Batman e a temporalidade da manifestação artística

Estive buscando umas coisas do antigo Batman, dos anos 40. Achei bastante coisa nesse livro aqui: http://www.submarino.com.br/busca?q=batman+cronicas+volume+2&dep=1&x=0&y=0, o “Batman Crônicas volume 2”.  As histórias são construídas substancialmente por Bob Kane, Jerry Robinson e Bill Finger.

Cool! Neste livro, um jovem de hoje poderá encontrar quadrinhos sem a mínima graça. São histórias curtas, com lutas braçais, e o Batman realiza um tremendo esforço para desbancar alguns vilões. Há também Robin, o menino prodígio, e ambos soltam as seguintes tipos de piadas em meio às lutas: “Mais divertido que um saco de pancadas!” e “Devia usar óculos companheiro!”. O Batman é mais propriamente um investigador, um detetive, pois tratam-se de aventuras com um clima noir. Os heróis contam com instrumentos bastante rudimentares para suas investigações e lutas contra o crime (cordas e afins), e o bat-móvel é um carro normal, só que personificado e com alguns recursos a mais.

O Batman contemporâneo é um sujeito bastante diferente. Ele é um cara repleto de recursos eletrônicos e tecnológicos, tem um carrão, uma moto, um navio que fazem verdadeiros milagres. No meio do caminho da carreira do Batman, desde os anos 40 até os dias atuais, o personagem passou por crises existenciais, perdeu amigos, se apaixonou, ficou mais forte, e assim por diante. Tudo bem, e daí Fsopho?

É interessante notar não somente estas mudanças relativamente a um mesmo herói, que a bem da verdade acontecem conforma muda a conjuntura social em que este está inserido, mas o veredicto que alguns fãs dão sobre estas mudanças. Há o tipo saudosista-ortodoxo que proclama: “O Batman não é mais o mesmo! Se tornou um super playboy com dons de Geek e força de bombadão. Não é mais aquele detetive que surgia como uma sombra na noite, com um ar de lugubridade, à busca de justiça”. Vemos um ar de romantismo neste tipo de fala. Mas há o tipo mais defensor das mudanças: “O Batman foi ficando mais arrojado. ‘Soc’ e ‘pow’ não tem mais graça, e nosso super-herói foi ficando cada vez mais interessante”. São tipo de fala. Ainda, estes veredictos podem revelar uma pergunta interessante: o Batman, quando produzido ainda nos dias de hoje, permanece fazendo sentido para o público?

Várias coisas entram em questão aqui. Um aspecto notável é que o Batman não poderia simplesmente se abster dos novos recursos, e talvez até mesmo de uma nova personalidade, uma vez que seus vilões mudam com o tempo. Isso porque, aquele que produz o Batman, não o fará como se fazia há sessenta anos atrás. Ainda assim, algumas coisas permanecem do original: o Batman continua sendo o justiceiro, aquele que tem sede de justiça. Mas parece que a própria figura do herói na contemporaneidade está perdendo o sentido. Vemos que as manifestações mais apropriadas atualmente contêm uma descentralização de personagens. Não há o personagem principal, e ele também não tem um objetivo fixo de buscar alguma coisa, como o Batman buscava (e ainda busca) a justiça.

Fica descabido o grunhido saudosista do nosso primeiro sujeito, porque ele quer uma peça de antiquário. E esta peça está lá, no sebo ou neste livro de que falei no início. Por outro lado, aquele que acha legal o Batman de hoje, o acha legal pelas coisas que ele dispõe da atualidade, e que se tornam interessantes mais do que a própria trama, do que o sentido da trama. O herói se desfaz em elementos: “Você viu o carro?”; “Bah, o cara tem um super rastreador”; etc. Ou seja, não existe mais a produção daquele Batman, e este Batman que é produzido hoje é um conjunto de coisas que também não são o próprio Batman. Por que então não se mata o Batman? Mas o Batman já está morto! Não faz sentido querer vê-lo vivo novamente, nem no cinema nem no gibi.

Heróis como esse constituem algo bastante abrangente no imaginário coletivo. Eles simbolizam alguma coisa, carregam um significado expresso por meios estéticos. O símbolo que fica no imaginário pode continuar buscando por uma complementação externa, e é a falta disso que sente o saudosista. No século XXI é preciso um novo tipo de herói, talvez um herói que nem mesmo seja herói, e isto está acontecendo. É assim que se resignificam os conteúdos do imaginário. As meninas super-poderosas também lutam com vilões, mas riem ao lado dele e não acontece nada de muito sério se as ameaças não são levadas à sério.

O Batman pode então ser visto como um de nós: tem sua finitude. Esta finitude está baseada no fim da complementação entre uma necessidade contemporânea expressa no entretenimento, e o status que a figura artística carrega para o indivíduo.

One comment

  1. Luis,
    tu acharias que a história em quadrinhos, como um tipo de arte, traria algo de novo entre os outros tipos, como a literatura, a pintura, etc.
    Porque, vejamos, a pintura ou uma obra literária diferem, ao longo da história, pelas interpretações que são dadas as elas.
    Já nas histórias em quadrinhos, do modo como tu explicaste, parece que haveria uma transformação na própria personagem e nas suas características, ou, em última instância, na obra de arte enquanto tal.
    E isto sugeriria, levando adiante teu ponto, que a “temporalidade” dos quadrinhos, enquanto arte, diferem bastante das outras expressões artísticas.
    Porém, isto parece ocorrer devido à ênfase que se dá, em um primeiro momento, apenas na personagem, o Batman, e não no artista que o criou, Kane/Finger. Transpondo isso para a pintura, seria quase como se pudéssemos interpretar a Monalisa não tanto como de Da Vinci, mas também de Andy Warhol ou de outros.
    Assim, me pareceria que a questão da autoria de uma obra de arte é uma questão que precisa ser levada em consideração.

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