O conceito de “luta pela existência” de Darwin n’As Origens das Espécies

Marcos Fanton

“Ecoando os ecos de Darwin”, estou colocando aqui a primeira parte da minha apresentação, que trata apenas do conceito de “luta pela existência” em Darwin, n‘A Origem das espécies. Como vai dar pra perceber, é um Darwin meio heideggeriano, que tem uma forte influência d’Os Conceitos Fundamentais da Metafísica. :P

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“Em um sentido amplo e metafórico”: esta é a primeira observação que Darwin realiza ao explicar o modo como utilizará o conceito de luta pela existência. E isto significa, por ora, a dependência que cada ser vivo tem com outro da mesma ou de diferente espécie, além do sucesso de cada um em viver e deixar descendentes. Com isso, Darwin mostra, com exemplos relativamente simples, que “lutar por” não significa apenas aquilo que entendemos a partir da semântica natural, isto é, uma atitude de combate entre dois adversários.

A origem desta luta encontra explicação na, assim descrita por Darwin, aplicação da doutrina de Malthus aos reinos animal e vegetal: como cada ser vivo, ao longo de sua vida, tende a reproduzir uma enorme quantidade de descendentes, e não há alimentos, espaço físico ou parceiros sexuais para todos, não há outra saída além de lutar pelas melhores condições de vida. Por isso, basta indivíduos de determinada espécie encontrarem condições favoráveis para sua existência, como uma mudança climática ou o desaparecimento de um predador, que haverá um incrível aumento na taxa de crescimento. E, do mesmo modo, em condições desfavoráveis, uma enorme taxa de destruição, com o perigo de sua extinção. Esta tendência natural de um crescimento geométrico dos indivíduos de cada espécie, uma regra que não há exceção no mundo orgânico, segundo Darwin, demonstra quão complexa e imprevisível é a rede de relações mútuas entre os seres vivos e quão constante é a luta pela existência entre eles, já que podemos constatar que nenhuma espécie, até hoje, cresceu tão espantosamente a ponto de sobrepujar as demais.

Assim, ao longo do capítulo terceiro, encontramos diversos exemplos empíricos das relações de luta pela existência que cada ser vivo tem com os demais e com o meio aonde vive. Darwin apresenta-nos desde relações bastante simples, como a de dois cães em tempos de escassez de alimentos, até um círculo de relações extremamente complexas, levando em consideração a influência de um único indivíduo na modificação das condições de vida de uma região inteira.

A descrição de tais exemplos irá culminar, no final do capítulo, em um “corolário da mais alta importância”, que diz o seguinte: “a estrutura de todo ser orgânico está relacionada de modo muito essencial, ainda que frequentemente oculto, com a de todos os outros seres orgânicos, com os quais entra em concorrência [competition] por alimento ou por habitação ou tem de escapar ou se alimentar.

Ainda que introduzido de uma maneira bastante simples, sem quaisquer mistérios, este “corolário” impressiona o leitor pela sua diferença em relação às descrições empíricas realizadas anteriormente. Tal enunciado, e esta é a tese de minha apresentação, não nos dá um novo conteúdo sobre a relação entre os seres vivos e sobre a luta pela existência daí decorrente. Contudo, é a partir dele que encontramos um novo modo de compreender como cada ser vivo existe e, por isso, é com ele que devemos voltar às descrições anteriores. Isto decorre, não tanto devido ao caráter universal deste enunciado, mas, sim, devido ao nível descritivo no qual Darwin salta, a saber: do nível empírico ao nível filosófico. Ou seja, Darwin mostra-nos o modo de ser de cada ser vivo, o que, para ele, significaria mais ou menos o seguinte: cada ser vivo luta pela existência dentro de um círculo complexo de relações entre os demais seres vivos e entre as condições físicas da vida. Nesse sentido, diria que não há ser vivo que não esteja relacionado estruturalmente desse modo. É importante, assim, esclarecer que entendo tal enunciado como sendo filosófico, porque podemos entendê-lo como uma determinação ontológica dos seres vivos e, por isso, não se reporta ao nível empírico, já que explicita as condições para a ocorrência dos fatos empíricos.

Daí, de acordo com o que vimos sobre o conceito de luta pela existência, podemos entender que, dependendo do círculo ou rede de relações que os indivíduos de determinada espécie estiverem situados (que entenderia por seu habitat), sua luta pela existência será de determinado modo. E, do mesmo modo, podemos dizer que, ao lutar por seu “lugar na economia da natureza”, como diz Darwin, tais indivíduos irão modificar as relações estabelecidas em seu habitat. Por isso, também os outros seres vivos sofrerão ou terão vantagens, pois ter-se-á estabelecido novos modos de relacionamento no círculo de relações. Cito o autor:

Portanto, podemos ver que quando uma planta ou um animal é colocado em uma nova região em meio a novos competidores, as suas condições de vida serão, geralmente, modificadas de um modo essencial, ainda que o clima possa ser exatamente o mesmo de seu habitat [home] original. Se sua média numérica quiser ser aumentada na nova região, teríamos que modificar esta planta ou este animal de um modo diferente do que teríamos tido de fazer em sua região nativa, pois teríamos que lhe dar alguma vantagem sobre um diferente conjunto de competidores ou inimigos.

Encontramos, então, uma espécie de “enraizamento” dos indivíduos de cada espécie ao seu habitat, tendo em vista que as suas modificações estruturais (as variações úteis preservadas e acumuladas) são realizadas de acordo com o círculo de relações estabelecido a cada momento. Esta última afirmação leva-me, assim, ao esclarecimento da ligação do conceito de luta de existência com o princípio da seleção natural – ligação esta que já aparece na introdução e no início do capítulo terceiro d’A Origem das espécies .

O princípio de seleção natural é descrito no início do capítulo três como o princípio no qual cada pequena variação, se favorável para os indivíduos de dada espécie (e apenas para eles), é preservada e acumulada por tais indivíduos e, assim, herdada por seus descendentes.

Com o exposto acima, vemos que a cada aperfeiçoamento de indivíduos de uma espécie, a rede de relações é modificada e, com isso, os outros indivíduos, para sobreviverem e poderem deixar descendentes, deverão também formar modificações vantajosas em determinado grau ou, em último caso, serão exterminadas. Disto se segue mais claramente o “enraizamento” de cada indivíduo em seu habitat, que falei anteriormente.

Para Anna Carolina Regner, a ligação entre o conceito de luta pela existência e o princípio de seleção natural estabelecida por Darwin foge de um padrão de causalidade habitual. Como o esquema de causalidade envolve sempre o modo de vermos e de concebermos cada estados de coisas, a luta pela existência pode ser entendida tanto como a responsável pelo princípio de seleção natural quanto o meio de ação deste princípio.

Sendo assim, poderíamos considerar um pressuposto teleológico nas explicações darwinianas.  Cada ser vivo tende a preservar e acumular apenas as variações favoráveis para sua sobrevivência em meio à rede de relações estabelecidas. Para James Lennox, Darwin reinventou a concepção de teleologia e, por isso, foi completamente mal-compreendido em sua época. Há, segundo o mesmo autor, uma teleologia baseada na seleção (a selection-based teleology), e não mais em fins determinados conscientemente ou por um design divino. E, para comprovar esta tese, Lennox oferece-nos o seguinte exemplo: no sul do Caribe, um grupo de machos de uma população de guppies (ou, também, barrigudinhos, uma espécie de peixes [poecilia reticulata]) adquiriu um padrão de cor vermelho que correspondia ao padrão das rochas do fundo da lagoa aonde viviam. Mais tarde, descobriu-se que este padrão de cor trazia-lhes vantagens tanto para a sobrevivência, porque o predador daquela região era cego à cor vermelha, quanto para a seleção sexual, porque era atrativa às fêmeas.  Daí, Lennox entende que a aquisição deste padrão de cor somente é uma adaptação, no sentido utilizado pelo darwinismo, se ela for um produto da seleção natural. E, para tanto, deve haver um leque de variações de cores maior do que apenas esta cor particular nos recursos genéticos ou de desenvolvimento desta espécie, incluindo, no entanto, ela mesma. Com isso, compreendemos que adquirir o padrão de cor vermelha aos machos desta espécie é bom para eles, ou seja, é-lhes favorável para sua sobrevivência e, ainda, para o sucesso na reprodução. Além disso, é importante não perdermos de vista que a variação selecionada naturalmente ocorreu de acordo com a posição na qual os indivíduos de tal espécie ocuparam em seu habitat, o que me levaria a acreditar que, em um habitat diferente, a variação ocorreria de maneira diferente.

Com esta breve apresentação, esclarecemos que: (1) o conceito de luta pela existência desempenha um papel heurístico na investigação dos fenômenos da natureza e da relação entre os seres vivos, já que, sem ele, corremos o risco de interpretar a natureza de maneira completamente errônea (vemos apenas uma “face da natureza”).  (2) a luta pela existência pode ser vista através de um fundo filosófico, no qual é parte do modo de ser de cada ser vivo, que se encontra em meio a um círculo de relações complexas, mútuas e não totalmente previsíveis entre outros indivíduos da mesma espécie, de outras espécies e, ainda, entre as condições físicas da vida (clima, solo, vegetação, alimento, etc.). Tal círculo foi denominado por mim, ainda que vagamente e sem uma argumentação consistente, de habitat. (3) o conceito de luta pela existência possui uma ligação de co-determinação com o princípio de seleção natural.’

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