outro homem antes de mais nada.”[EN, 266]

    “alteridade feita de resitencia ao mesmo”=Totalmente Outro=DEUS
    “sofre por todos, mas encarregado por tudo”=DEUS
    ” Se que suporta todo o Ser” = DEUS
    ” Bondade para o primeiro que vem” = DEUS

  6. Não consigo enxergar aí essa associação.

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