Questões sobre a aplicação do princípio de seleção natural em diferentes entidades

Marcos Fanton

Em continuação com meu último post sobre o conceito de ‘luta pela existência’ de Darwin, este aqui vai discorrer sobre a discussão atual da aplicação do princípio de seleção natural e o conceito de ‘luta pela existência’ em diferentes entidades.

Antes, vou resumir os resultados a que cheguei no último post: [1] o conceito de ‘luta pela existência’ desempenha um papel heurístico na investigação dos fenômenos da natureza e da relação entre os seres vivos, já que, sem ele, corremos o risco de interpretar a natureza de maneira completamente errônea (vemos apenas uma “face da natureza”).  [2] a luta pela existência pode ser vista através de um fundo filosófico, no qual é parte do modo de ser de cada ser vivo, que se encontra em meio a um círculo de relações complexas, mútuas e não totalmente previsíveis entre outros indivíduos da mesma espécie, de outras espécies e, ainda, entre as condições físicas da vida (clima, solo, vegetação, alimento, etc.). Tal círculo foi denominado por mim, ainda que vagamente, de habitat; [3] o conceito de ‘luta pela existência’ possui uma ligação de co-determinação com o princípio de seleção natural.

A discussão atual que vou me ater, então, é a seguinte: qual a unidade ou quais são as unidades básicas do princípio de seleção natural? E qual o nível que devemos observar a ação deste princípio?

Para Darwin, minha posição – não muito criteriosa – é de que somente os indivíduos de espécies evoluem de acordo com a seleção natural.

A proposta mais relevante após Darwin, é a de Dawkins;, em seu O gene egoísta. Para Dawkins, a unidade na qual o princípio de seleção natural age precisa ter as seguintes características: longevidade, fecundidade e fidelidade de cópia.  Nesse sentido, a seleção natural tem impacto apenas em entidades que existam em grande quantidade (como cópias) e sejam potencialmente capazes de sobreviver durante um período significativo do tempo evolutivo  Dentro de tais critérios, diz Dawkins, apenas o gene pode ser levado em consideração. Ou seja, este também é o nível de investigação.

Já a entidade de Dawkins é denominada por ele replicador: um replicador sempre (deve) replica(r)-se a si mesmo de maneira igual, ou seja, é uma unidade genética suficientemente pequena para durar um grande número de gerações.

Porém, mesmo vendo a natureza no nível genético, Dawkins mostra que a luta pela existência também ocorre neste nível: cada gene compete “diretamente pela sobrevivência com seus alelos no pool gênico, pois seus alelos são rivais na conquista do mesmo locus no cromossomo das gerações futuras. Todo gene que se comporte de forma a aumentar as próprias chances de sobrevivência no pool de genes, à custa de seus alelos, tenderá, por definição, à sobrevivência”.

Além disso, Dawkins parece não deixar de lado, mesmo que vendo a natureza a partir dos genes, a noção rede de relações entre genes e mundo. Como um gene situa-se em uma rede radiante de poder fenotípico estendido (os corpos), do mesmo modo, esta máquina fenotípica é o centro de uma rede convergente de influências provenientes de inúmeros genes situados em outros centros. “O mundo todo – conclui Dawkins – é entrecruzado por setas causais que ligam genes a efeitos fenotípicos, próximos e afastados” . A construção de máquinas de sobrevivência só fez com que tais redes se tornassem verdadeiros feixes de relações – um modo de ver que certamente espantaria Darwin por sua complexidade.

Entretanto, Dawkins parece ser um tanto quanto ambíguo nas suas afirmações acerca da aplicabilidade da teoria da seleção natural em outras entidades além dos genes. Nos primeiros capítulos do livro ora analisado, Dawkins tece diversos argumentos visando refutar a impossibilidade dos indivíduos, das espécies ou de sociedades como candidatos possíveis à teoria dawiniana. Contudo, na introdução da trigésima edição e no capítulo acrescentado, O longo caminho dos genes, d’O Gene Egoísta, Dawkins inclina-se na tese de dois tipos de unidades de seleção natural: os replicadores (genes) e os veículos (corpos). Esta afirmação é altamente importante, porque seria de perguntarmos o modo de descrição dos diversos conceitos apresentados por Dawkins podem ser utilizados em ambos os níveis sem maiores considerações. Em todo caso, não é nesta obra que encontramos a argumentação para tanto.

Um dos autores que levou o debate de Dawkins adiante, com a tarefa de esclarecer melhor os conceitos utilizados pelos evolucionistas, é o filósofo da biologia David L. Hull. Em seu influente artigo de 1980, Individualidade e seleção (Individuality and selection), Hull reformula o conceito de replicador e adiciona uma nova entidade, o interagente (interactor). Se em Dawkins temos os replicadores produzindo cópias de si mesmos e lutando pela sua própria existência e de suas cópias, em Hull, tais tarefas são separadas. Os replicadores apenas replicam-se a si mesmos (ou seja, transmitem suas estruturas praticamente intactas), ao passo que os interagentes interagem diretamente com seu habitat, mas, em geral, replicam-se a si mesmo apenas indiretamente. Portanto, nesta definição, a luta pela existência é separada, em um dos conceitos, do princípio de seleção natural: o replicador apenas replica; não interage com seu meio. (HULL, 1980, p. 318-9).

Se continuarmos o debate, encontraremos, ainda, duas novas entidades elaboradas por Richard Lloyd: o beneficiário (beneficiary) e o manifestador-da-adaptação (manifestor-of-adaptation) (GOULD; LLOYD, 1999, p. 11905). Para deixar claro, todas estas entidades não são necessariamente as mesmas ou diferentes; são perspectivas nas quais é possível ao teórico visualizar a causalidade e os agentes do princípio de seleção natural. São, portanto, conceitos que tem uma finalidade eminentemente epistemológica. O melhor artigo que encontrei sobre este debate atual é de Gould & Lloyd. A Stanford Encyclopedia tem um verbete específico sobre isso: Units and levels of selection – mas tem que estar com os conceitos na ponta da língua, caso contrário o artigo (vai) parece(r) grego.

Não vou me estender aqui. O que, realmente, precisamos manter em vista é que a principal questão neste debate é a identificação das entidades adequadas à aplicação da teoria darwiniana e em quais níveis esta teoria pode, de fato, ser aplicada. Ou seja, argumentam tais teóricos que, se Darwin colocou ênfase apenas em organismos (o que eu chamei, de indivíduos), deve-se, agora, ampliar esta perspectiva também para genes, espécies, grupos, parentes, colônias, e, até mesmo, ecossistemas inteiros.

Minha principal dúvida, neste debate todo, é entender se há a possibilidade de separarmos o conceito de luta pela existência do princípio de seleção natural na mesma entidade que designamos como aquela designada à seleção natural. E, do mesmo modo, se tal princípio não agiria de modo diferente, o que implicaria, nesse sentido, novos pressupostos teóricos. Além disso, como argumentei no post anterior, as descrições empíricas de Darwin são acompanhadas de um “corolário” metafísico, que descreve o modo de ser das entidades abarcadas por sua teoria. Minha pergunta é, então, se há alguma modificação neste tipo de descrição de Darwin em relação aos debates anteriores.

Por fim, gostaria de propor, para este debate, uma pergunta sobre o tipo de entidade na qual a teoria darwiniana pode ser aplicada – além das perguntas já estabelecidas sobre a unidade e o nível da seleção natural. Esta pergunta vai em direção ao modo como expus Darwin, isto é, com um pano de fundo filosófico, no qual está presente a descrição do modo de ser dos seres vivos. E, nesse sentido, caberia perguntar se ao modo de ser do ser humano pode ser aplicado conceitos como luta pela existência e princípio da seleção natural do mesmo modo como é aplicado a outros seres vivos.

Nós lutamos por nossa existência? Ressalto, aqui, que esta expressão não deve ser inundada pelo impacto que ganha na semântica cotidiana. Como mostrei anteriormente, este conceito envolve, também, um círculo de relações complexas, mútuas e não totalmente previsíveis que um indivíduo possui, no qual lhe permite interagir com outros indivíduos da mesma espécie, de outras espécies e, ainda, com as condições físicas da vida. Porém, é adequada esta descrição do ser humano? Este questionamento não quer eliminar a biologia, mas, sim, procurar um modo de fazer biologia integrado a uma descrição filosófica do ser humano, o que sugeriria uma modificação mútua nas duas áreas.

Do contrário, se pudéssemos considerar apenas as descrições científicas como corretas para explicar o modo próprio de ser do ser humano, quem sabe, poderíamos ficar confortáveis com frases de teóricos como Dawkins:

Para ser justo, outros tiveram intuições da verdade, mas foi Darwin que, pela primeira vez, montou uma explicação coerente e convincente de por que nós existimos. Darwin tornou possível uma resposta sensata à criança curiosa cuja pergunta serve de título a este capítulo [Por que as pessoas existem?]. Não temos mais que recorrer à superstição quando defrontados com os problemas profundos: há um sentido para a vida? Por que existimos? O que é o homem? Depois de formular a última dessas questões, o eminente zoólogo G.G. Simpson assim se expressa: ‘O que quero esclarecer agora é que todas as tentativas de responder a esta pergunta antes de 1859 são inúteis e que será melhor para nós as ignorar completamente.

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