Sobre a análise da comunicação

Luis Rosa

Eu não percorri toda a literatura sobre comunicação em filosofia, mas eu desconfio de uma coisa: os caras ainda não tem o que propriamente pode ser chamado de ‘análise da comunicação’.  Dá pra perceber que existem vários pressupostos quanto ao que é uma relação de comunicação, mas não vi nem um Dascal e nem um Grice tentar colocar isso no ‘spotlight’.

O negócio então é o seguinte: quero perguntar sobre as condições necessárias e suficientes para haver comunicação entre interlocutores que falam uma mesma língua natural, e que estão inseridos no mesmo contexto. . Supõe-se que haja, então, pelo menos dois casos type pertinentes a uma pergunta sobre as condições para a comunicação: i) aquele em que se comunica o próprio conteúdo proposicional da sentença ‘p’, e ii) aquele em que se comunica algo distinto deste conteúdo proposicional da sentença ‘p’. O caso ii) é o caso ‘mais drástico’ enfrentado pela pragmática – nas palavras de Dascal em “Interpretação e Compreensão”.

Contudo, queremos antes então trabalhar com os fenômenos supostamente menos drásticos da pragmática – usando uma linguagem análoga a de Dascal. A motivação aqui é encontrar uma análise ou definição do conceito de comunicação – para, a partir desta análise, recolocar o problema da subscrição do conteúdo proposicional e ilocucionário ao conteúdo intencional.

Pareceria que a comunicação é explicada no caso de fenômenos em que não há implicaturas, em que o conteúdo intencional, o conteúdo proposicional e o conteúdo ilocucionário são o mesmo. Então, trabalhemos com a hipótese desta univocidade de conteúdo – o interlocutor de nosso estudo estará emitindo uma sentença em que ele intenciona dizer a mesma coisa que é dita pela sentença quando esta é interpretada de um ponto de vista da semântica natural; e o contexto no qual ele está inserido ao fazer esta emissão não oferece outras possibilidades de interpretação acerca do significado de sua sentença. Chamaremos nosso emissor de ‘Não-Ambíguo’ – um nome estranho, mas que serve a nossa proposta.

Agora, precisamos tornar nossa hipótese mais interessante: precisamos de um interlocutor. Nosso interlocutor tem então completo domínio da língua natural em que Não-Ambíguo está emitindo a sentença. Além disso, este interlocutor, uma vez que está inserido no contexto ilocucionário de Não-Ambíguo, não está disposto a fazer interpretações estranhas a este contexto. Chamaremos o interlocutor de ‘Mistério’ – outro nome estranho, mas como veremos, com uma razão de ser.

Então: Não-Ambíguo emite uma sentença ‘p’ para Mistério. O que é preciso para que haja aqui comunicação? A comunicação seria uma relação entre pelo menos dois interlocutores – mas que relação? Vamos supor que Mistério tenha um sistema nervoso central que o possibilita ouvir sons externos, mas que ele não seja capaz de dar significado a estes sons. Neste caso certamente não está ocorrendo a comunicação de ‘p’. O mesmo diríamos se Não-Ambíguo emitisse simplesmente a sentença, sem ter a menor idéia do que estava fazendo. Então temos uma condição necessária para a comunicação: que os interlocutores sejam capazes de atribuir ou captar significado aos fonemas, frases e enunciados presentes na relação. Mas isto é condição suficiente para a comunicação? Não.

Comunicar precisa ser entendido como uma relação em que alguma coisa se torna comum entre seus termos. Não basta tão somente haver interlocutores para haver comunicação: é preciso haver um algo que é comunicado entre eles. Suponhamos que Não-Ambíguo enuncie a sentença ‘p’ e que Mistério associe a esta sentença um significado distinto do seu significado original (outra proposição à mesma sentença), digamos, o significado de ‘q’. Não precisamos levar em conta a hipótese de Não-Ambíguo proferir p e querer com isso dizer q, pois isso já está excluído da nossa hipótese inicial. Bem, ocorre comunicação em um caso como este? Claramente não. O que é necessário aqui? Que Não-Ambíguo e Mistério associem o mesmo conteúdo à sentença que está sendo de um lado proferida, e de outro, ouvida. Então, a condição necessária aqui é a seguinte (ela engloba a primeira, de forma que podemos ser então mais econômicos): se R é uma relação de comunicação da sentença ‘p’ entre x e y, então x e y associam a mesma proposição ou significado a esta sentença.

Mas atentemos para a seguinte possibilidade (contra-exemplo à suficiência da condição anterior): Não-Ambíguo profere a sentença ‘p’ no contexto que falamos, e Mistério está neste mesmo contexto – mas, digamos que Mistério vê a mesma sentença que Não-Ambíguo proferiu em um cartaz, a sentença ‘p’, e que associa a ela o mesmo conteúdo que o primeiro associa à sentença que proferiu. Neste caso, houve comunicação? Não, e isto nos leva a outra condição necessária: Se R é uma relação de comunicação da sentença ‘p’ entre x e y, então x proferiu esta sentença para y e este a ouviu de x (tudo pode ser transformado para o modo escrito). O proferimento da sentença por parte de x precisaria ser endereçado ao interlocutor com que se diz que ele está a se comunicar, o y.

Até aqui teríamos a seguinte análise:

C1) R é uma relação de comunicação da sentença ‘p’ entre x e y sse: i) x proferiu esta sentença para y, e este a ouviu de x, e ii) x e y associaram o mesmo significado a esta sentença

Mas aqui passamos a angariar problemas. Em primeiro lugar, notamos que simplesmente x e y associarem o mesmo conteúdo a uma dada sentença não seria suficiente para falarmos numa relação de comunicação entre x e y. Mas, no nosso exemplo anterior, o y, apesar de não ter mantido uma relação de comunicação com x, manteve ou não manteve uma relação de comunicação com o indivíduo que redigiu a sentença p no cartaz? Quem escreve cartazes, digamos, cartazes públicos a respeito de qualquer coisa, mantém ou não uma relação de comunicação com as pessoas que lêem este cartaz? Estamos inclinados a responder que sim, uma vez que parece perfeitamente possível haver uma univocidade de significado relacionado às sentenças presentes neste cartaz. Mas, apesar disso, digamos que quem colocou as sentenças neste cartaz não tenha endereçado-as para alguém em especial – não tenha tido a intenção de comunicar algo a um indivíduo específico. Se este é um caso em que ocorre comunicação, então isso vem a contrariar em absoluto a exigência de que o falante tenha de endereçar a sentença para o ouvinte para que haja comunicação. Mas então, como fazemos para evitar, conforme nossa definição, que se diga que eu me comuniquei com Wittgenstein tão somente porque associei o mesmo conteúdo que ele associou à sentença ‘It’s raining’ – a despeito do fato de que nunca encontrei Wittgenstein, nunca troquei cartas com ele (quem dirá e-mails), como também nunca encontrei tal sentença em qualquer obra sua?

Isso sugere que deve haver alguma relação especial entre os interlocutores, mas não somente entre estes interlocutores entre si – mais precisamente entre a coisa comunicada e estes interlocutores. Mas que tipo de relação será essa? Uma relação causal? Se assim for, podemos pensar na seguinte análise como remediando os problemas presentes naquela primeira:

C2) R é uma relação de comunicação da sentença ‘p’ entre x e y sse: i) x enunciou (externou) a sentença ‘p’, e esta enunciação (externamento) causou em y a captação desta sentença, e ii) x e y associaram o mesmo significado (p) a esta sentença

Mas sei lá… Acho que é preciso encontrar uma outra forma de desbancar os impasses que levantei. A coisa é embrionária, por hora.

8 comentários

  1. muito interessante tua analise sobre a comunicação….
    talvez dê a entender…que algo sempre é compreendido, mas que não há garantias de que a intenção de quem tenha proferido a sentença tenha sido efetivada por meio linguisticos, pois, quem a compreende atribui significados, que da mesma forma quando proferidos serão interpretados de maneira subjetiva…então pergunto…por que algumas vezes, e somente algumas, temos a impressão de fomos realmente compreendidos por outrem? estaria a ideía referindo-se a uma impossibilidade de ciomunicação real? e o entendimento sobre teorias escritas? e seus comentarios e explicações?

  2. Lilo: estes fenômenos ‘dados a entender’ numa análise da relação de comunicação são subsidiários ao que ela seria por definição. É claro que esta definição precisa ser uma condição para então responder as intrigantes perguntas que tu fizeste.
    Isso quer, entre outras coisas, dizer que: esta análise sobre as condições necessárias e suficientes para a comunicação, é ela própria necessária para então haver questionamento acerca da (im)possibilidade da comunicação. A interpretação subjetiva a que tu te referes, somente será um problema para a definição de comunicação se esta conter em seu ‘definiens’ a condição de que o conteúdo comunicado tenha de ser objetivo. Como vimos no texto, esta condição está apenas formalmente colocada. A sua instanciação e a sua ‘ontologia’ seria posterior a esta formalização.

  3. Condição para que aja comunicação: quando há a emissão de “p” (p=p) a partir do emissor, e recptividade por parte de um interlocutor, de “p” significando “p” (p=p).
    Quando (x)escrevo um cartaz, profiro uma sentença “p” com sentido de (p=p), para ‘n’ interlocutores (y), se eles associarem o mesmo conteúdo, isto é, (p=p), há comunicação, do contrario não.
    Quem escreve cartazes, os escreve para comunicar alguém, alguns, vários (ny). A não ser que consideremos o cartaz uma obra de arte, e talvez mesmo assim ela terá um intuito de comunicação.
    Luis e Wittgenstein não se comunicam apenas por assimilarem a mesma sentença, assim como Tex e Lilo não se comunicam por terem lido o mesmo texto. Tex e Lilo comunicam-se com Luis.
    Abraços.

  4. Certo Tex: esta é uma das condições necessárias para a comunicação – trata-se de uma condição de individuação de sentido entre distintos indivíduos. Mas isso, como aparece no texto não é o suficiente. Se fosse o suficiente, toda vez que houvesse individuação de sentido em relação a dois indivíduos distintos, haveria comunicação. E isto não é o caso quando eu e você associamos a proposição p à sentença ‘p’, mas estamos fazendo esta associação independente de nos relacionarmos dialogica ou graficamente.
    Por isso, também parece correto quando dizes que eu e Wittgenstein não nos comunicamos. E bem: resta saber se Tex e Lilo realmente se comunicam comigo. Estamos cumprindo as condições necessárias e suficientes para a nossa relação ser uma relação de comunicação? Mas quais condições? Elas já estão postas na definição? (na resposta negativa, ficamos absolutamente sem ter como saber se nos comunicamos).
    Grande abraço

    1. estamos fazendo esta associação independente de nos relacionarmos dialogica ou graficamente?
      tell me more about this…
      ps: to fazendo propaganda do distropia..hehe o tex gostou…

  5. Não, parece que não, não é mesmo? Estamos nos relacionando graficamente, sim. (???)
    Bem esta seria uma outra condição necessária. Mas lembrem-se: estamos atrás de condições necessárias que, todas juntas, sejam suficientes para a relação ser uma relação de comunicação. É isto precisamente que consiste numa análise do conceito de comunicação.

    ps: thaks for the propaganda – nós também gostamos que o Tex gostou (abraço a meu amigo Tex e à minha amiga Lilo)

  6. vê-se que existem várias condições necessárias para que haja comunicação, mas parece não sabermos o fio condutor que possíbilita essas tais condições para que elas possam entrar no conceito de comunicação. O que fica ‘entre’ a enunciação e a captação! O que faz a ‘ponte’ entre enunciador e captador! espero ter chegado ao ponto.
    grande abraço

  7. Tex: este é o ponto quando eu já passei da forma para o conteúdo. As condições necessárias são condições formais para um conceito – isso é a análise. Basicamente poderíamos, antes de colocar problemas mais difíceis como este que tu elencaste, tentar encontrar o que entendemos quando estamos falando de comunicação. Assim, surge a pergunta: como posso determinar o valor de verdade a uma sentença que afirma ter havido comunicação entre indivíduos.
    As condições vêm somente a definir conceitualmente sobre o que se está falando. Volto a enfatizar: este é um primeiro passo; os passos seguintes envolvem todos os questionamentos que vc e a lilo levantaram.
    abraço!

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