Questão de método

Filipe Campello

Em seu comentário a meu último post, Marcos me perguntou sobre a discussão metodológica daqui de Frankfurt. Estava respondendo nos comentários, mas, por considerar esse aspecto mais amplo (e, por outro lado, tem a ver com a pergunta da Tatiana, no que se refere também à questão metodológica), preferi postar.

Bem, esse debate é complicado, porque já envolve um amplo tratamento filosófico. Eu diria que são dois eixos que basicamente conduzem a preferência metodológica aqui em Frankfurt. O primeiro refere-se à herança da Escola de Frankfurt, na qual, desde a conferência que Adorno proferiu quando assumiu o posto de Professor, intitulada Die Aktualität der Philosophie, ele defendera que só a filosofia pode mover-se pela diversidade de material proveniente do estágio atual das ciências especializadas, ao tempo em que ela não deve ter o direito de pôr-se acima das ciências. Cito Adorno: “Só a filosofia pode utilizar a abundância do material e a concretude dos problemas no estágio atual das ciências especializadas. Ela não terá, com isso, o direito de elevar-se acima das ciências especializadas, integrando seus ‘resultados’ como acabados e meditando sobre eles a uma boa distância. Ao contrário, os problemas filosóficos encontram-se sempre incluídos nos debates científicos mais acirrados, e, de algum modo, irremediavelmente incluídos” (Adorno, Schriften 1, 334). A isso Habermas e Honneth, cada um a seu modo, deram prosseguimento. Isso, obviamente, não é pacífico. Lembro que uma vez discuti isso com o Stein, quando, em sua casa, ele tinha me mostrado sua Antropologia Filosófica, dizendo que naquele mesmo dia a tinha acabado. Na minha leitura, ela traz antes de tudo esse problema. Pelo que me parece (acompanhei a elaboração do livro, mas ainda não pude ter acesso a ele depois de lançado) uma das questões fundamentais ali é qual deve ser o método de uma antropologia filosófica, e mostra que não há como desenvolvê-la sem levar em conta um diálogo sério com as ciências especializadas. Esse tipo de delineamento caracteriza em geral o que se entende por pensamento pós-metafísico, ou, num outro sentido, uma metafísica crítica, como, por exemplo, o que o Luft propõe. Mesmo que se aceite esse tipo de orientação ainda permanece em aberto qual o método a ser adotado neste diálogo e qual o status específico da filosofia nesse tipo de tratamento, o que seria bastante extenso pra tratar aqui.

O segundo eixo é o da filosofia analítica. Eu acho Frankfurt uma das universidades alemães mais americanas (a cidade, por motivos óbvios, já é assim).  Claro que, por um lado, isso se deve a circunstâncias históricas, nas quais se destaca, em relação à filosofia, o exílio da Escola de Frankfurt nos EUA. A orientação analítica, que iniciamlente teve sua influência por aqui não enquanto ligada à Escola de Frankfurt, mas, pelo contrário, paralela a ela, tem uma influência forte também no tratamento de questões da filosofia continental. Desse modo, Frankfurt segue a tendência das últimas décadas de aproximar ambas perspectivas.

Ao colocar o que entendo como duas linhas metodológicas de Frankfurt, a minha intenção é de ampliar o debate dos últimos dias aqui no blog. A pergunta por si só leva suas respostas a proporções enormes (a pergunta se refere a aspectos ontológicos, epistemológicos, metodológicos). Ao meu entender (e também o Marcos aponta pra isso no final do seu post), a distinção metodológica entre fenomenologia e hermenêutica é bastante tênue (e, portanto, mais complicada).  Aqui só fiz ligá-la a um caso específico daqui de Frankfurt, o que pode não servir para aprofundar essa distinção, mas que, por outro lado, põe em diálogo ambas perspectivas com um outro modo de tratamento da linguagem, como seria o caso de Habermas. Concluo com a lembrança que amanhã o Jorjão (como diz um amigo meu) faz 80 anos (pra vocês terem idéia do que significa “transferência”, será “feriado” no seminário do Honneth). Por ocasião do seu aniversário, hoje terá uma palestra do Habermas abrindo uma exposição sobre o seu pensamento na Deutsche Nationalbibliothek. Depois postarei algo sobre esse momento.

2 comentários

  1. Olá, Blog interessantíssimo, parabéns…

    Alison

    http://www.alison-mandeli.blogspot.com

  2. Obrigado, Alison. Dei uma olhada no teu blog e tb achei mt bom. Sucesso aí em Londrina!

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: