Três conceitos de existência em Ser e Tempo

A tese que gostaria de defender neste post é a de que podemos encontrar, em Ser e Tempo, três conceitos diferentes de existência. Porém, será que isto decorre do jeito impreciso e obscuro de Heidegger escrever? E, se o conceito de existência é tão ambíguo, podemos utilizá-lo de modo filosoficamente correto? Em um primeiro momento, vou expor os três conceitos e, ao final, vou responder estas perguntas.

Ao lermos com atenção Ser e tempo, perceberemos que Heidegger não é totalmente claro ao falar do conceito de existência. Ora ele o apresenta como o todo do ser do Dasein, ora o considera um momento constitutivo do cuidado, identificando-o com o existencial do compreender. Esta ambigüidade foi anotada pelo próprio Heidegger, em seu Hüttenexemplar, no início do §64, quando ele diz: “existência significa: 1. Todo o ser do Dasein; 2. Somente o ‘compreender’”.

É somente no §45 que encontramos algumas explicações sobre isso. Heidegger irá afirmar, ali, que o conceito de existência foi o fio condutor da analítica existencial do Dasein e que, nesta etapa da investigação (na assim conhecida “parada metodológica”), é possível distinguirmos dois significados da palavra “existência”: [i] formalmente, existência designa o modo específico de ser do ser humano, qual seja,que  este ente relaciona-se consigo mesmo e, ao mesmo tempo, com os entes intramundanos; e [ii] em sua constituição concreta, ela está em co-originária conexão com a facticidade e a decaída do Dasein, pertencendo a um dos momentos constitutivos do cuidado (o ser do Dasein). Além disso, no §65 e seguintes, após a descoberta da temporalidade como sentido do ser do Dasein e a consequente exigência de uma repetição da analítica existencial, encontramos uma terceira definição da palavra analisada. A fim de ressaltar a condição ontológico-temporal do Dasein, isto é, a sua condição de ente que já sempre transcende a si mesmo a partir de um horizonte extático, Heidegger falará em ex-sistência (que pode ser entendida como uma re-elaboração da primeira definição, já que se refere à totalidade do ser do Dasein).

Assim, três são os conceitos de existência em Ser e tempo:[1] existência como o todo do ser do Dasein; [2] existência como um dos momentos constitutivos do ser do Dasein, o cuidado, ao lado da facticidade e da decaída; e [3] existência como ex-sistência, no qual o caráter transcendente do Dasein é destacado.

Em um primeiro momento, este pode ser considerado mais um caso de imprecisão conceitual, típico da suposta incontrolabilidade de sentido do método fenomenológico (como Tugendhat o coloca). Muitos já foram os filósofos que criticaram este modo abrupto e vago com que Heidegger introduzia suas teses ou seus conceitos, alertando para uma falha em seu método (dentre eles, temos Ryle, Carnap, Apel, Tugendhat). Uma das conseqüências mais graves para este modo de proceder heideggeriano, de um modo geral, é a falta de um critério intersubjetivo, no qual se pudesse compreender seus textos sem cairmos em dogmatismos.

No entanto, mesmo que Heidegger possa ser considerado um autor obscuro, muitas das críticas realizadas ao seu método parecem errar o alvo, tendo em vista seu alheamento e, com isso, intolerância, às particularidades do modo de proceder fenomenológico. Sou da opinião, então, de que o método fenomenológico não está condenado a trabalhar com conceitos vagos ou ambíguos. O seu modo de proceder parte da convicção de que não nos é possível nem antecipar totalmente a nossa compreensão sobre o objeto tematizado nem mesmo prescindir de uma revisão e re-elaboração dos pressupostos aceitos inicialmente (o que caracteriza a “situação hermenêutica” ou “parada metodológica”). Por isso, as referidas críticas ao método fenomenológico devem ser dirigidas muito mais a uma espécie de “recurso estilístico” heideggeriano do que ao método enquanto tal.

Além disso, acredito que o conceito de existência, mesmo que receba uma modificação conceitual ao longo do tratado,  não chega a se caracterizar como como um conceito genuinamente ambíguo, quer dizer, o conceito de existência não chega a ter significados e, ao mesmo tempo, usos semânticos totalmente diferentes. Pelo contrário, todos eles estão sistematicamente conectados uns aos outros ao se referirem ao conceito de Dasein (mas, seria preciso identificar a etapa da investigação em Ser e tempo). Esta conclusão mostra-nos, assim, a possibilidade de estabelecermos critérios semânticos para o conceito heideggeriano de existência e, nesse sentido, uma controlabilidade de seu significado. Mas, para realmente termos uma compreensão precisa do conceito heideggeriano de existência, também os conceitos utilizados para explicar tal conceito precisariam ter critérios intersubjetivos.

Por fim, se houver alguma crítica a este post a partir da idéia de que “colocar Heidegger em uma semântica clara e explícita não é fazer fenomenologia hermenêutica”, que o post está demasiadamente “analítico”, que eu estou desbancando para a “lógica”, que o conceito de existência é muito mais “profundo” do que isto, por favor, ligue para 0xx51-9944-0756, que eu quero responder pessoalmente.

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