Filosofia e Ciências Socias: as inovações teóricas do paradigma fenomenológico

Marcos Fanton

Bom, como a Tati já deve estar de saco cheio de conversa de filósofos, vou tentar respondê-la de uma maneira mais aproximada ao campo das ciências sociais, com um autor diretamente dessa área. Ela perguntou anteriormente: “Quais são as diferenças existentes entre Hermenêutica e Fenomenologia? (Minha preocupação diz respeito especificamente às questões ontológicas, epistemológicas, e metodológicas, bem como a relevância e as implicações desses dois paradigmas para a pesquisa em Ciências Sociais)”; e depois adicionou nos comments: “Se a fenomenologia possui um entendimento de ontologia diferente do que foi explicitado acima, como então entender/fazer uma ciência social de cunho fenomenológico?” Neste post, vou falar apenas da fenomenologia.

Acho que o autor mais importante e, talvez, o que de fato introduziu a fenomenologia nas Ciências Sociais é Alfred Schutz (1899-1959). Os livros mais importantes dele devem ser A fenomenologia do mundo social (Der sinnhafte Aufbau der sozialen Welt, 1932) e As estruturas do mundo da vida (o seu projeto mais maduro e publicado apenas depois de sua morte).

A proposta de Schutz é a seguinte: uma ciência social de cunho fenomenológico deveria começar, para interpretar e explicar as ações e pensamentos humanos, com uma descrição das estruturas fundacionais do que é pré-científico, da realidade que parece auto-evidente para os homens. Esta realidade é o mundo-da-vida cotidiano. E é neste terreno que nós operamos: nós elaboramos objetivos e eventos,  entendemos o que outras pessoas querem dizer ou fazer,  percebemos obstáculos para nossas ações, etc.  Nele, nós quase sempre damos por certo (take for granted) o que nós experenciamos; todo acontecimento é inquestionável ou não problemático. Esta é a “atitude natural”. Segundo Schutz, nesta atitude natural que temos no mundo-da-vida, nós damos por certo, por exemplo, (a) a existência corpórea de outros homens; (b) que tais corpos são dotados de uma consciência essencialmente similar à minha; (c) que as coisas no mundo exterior incluídas em meu meio e os membros da comunidade que participo (fellow-men) são os mesmos para mim e ambos têm fundamentalmente o mesmo significado; (d) que eu posso ter inter-relações e ações recíprocas com tais membros; (e) que eu posso me fazer entender para eles; etc, etc.  Nessa atitude natural, como praticamente tudo é já dado a mim como explicado, eu tenho que ter um grau suficiente de compreensão para poder agir e operar a partir disso. E esta compreensão é articulada em meu “estoque/inventário de conhecimento” (stock of knowledge), que não é um sistema logicamente integrado, mas a totalidade de minhas explicações sedimentadas e condicionadas situacionalmente, compostas por soluções de problemas “tradicionais” transmitidas individual ou socialmente. Ex: eu sei para quê e como usar meu microondas, porque li o manual ou vi meus pais ou algum amigo utilizando,  etc. Se, no entanto, eu percebo que meu microondas está estragado, e eu não sei consertá-lo, então eu sei o que fazer para o ver funcionando: que tenho que ligar para alguém que saiba arrumar microondas, saber como encontrar o número, como ligar, como levar o microondas, qual o custo, o tempo, etc.

Quais as implicações teóricas que temos aqui?

(1) Implicações ontológicas: segundo a descrição que a Tati postou nos comments, a ontologia é entendida como “aquilo que o mundo realmente é”;  “os pressupostos da natureza do mundo social e político e, especialmente, da natureza de relações causais nesse mundo”. De fato, é uma descrição breve, mas já podemos tirar algumas diferenças da sociologia de Schutz. O que temos de novidade é que não encaramos mais esta “natureza do mundo” como neutra; ela é aquilo que tomamos em uma estrutura comum de interpretação no nosso cotidiano. Sim, ele realmente é, mas isto significa que ele é auto-evidente, que não preciso de maiores explicações (o Fabrício sabe muito mais que eu sobre isso). Por isso, me pareceria que para Schutz as relações causais são insuficientes para explicarmos os fenômenos sociais, já que, antes disso, o sentido das nossas ações, o sentido que damos para os objetos, para as outras pessoas, etc. é o determinante. E, dessa forma, há uma mútua relação: o mundo-da-vida modifica nossas ações e nossas ações o modificam (há uma intersubjetividade). E este é um modo de vermos as pessoas, os objetos, as relações entre estes, o mundo, etc., a partir de uma ontologia diferente.

(2) Implicações metodológicas: se o interesse das ciências sociais é descrever o mundo-da-vida, para isso é necessário um método específico. Para Schutz, o método fenomenológico de Husserl é o único que possui um rigor suficiente para esse tipo de análise descritiva, da ação simbólica do homem e do trabalho material. A questão aqui, me parece, é ter atenção àquilo que damos por óbvio. Por exemplo, na descrição de ontologia que a Tati deu, o autor “dá por óbvio” que o “mundo realmente é assim, que existem relações causais”. Porém, para teorizarmos nesse nível da “obviedade”, precisamos de um método específico, que possa descrever essa atitude do “tomar por óbvio”. É justamente ali, onde os outros cientistas tomam como pressupostos indiscutíveis, a fenomenologia percebe o campo mais rico de análise. Tanto é que no seu primeiro livro, A fenomenologia do mundo social, ele irá falar de uma “sociologia interpretativa”.

(3) Implicações epistemológicas: Com esse tipo de análise, nós entramos, também, em outro modo de entendermos o problema do conhecimento. Como estamos sempre envolvidos praticamente no mundo-da-vida, que é intersubjetivo e contextual, a produção do conhecimento também emerge do mundo-da-vida. A noção de “estoque de conhecimento” que coloquei antes mostra, por exemplo, como conhecemos algo, como lidamos com situações que não nos são familiares, quais motivos temos para conhecer determinados tipos de conhecimentos ou até mesmo como o conhecimento é distribuído socialmente, etc.

A partir dessas implicações, também o modo de fazer ciências sociais emergiria do mundo-da-vida, pois o próprio teórico também se encontra nele; ele não pode se excluir. Isto poderia trazer análises diferentes, com tipificações construídas da situação em que se encontra o intérprete, etc.

Outro texto que eu recomendaria enfaticamente, por me parecer extremamente sensível e muito bem elaborado, é o da Knorr Cetina, Culture in globa knowledge societies: knowledge cultures and epistemic cultures. Nesse texto, a autora procura mostrar as inovações que estão se realizando nas pesquisas sobre a produção do conhecimento. Por exemplo, se antes a filosofia explorava apenas os métodos científicos, sem se interessar pelas questões empíricas que envolvem a produção do conhecimento, agora ela deve se preocupar com isso. Ela chama isso de um practice turn, em que o conhecimento é entendido como um processo, uma prática, em que se presta atenção ao modo como, por exemplo, materias de laboratório adquirem sentido para o cientista, que tipo de metáforas um físico usa, como há uma categorização e catalogação de pesquisa, como uma “cultura epistêmica” influencia a outra, etc. Com isso, ela argumenta que há uma inovação radical na pesquisa:

For the first time in the history of the investigation of science, the studies used the anthropological method of direct observation and ethnography systematically and strategically to break open the black-boxed and esoteric processes of natural-scientific knowledge.

Espero que o texto tenha ajudado a esclarecer algumas dúvidas da Tati. Em relação à hermenêutica, infelizmente não consegui dar conta e vou deixar para a próxima, apesar de ter muitas semelhanças com o paradigma fenomenológico… :P

39 comentários

  1. Assinar post=Lenda.

    Muito bom este post, Farroupilha.

  2. Obrigada pela resposta, Marcos! Gostei muito do teu post! :)

    Apenas para dar sequência a discussão, que me interessa bastante: Como uma Ciência Social Fenomenológica responderia à proposição da falsificação popperiana? E mais: como, a partir dessa perspectiva, podemos entender a possibilidade (ou não) de acumulação de conhecimentoo científico?

  3. Muito legal. Para mim, que pesquiso Criminologia (e portanto ciências humanas), a “revolução” da fenomenologia é fundamental. E o sentido máximo que extrairia dela é jogar a questão do mundo social no sentido, praticamente o mergulhando na linguagem. Esse “entre” que está no meio de nós e das coisas, e nos abre o acesso a elas, é precisamente o que para mim constitui a tessitura ontológica do mundo social (e torna o qualitativo irredutível ao quantitativo). Nesse sentido, hermenêutica ou ética da alteridade desempenham papel fundamental.

  4. A última frase ficou vazia de sentido: hermenêutica ou ética da alteridade desempenham papel fundamental para a pesquisa.

  5. Sobre a questão da falsificação, let me jump into this discussion a little:
    Na Krisis, eu creio que Husserl aponta para uma questão crítica sobre o objetivismo do saber sobre ALGO:
    “The naivete of speaking about “objectivity” without ever considering subjectivity as experiencing, knowing, and actually concretely accomplishing, the naivete of the scientist of nature or of the world in general, who is blind to the fact that all the truths he attains as objective truths and the objective world itself as the substratum of his formulae (the everyday world of experience as well as the higher-level conceptual world of knowledge) are his own life-construct developed within himself – this naivete is naturally no longer possible as soon as life becomes the point of focus. ”

    Vamos observar aqui que existe um mundo-vivido de experiencia, um mundo quotidiano, e um moundo de conhecimento, conceptual. Observamos também que ambos mundos são construídos, são mundo-vividos que se expressam de forma diferente.

    Podemos dizer que o mundo-quotidiano (homeworld) é este mundo de impressões e experiências imediatas que são dados para a forma como vamos conhecer o mundo. Mas o conhecimento, ele mesmo, está em um nível superior, ele é de certa forma “desvelado” conforme somos capazes de verificar nossas impressões sobre o mundo.

    Neste sentido, um fenomenólogo vai responder ao Popper que sim, somos capazes de falsificar crenças prévias, de descobrir algo novo que re-significa uma crença anterior. O status de verdade daquilo que verificavas antes, não é mais dado. Mais ou menos como um prédio, do qual verificavas apenas uma perspectiva, e que agora és capaz de ver tri-dimensionalmente. Ao contrário de Popper, no entanto, não é um sujeito-transcendental que vai te dar os elementos para isso. Mas um sujeito em relação com o mundo no qual ele está situado e com os objetos que cercam ele neste mundo. Mais uma vez, existe uma articulação entre sujeito-mundo-compreensão que vai dar em uma certa compreensão de algo enquanto “verdadeiro”.

    Mas então como lidamos com concepções conflitantes de verdade que entram em conflito?

    Eu não canso de insistir nisto: Uma compreensão fenomenológica NÃO EXCLUI a possibilidade de dizer que certa compreensão é melhor que outra. A correspondência entre o que se diz sobre o objeto e o objeto que está ali é importante, a forma como tu descreve uma experiência é importante. Como diz o Steinbock, a questão é se tu és capaz de descrever o que está acontecendo na realidade de forma inteligível. Este inteligível pressupõe a verificabilidade do que tu estas dizendo. Mas o interessante é que porquê somos capazes de inserir elementos novos de descrição, mudamos aquilo que é existente sobre determinado objeto o tempo todo – neste sentido, existe algo que somos capazes de chamar de “mudança” ou “dinâmica” no conhecimento científico.

    A acumulação de conhecimento científico, então, é historicizada dentro deste “mundo-vivido”, ela é temporalizada. Mesmo aquilo que foi falsificado é fundamental para o que tu vais compreender, aqui e agora, como verdadeiro. Aquilo que é verificável agora, pressupõe os elementos que foram não-verificáveis, e como eles foram não-verificáveis. Qual foi, afinal, o fenômeno que te preocupaste em falsificar? Como procuraste falsificar ele? Tudo isso participa da “acumulação”, neste sentido qualquer conhecimento que temos é um conhecimento vivido.

    Bom, acho que chega isso para eu não me meter muito no post do Farroupilha. :)

  6. Moysés, como esta tessitura se reflete no discursso jurídico? Quero dizer, como tu pensas esta relevância ontológica do qualitativo que supera o quantitativo, sem cair em uma espécie de descaso com os elementos-limite (que são expressados quantitativamente tanto quanto qualitativamente) em uma pesquisa?

    Quero dizer, sem o quantitativo, o qualitativo não fica um tanto cego? Não saímos do terreno da teoria e entramos no terreno da literatura?

  7. Não sou contrário ao quantitativo. Há fenômenos cujas dimensões e impacto necessitam dessa apreciação. Só dizia que há uma irredutibilidade do qualitativo sobre o quantitativo, devido ao salto da linguagem sobre a “natureza”. Por isso, acredito que o sonho cartesiano/positivista de reduzir tudo à quantidade não se sustenta, sob pena de mutilar o fenômeno que investiga.

  8. Já quanto à questão do jurídico, não entendi a perguta.

  9. Na realidade, a minha pergunta foi sobre esta tua colocação aqui:
    “Esse “entre” que está no meio de nós e das coisas, e nos abre o acesso a elas, é precisamente o que para mim constitui a tessitura ontológica do mundo social (e torna o qualitativo irredutível ao quantitativo)”

    Como tu “operacionalizas” esta tensão que tu estas descrevendo entro mundo social e o quantitativo? Porque se eu te entendi direito, tu estás dizendo que aquilo que expressamos quantitativamente não é tão relevante quanto o que fazemos em termos qualitativos. Pois bem, como fica isso quando tu operas com uma social-aplicada?

    Sobre a questão de redução Cartesiana, não custa manter em mente que a intenção (pun-intended) de um cara como o Husserl era justamente radicalizar esta redução através da Fenomenologia – o problema do positivismo é a objetivização do conhecimento, coisa que, sejamos justos, Descartes nunca tentou.

  10. Me parece que as sociais aplicadas devem trabalhar na linguagem, e não nos “fatos”. A idéia do “fato social” e as relações causais entre eles, típica da sociologia mais engajada no quantitativo, me parece “ingênua”. A quantitativa pode mensurar alguma coisa, mas jamais é capaaz de a compreender.

  11. O que vcs estao querendo dizer com quantitativo e qualitativo nao se refere somente ao metodo de teste de uma teoria? Porque o metodo de teste so depende da pergunta de pesquisa (ou da “teoria”) criada, e nada mais. O tipo de teoria criada eh que informa se o autor eh positivista ou nao, e nao o metodo de teste (que eh mera consequencia).

    To dizendo isso pq me pareceu que esta implicito na discussao uma associacao entre quantitativo e positivista. E pelo que eu entendo por positivismo, alguem pode utilizar um metodo qualitativo e ainda assim ser positivista. Assim, conclusoes do tipo que um fenomeno, por ser “mensuravel”, nao eh informativo para a nossa “compreensao” eh equivocada. Alem de que pesquisa qualitativa tb identifica variaveis para mensuracao.

    Ou vcs estao querendo dizer outra coisa por qualitativo? Valeu!

  12. Assino embaixo do que o Carlos disse. Acho que o Moysés está adotando uma distinção muito ingênua entre quantitativo e qualitativo, e ignorando radicalmente a produção contemporânea em ciências sociais. Essa associação do quantitativo com o “fato social” (que me parece ao que ele se refere, o fato social durkheimiano) é bastante equivocada e antiga.

  13. marcosfanton · · Responder

    Voltando à pergunta inicial da Tati, gostei muito do que o Fabrício escrevei. Concordo com essa questão da descrição fenomenológica, e acho que, talvez, daria pra dizer que há um elemento de encobrimento sempre; que, se um cientista social nunca vai conseguir dar conta de descrever tudo aquilo que ele observou, estudou, pesquisou, etc., sempre outro poderá perceber algo encoberto e realizar outro tipo de descrição, etc… Será? :)
    Sobre a questão em pauta do quantitativo-qualitativo: acho que o modo como o Moisés colocou a questão no início parte de uma “noção polarizadora”, que tenta derrubar ou silenciar o discurso de um a partir do outro. Assim, tu vai do nível teórico para o ideológico. Ora, afinal, como é possível ter um critério assim tão certeiro de que o qualitativo é “melhor per se” ou consegue compreender o fenômeno e o quantitativo não? Realizar essa distinção desse modo, sem ouvir as razões de ambos lados (e as razões PLAUSÍVEIS)pode levar a um irracionalismo.

  14. Achei bastante interessante a questão sobre a falsificação de teorias científicas, elemento importantíssimo para a teoria da ciência de Popper. É certo que, quando está a falar de falsificação, Popper pressupõe alguma forma de objetividade: falsifica-se uma tese, uma hipótese, e não faz sentido dizer que ela é falsa ‘para mim’ mas não ‘para ti’. Basta lembrar que o sentido mais unívoco da objetividade é o sentido de ser ‘independente da mente’, admitindo este próprio sentido interpretações variadas (strictu e latu sensu).
    Pois bem, e agora esta pergunta sobre como fica a proposição falsificacionista de Popper em uma ciência que se utiliza de um método fenomenológico, é quase como uma pergunta direta sobre se há objetividade alguma quando se aceita os ‘axiomas’ da fenomenologia para a prática científica.
    Mas re-significar uma ‘crença anterior’ como falou nosso colega, não é sinônimo de falsificar teses ou hipóteses. Claro que este poderia ser um modo de falar próprio da fenomenologia, mas nem por isso dizemos que, em relação à objetividade, tal modo de falar significa o mesmo que o modo de falar ‘ingênuo’ do cientista realista e objetivista. E é este último que falsifica teses e hipóteses na atividade científica. Peço um esclarecimento sobre como se justifica uma objetividade em fenomenologia (e me avisem se chegarem tão logo às coisas mesmas!)

  15. Bom, lá no segundo comentário afirmei que não tenho nada contra o quantitativo; ao contrário, ele é por vezes necessário para mensurar certos fenômenos. Não estou polarizando ideologicamente as coisas, apenas afirmando (e reafirmando) uma irredutibilidade do qualitativo ao quantitativo, devido ao salto da linguagem sobre o “fato”.
    O complexo de pesquisas que trabalha mais com o quantitativo na minha área (criminologia) é a chamada “criminologia atuarial”, geralmente engajada em estatísticas criminais e correlações causais (razoavelmente distantes de Durkheim. Apesar disso, acho que o funcionalismo também tem inúmeros problemas). O que se vê nos resultados dessas pesquisas é geralmente um resultado “ingênuo”, ou seja, que trabalha determinados termos carregados de “sentido” como se fossem “fatos”. Exemplo grosseiro: X alunos “afrontam a autoridade” do professor em sala de aula. Esse tipo de pesquisa faz alguém como eu — leitor empolgado de Derrida — dar algumas risadas.
    Moral da história: o quantitativo é necessário, mas pode ser cego, da mesma forma que, creio eu, Heidegger via a pesquisa empírica e seus pressupostos.

  16. Moche,

    Da pra vc explicar como esta pesquisa “qualitativa” que vc esta falando aparece na pratica com um exemplo? Pq eu nao entendo como alguem, qualitativamente, deixa de ser “cego”?

    O que eu conheco como pesquisa qualitativa identifica variaveis e relacoes entre elas assim como em pesquisa quantitativa; sem correlacoes ou equacoes estruturais mas com as mesmas intencoes de inferir causalidade (ver Miles & Huberman – http://www.amazon.com/Qualitative-Data-Analysis-Expanded-Sourcebook/dp/0803955405).

    abraco!

  17. marcosfanton · · Responder

    Sinceramente, acho que hoje quem está cego são os filósofos, que não conseguem dar conta de explicar ou contribuir para as explicações nas áreas empíricas.

  18. Carlos, exemplo de pesquisa qualitativa: “Eu, Pierre Riviere…”, do Foucault.

    Quando me refiro ao “cego”, quero dizer apenas que certos conceitos que estão na linguagem são tratados como se “fatos” fossem.

    Marcos, não concordo nada contigo. Ao contrário: vejo filósofos como Foucault, Agamben, Derrida e Benjamin como decisivos para as nossas ciências humanas. O que talvez aconteça é uma resistência corporativa dessas ciências à filosofia.

    Me parece que são vocês é que estão tentando me pôr na posição de “adversário-sectário do quantitativo” ou até “das ciências empíricas”, quando eu jamais afirmei isso.

  19. Moyses, me parece que o pessoal ta tendo dificuldade de entender esta afirmacao:
    ” Só dizia que há uma irredutibilidade do qualitativo sobre o quantitativo, devido ao salto da linguagem sobre a “natureza”.”

    Quando tu colocas isso, parece que esta dando a entender uma impossibilidade de narração quantitativa de fenomenos, que não teria como fazer esta redução devido à complexidade linguística dos fenômenos. Creio que tanto o Carlos quanto a Tatiana não estão “comprando” esta afirmação – por exemplo, porque não deveriamos levar em consideração relações causais e evidências numéricas? Como esta redução causal implica, de fato, em um perda qualitativa? Ela não é apenas uma forma de testar as tuas hipóteses “lá fora”, como o Carlos gosta de dizer?

    Só tô tentando mediar, por que creio que estamos chegando em um ponto interessante da discussão.

  20. Sobre o comentário do Luis,
    seguinte:
    se a gente vai falar desde o ponto de vista da fenomenologia, a idéia de um objetivismo rigoroso é completamente falida. Isso é porque o ato de significação sempre vai pressupor alguém capaz de significar. Sem linguagem os objetos não tem nenhum tipo de relevância ontológica. Posto isto, existe uma falsificação porque os processos de re-significação tem um “optimun”, eles podem ser mais ou menos bem-sucedidos. Mas este é um tema complicado para burro, que exigiria um post todo novo – talvez um artigo, mesmo.

    1. marcosfanton · · Responder

      Ou uma dissertação! :P

  21. marcosfanton · · Responder

    Pois é, posso ter sido um pouco precipitado. É que, como o Fabrício já explicou melhor ali em cima, parece que tu dizes algo como: bom, tudo bem, podemos até fazer uma concessão ao quantitativo, MAS o qualitativo…

  22. Fabs, lá vai o primeiro exemplo que me vem na cabeça, mas prometo elaborar outro mais típico das ciências sociais mesmo.
    A aplicação da neurobiologia/psico-comportamental na criminologia. Podemos dizer, X tem transtorno de personalidade anti-social, pois demonstra agressividade, dificuldades de relacionamento, etc., além do fato de seu cérebro ter as reações X e Y diante do situação tal e tal.
    Ora, um fenomenólogo (e ainda mais um desconstrutivista – aí, essa palavra virou sinônimo de ofensa…), vai olhar para isso e ver um terreno fértil para desconstrução. Porque “agressividade”, “dificuldade de relações” não são “fatos”, mas algo da nossa linguagem. Também as perturbações no cérebro não são suficientes para explicar, uma vez que eu posso dizer que diante da situação X o cérebro de João reage da forma Y, mas não posso dizer PORQUE diante da situação X e não da Z ele reage dessa forma. É a velha discussão entre determinismo/livre-arbítrio que – creio eu – já foi completamente superada pela fenomenologia, especialmente Heidegger. (Sei que vcs discutem por aqui essa história da “ponte” entre eu e o mundo.)
    Pela minha leitura da antropologia filosófica do Stein, parece que ele sustenta algo parecido quando ele afirma que as ciências evolucionárias não podem recuar até antes da pré-compreensão, pois estamos sempre dentro do círculo hermenêutico. É nesse sentido que eu ponho que ciências sociais que não tomam em consideração a linguagem são “ingênuas”, no típico sentido que a palavra adquiriu.
    É nesse sentido que ponho da questão do “salto”. Mais ou menos como a crítica de Derrida a Freud em “Mal de Arquivo”, quando ele afirma que, apesar de Freud ter descoberto a prótese, continuou indo atrás do ponto em que “as pedras falam por si”.

  23. Marcos, só acho que existe uma irredutibilidade do qualitativo ao quantitativo, mas isso não torna o quantitativo inútil – jamais. O quantitativo só consegue nos dar uma estimativa e corre sempre o risco de – sendo “ingênuo” – portar o germe da sua desconstrução. Mas ele também é algo que dá consistência ao qualitativo, em termos científicos, quando os fenômenos são de alta magnitude. Só que ele não “entra” no fenômeno, apenas o “mede”.

  24. Ah, desculpem, os comentários ficaram super mal-escritos!

  25. Vamo lá, que a discussão tá boa.

    A chave é:
    “Porque “agressividade”, “dificuldade de relações” não são “fatos”, mas algo da nossa linguagem. ”

    Não podem ser as duas coisas? Quero dizer, algo da nossa linguagem não constitui fato? Ou pelo menos uma facticidade? Não é meio este que o ponto de uma fenomenologia?

    A redução quantitativa não pode te ajudar a tratar esta agressividade de uma forma mais profícua do que a desconstrução? Quero dizer, a gente não tem evidências que a redução da leucemia à um tipo de câncer que acontece assim-e-assado não ajudou no tratamento da leucemia? “Ah, mas existe muito mais sobre a leucemia, que não somos capazes de narrar”. Tudo bem, é verdade. Talvez isso não seja TUDO sobre a Leucemia. Diabos, “Leucemia” é só uma forma de entender algo que tá acontecendo no teu corpo. Beleza. Mas o tratamento melhora a condição! Agora, posso passar o resto da semana desconstruindo o discurso médico sobre a Leucemia, e enquanto isso neguinho vai continuar morrendo no hospital. Mesma coisa a agressividade, posso fazer mil e uma especulações sobre a agressividade, mas as mais profícuas para a procura de soluções são aquelas que eu consigo testar – estas me permitem propor algo para tornar pessoas menos agressivas. “Ah, mas o que é agressividade”. É o que a gente é capaz de identificar como agressividade.

    Outra frase chave é a que tu fecha teu comentário.
    Ok, ele não “entra”, mas apenas “mede’o fenômeno. Será que ele não TESTA uma HIPÓTESE? Quero dizer, podemos especular que a lua é feita de queijo (adoro este exemplo, perdoem-me) mas não conseguimos verificar esta hipótese. Não importa o quanto eu desconstrua as hipóteses sobre a Lua, ela nunca vai ser feita de queijo por que eu digo que ela é feita de queijo. Me parece, isso sim, que a desconstrução é uma ótima estratégia se tu queres identificar “Bad Science”. Ainda assim, Derrida precisaria os explicar como a descontrução é vantajosa se ela vai nos permitir dizer que é verdade que a Lua é feita de queijo. Por isso que eu resisto a idéia que o quantitativo apenas “mede” o fenômeno. Ele é mais que uma régua. O que acontece é que o aspecto quantitativo vai sempre te manter diante de um REFERENTE. Tudo bem, tá fora de moda falar de referente, eu sei. Mas vamos lá, não adianta ficar especulando sobre a violência, agressividade e não conseguir testar algumas das hipóteses que tu tá entertendo sobre isso. E me parece jogar sujo dizer “mas é que estou DESCONSTRUINDO estes dados”. As vezes isso me soa como quando tu tem um grupo de crianças brincando de polícia-e-ladrão, alguém dá um tiro “Bang, te matei”. Resposta: “Não matou não, eu tava usando colete a prova de balas!”.
    “Bang, isso não se verifica” . “Não importa, eu tô desconstruindo a noção de verificabilidade!”

  26. Vou tentar responder alguns pontos, depois tu me cobra:

    Não podem ser as duas coisas? Quero dizer, algo da nossa linguagem não constitui fato? Ou pelo menos uma facticidade? Não é meio este que o ponto de uma fenomenologia?
    —-
    Sim, com certeza. É, por exemplo, a tal da profecia-que-cumpre-a-si-mesma. Ok. Mas quando falava de “fatos” acho que tu entendeu que estava falando de “objetividade”, quer dizer, uma espécie de perspectiva-fora-da-perspectiva, um-olhar-do-fato-nu, algo do gênero.

    A redução quantitativa não pode te ajudar a tratar esta agressividade de uma forma mais profícua do que a desconstrução
    ———–
    Depende. A desconstrução pode inclusive desconstruir a idéia de que é necessário “tratar” certas agressividades.

    Não importa o quanto eu desconstrua as hipóteses sobre a Lua, ela nunca vai ser feita de queijo por que eu digo que ela é feita de queijo.
    —–
    Não entendo como seria possível chegar a essa AFIRMATIVA a partir da desconstrução.

    Tudo bem, tá fora de moda falar de referente, eu sei. Mas vamos lá, não adianta ficar especulando sobre a violência, agressividade e não conseguir testar algumas das hipóteses que tu tá entertendo sobre isso. E me parece jogar sujo dizer “mas é que estou DESCONSTRUINDO estes dados”. As vezes isso me soa como quando tu tem um grupo de crianças brincando de polícia-e-ladrão, alguém dá um tiro “Bang, te matei”. Resposta: “Não matou não, eu tava usando colete a prova de balas!”.
    —–
    Nem eu nem Derrida jamais pensamos que a desconstrução exclui a ciência. Porque polarizar isso? A desconstrução trabalha, inclusive, PARA a ciência, iserindo-a em quadrantes mais potentes. É aquela história da verdade lá do Limited Inc.
    Por outro lado, ela pode ser útil – MUITO útil – diga-se de passagem, para por exemplo chegar diante de um médico que quer “curar” um homossexual e desconstruir o homossexualismo como doença. Quer dizer: evitar uma violência que se dá com pretextos pragmática e apressadamente cietíficos. Acho que tão importante quanto investigar, p.ex., estratégias para reduzir a agressividade, é, na outra mão, desconstruir eventuais estratégias que podem ser simples violência.

  27. Uma parte ficou ambígua, corrijo:

    “Não podem ser as duas coisas? Quero dizer, algo da nossa linguagem não constitui fato? Ou pelo menos uma facticidade? Não é meio este que o ponto de uma fenomenologia?”
    —-
    Sim, com certeza. É, por exemplo, a tal da profecia-que-cumpre-a-si-mesma. Ok. Mas quando falava de “fatos”, eu estava falando (e acho que tu entendeu) de “objetividade”, quer dizer, uma espécie de perspectiva-fora-da-perspectiva, um-olhar-do-fato-nu, algo do gênero.

  28. Eu acho que eu entendi. O que o Moche ta chamando de pesquisa qualitativa eh o processo de teorizar. Se eu entendi certo, seria entao a etapa anterior a realizacao de testes (quantitativos ou qualitativos) da teoria proposta.

    Pra re-alimentar o debate:
    Eu nao considero que o processo de desenvolvimento cientifico se iniciou qd alguem simplesmente teoriza sobre algo. Ciencia, pra mim, comeca qd os testes e os refinamentos da teoria iniciam. Obviamente, a etapa de teorizar eh o inicio de tudo, mas se parar por ai, nao considero que houve “progresso” no sentido cientifico.

  29. Não exatamente, Carlos, embora concordo com o que você escreveu sobre a teorização como etapa anterior.
    O que estou dizendo sobre pesquisa qualitativa e quantitativa é o seguinte: podem ir 10.000 neurocientistas e 5.000 estatísticos para a favela pesquisar acerca dos indivíduos lá dentro e nenhum deles conseguirá substituir o depoimento (qualidade) de cada um dos moradores da favela. Esses só vão “medir”, trazer dados brutos, mas a qualidade (o “mundo”) da favela é iredutível a esses dados.

  30. Por isso que eu afirmei lá atrás que o quantitativo não “entra” no fenômeno; só “mede” (MAS É IMPORTANTE). A “revolução” que a fenomenologia abre, a meu ver, para as ciências humanas é precisamente “entrar” nesses fenômenos (mergulhando na linguagem).

  31. Me parece que medir o fenomeno é muito diferente de TESTAR. O que a gente faz, muitas vezes, é testar hipóteses “lá fora”. Se tu diz que algo é “irredutivel” a esta testabilidade, tu vai obter do pesquisador uma resposta Wittgensteiniana: “bem, se eu não posso falar sobre isso, isso não é objeto científico”. Só que esta negativa, nisso o Putnam tem razão, torna o progresso científico um milagre, uma revelação. E daí, se o fenomenólogo vai por esta linha, não é nenhuma surpresa que ele vá perder a atenção dos cientistas. Eles vão olhar para o cara e dizer “este maluco aqui acredita em milagre. Cai fora.”

    E eles vão estar certos em fazer isso.

    Mas eu não acho que exista, para a fenomenologia, uma compreensão “irredutível” neste sentido que tu estas colocando. O papel da redução é justamente demonstrar o elemento reduzido com o qual podemos trabalhar, e tanto Heidegger quanto Husserl vão sugerir um rigor enorme no trabalho com este elemento. Tanto que existe um optimun, tanto que existe uma relevância ontológica para o conhecimento, para a verdade.

    Por isso, por exemplo, que Derrida não é um fenomenólogo na fase tardia do seu trabalho, porque a questão da verdade vai virar uma potencialização do ato linguístico sem um “controle” por parte da facticidade – já que facticidade vira parte daquilo que é desconstruído. Nem Husserl, nem Heidegger, nem Sartre, nem qualquer fenomenólogo sugeriu isso.

    O quantitativo, portanto, não apenas entra no fenômeno, ele é, ele mesmo, um fenômeno. Ë uma forma de compreensão do que está ali fora. Talvez a descrição fenomenológica do quantitativo seja diferente daquela operada por um positivista lógico (eu creio que ela é mais interessante, porque ela tem a dimensão da mundaneidade do saber que tu tá verbalizando, algo que os positivistas perdem de vista).

  32. Eu sigo pensando que o entendimento que o Moysés está apresentando de pesquisa quantitativa é um tanto quanto caricato e talvez simplista.

    Eu concordo quando se diz que “qualitativo é irredutível ao quantitativo”, mas apenas pq é redundate dizer isso. É um pouco de chover no molhado. O qualitativo é irredutível ao quantitativo, e vice-versa, são métodos diferentes que capturam dimensões diferentes dos fenômenos. Agora, me parece sim que o Moysés insiste em sugerir uma superioridade do qualitativo sobre o quantitativo, que ele nos daria uma compreensão melhor do fenômeno estudado, e isso, particularmente me parece equivocado. Técnicas estatísticas contemporâneas – e o Carlos inclusive pode falar melhor sobre isso do que eu – são bastante sofisticadas no tipo de relações que sugerem entre as variáveis estudadas do que simplesmente “medir” o fenômeno. Atualmente, me parece simplista distinguir o quantitativo do qualitativo dizendo que o quantitaivo só “mede”, e não “entra” no fenômeno, pois para mim dizer isso implica em afirmar uma superficialidade do quantitativo, que não é o caso.

    Mais uma vez – são métodos diferentes, com propósitos diferentes. Não é à tôa que um cara como o Evan Lieberman vai sugerir “nested analysis” para pesquisas sociais, que combinam, em momentos diferentes da pesquisa, analises quantitativas e qualitativas, e dessa forma adquirir uma compreensão mais completa do assunto em pauta.

    No mais, tenho dificuldades em aceitar o Pièrre Rivière como um estudo qualitativo, pois me parece que o que o Foucault propõe beira uma anti-ciência. A sugestão do Foucault nesse livro, ao meu ver, despe o historiador de seu esforço de compreensão, e praticamente reduz o esforço historiográfico à atividade arquivista. Pode ser bastante útil na etapa de teorização – como mencionou o Carlos anteriormente – mas não constitui um bom exemplo de pesquisa qualitativa em ciências sociais. Afinal de contas, onde está a explicitação da teoria, a testagem verificação de hipóteses, e a tão famosa triangulação entre teoria, método e evidência?

  33. Acho que o Moyses realmente pensa que o “qualitativo” eh superior ao “quantitativo”, Tati. Mas o que o Moyses nao esta entendendo eh que o fenomenologo-cientista, ao utilizar tecnicas qualitativas para analise de um fenomeno, vai acabar usando ferramentas para a identificacao de variaveis (ou construtos) dentro do discurso do pessoal que ele esta estudando, inclusive para viabilizar replicacao. Entao, de uma forma ou de outra, o cientista-fenomenologo vai acabar procurando e “contando” as coisas que ele tem interesse em entrevistas transcritas para inferir causalidade e estilo.

    O que dita o metodo eh a teoria (ou pergunta de pesquisa), que pode ser melhor testada quantitativamente e/ou qualitativamente em um determinado momento. Pq alguem utilizou questionario (quanti) e nao entrevista (quali) nao faz dele pior, eh no casamento entre metodo e pergunta de pesquisa que se sabe se um estudo eh adequado.

    Nao da pra saber qual metodo eh melhor a priori, sem conhecer a pergunta de pesquisa. Esses metodos estao relacionados a coleta e analise de dados, nao com geracao de teoria. Dessa forma, qd alguem diz, “eu sou qualitativo”, alguem tb esta dizendo que ele escolhe as perguntas de pesquisa dele, dado que elas possam ser respondidas SOMENTE por tecnicas qualitativas. E me parece meio estranho um pesquisador definir como ele vai trabalhar de antemao, ignorando possiveis outros caminhos frutiferos que a pesquisa dele possa requerer para acumular conhecimento.

  34. Como foucauldiano e derrideano que sou, me sinto na obrigação de identificar não apenas o Dito dessa nossa discussão, mas também o Dizer, o ter-lugar da linguagem que está conexo com questões de poder. Esse é o não-dito (não-explícito) que está presente desde o momento em que entrei no debate.
    Desde que entrei, vocês já me etiquetaram e marginalizaram na condição de “defensor do qualitativo” ou “opositor do quantitativo”. Apesar de eu ter dito várias vezes que não vejo nenhum problema no quantitativo, a discussão sempre volta.
    O que está em jogo aqui? Um certo jogo de poder no qual alguns me criticam na condição de “scholars”, corrigindo o senhor-desconstrutivista-que-despreza-nossa-ciência (a la Searle, portanto) e outros na cômoda posição do sou-fenomenólogo-moderado-que-admite-o-quantitativo e analítica. Por trás disso está uma pretensa superioridade da “ponderação” e da posição mediadora ou conciliatória. Para isso, a estratégia do discurso foi me jogar na condição de radical, adversário do quantitativo, quando eu JAMAIS (podem ler novamente meus comentários) afirmei que o quantitativo não seja essencial à pesquisa das ciências sociais.

    Aviso: NÃO É NADA PESSOAL o que estou falando. Estou somente analisando os nossos discursos aqui no post com as ferramentas que nos deram Foucault e Derrida.

  35. Desculpe-me, Moysés, mas você está exagerando. Relendo os comentários, não identifico nenhum momento em que vc tenha sido chamado de “defensor do qualitativo” ou de “opositor do quantitativo”. Quem trouxe estes termos foi você, e quem parece estar engajado na atividade de rotulação também é você, que agora está chamando uns de “scholars”, e outros de “fenomenólogo-moderado-que-admite-o-quantitativo e analítica”, quando isso me parece completamente desnecessário, e até mesmo perjorativo.

    Como vc mesmo disse, nada é pessoal, e me parece que tudo o que estamos fazendo aqui é engajar em uma discussão que interessa a todos (caso contrário, pq estaríamos perdendo tempo com isso, não é mesmo?). Entretanto, como em qualquer debate existem posições conflitantes buscando algum grau de compreensão mútua (e isso não me parece ruim). O meu problema com as suas afirmações é que parece que vc parte de um entendimento caricato e simplista do que é o quantitativo, e mesmo depois de questionado você não esclarece sua posição no tema, esse entendimento que o quantitativo só “mede”. Ninguém lhe acusou de ser opositor do quantitativo, mas você podia também desconstruir o teu próprio discurso e perceber que quando afirma, sem maiores fundamentações, que o qualitativo “entra”, enquanto o quantitativo só “mede”, vc está implicitamente indicando uma superioridade analítica de um sobre o outor (que eu particularmente não reconheço), você está favorecendo implicitamente o qualitativo, o que me parece uma postura metodológica extremamente complicada.

    Agora, se vc está convencido em sua posição e não está disposto a procurar como se tem feito pesquisa quantitativa em Ciências Sociais contemporâneamente, tudo bem, é um direito seu, mas a discussão dificilmente vai se desenvolver para além desse ponto, pq estamos partindo de compreensões absolutamente diversas dessas metodologias (tanto a qualitativa quanto a quantitativa).

    Só me parece que, infelizmente, vc está usando a desconstrução para escapar de um debate que vc não consegue responder, e nos acusando de estar lhe marginalizando simplesmente pq não concordamos contigo. Sinceramente, eu não percebo isso acontecendo. Me parece que você está se marginalizando, e que vc está se colocando à parte, simplesmente por estar desconfortável com a situação de ter pessoas argumentando contrariamente as suas colocações, e lhe pedindo esclarecimento. Fazer isso é marginalizar? Pedir por fundamentação constitui uma posição de poder tão agressiva e intransponível? E o que você me diz sobre “analisar os nossos discursos”? Isso também não constitui uma posição de poder privilegiada? Também não constitui um Dizer? O interessante é que qualquer um que está tomando parte nesse debate poderia inverter o seu discurso de desconstrução para lhe colocar na posição de poder marginalizador – nos acusando de scholars arrogantes e de fenomenólogos moderados. Aliás, onde exatamente você quer chegar com isso?

  36. É que eu tinha ficado satisfeito com o que o Moysés tinha dito, uns postos atrás, pouco antes do Carlos pedir mais alguns esclarescimentos. Me parece que a coisa voltou a fazer água, mais uma vez, com a tal da distinção entre MEDIR e TESTAR.

    Mas eu queria voltar para a questão que iniciou esta discussão toda, que no fim das contas, a gente se distanciou. É o seguinte: Como a gente usa, na nossa prática, estas questões de Dizer/Dito que tu nos colocaste? Quero dizer, como isto traz vantagens, e, de fato, empurra este qualitativo para uma espécie de limite na incontrabilidade do sentido – se te entendi, foi isso que deste a entender, korrekt?

    Sobre a questão da radicalização do debate. A desconstrução acaba criando isso. Ela radicaliza o proponente, e radicaliza o debate, isso tem um fator bom, no sentido que agita as coisas (estamos, afinal de contas, discutindo isso tem um bom tempo) . Do lado ruim, ficamos nesta encruzilhada. Porque quando puxamos a argumentação para o limite, quando apertamos, acabamos na conclusão que não existem fatos! Que tá tudo nesta tensão entre dizer e dito, da qual a gente sabe muito pouco. Eu concordo contigo, Moysés, se tu disseres que a idéia de um objetivismo rigoroso precisa ser exposta à esta tensão. Mas creio que ninguém aqui tá defendendo isso. Nem tu, é claro.

    Mas vamos lá: tu mesmo colocaste, não é pessoal. Para mim, ainda falta aquela questão fundamental: porque o turn para os números, para as evidências, para os dispositivos mesmo, nos impede de compreender algo?

    (e eu entendo que é difícil discutir com três ou quatro pessoas ao mesmo tempo, mas se te serve de consolo, eu, a Tati e o Carlos dificilmente chegamos a concordar. Não quero te convencer de nada, só quero entender onde tu estas querendo chegar, exatamente).

  37. Acho que o ultimo post do Moyses pode ser usado para esclarecer algumas questoes.

    Se a gente considerar que o Moyses criou uma teoria, da pra esbocar ela assim. Existem 3 grupos nesse debate: a) scholars, b) senhor-desconstrutivista-que-despreza-nossa-ciência e c) sou-fenomenólogo-moderado-que-admite-o-quantitativo e analítica. Pra ficar mais simples, a gente pode referir ao grupo a) como “scholars”, ao b) como “radicais”, e ao c) como “moderados”.

    Depois que o Moyses construiu as categorias, a proxima tarefa dele passa a ser colocar as pessoas dentro das categorias. E depois de colocar as pessoas dentro das devidas categorias, o Moyses precisaria mostrar para que aquela classificacao serviria (prever comportamento ou posse de poder, por exemplo).

    Mas sem entrar na discussao de quem deveria estar dentro de cada categoria ou qual utilidade a classificacao teria, me parece que o Moyses entrou no processo de teorizar que a gente tava discutindo. Entao, a gente pode refletir:

    1) O Moyses foi qualitativo, quantitativo, ou nenhum?

    O meu entendimento eh que ele se enquadra em nenhum (ate o momento), dado que ele so criou a teoria e ainda nao se envolveu no processo de teste e refinamento dela, que pode ser quali, quanti ou ambos.

    2) O Moyses foi construtivista ou desconstrutivista?

    Essa questao eh mais complicada. Eu admito que ele tentou ler nas entrelinhas e portanto descontruiu. Mas ao mesmo tempo ele construiu categorias que nao existiam e portanto construiu. Provavelmente ele fez as duas coisas.

    _________________________________________

    O que vc acha, Moyses? E vcs, o q pensam?

  38. moysespintoneto · · Responder

    Desculpem, mas é que ficou meio cansativo para mim, exatamente como o Fabs notou. Prometo voltar aqui quando sobrar um tempinho (no momento tenho 35.000 trabalhos para corrigir) e responder.

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