Generatividade e Moral

Fabrício Pontin

Acusei ali em baixo o Filipe de não ter lidado com a questão da epistemologia moral, que eu trouxe um tempão atrás aqui no blog. A verdade é que eu também não lidei diretamente com o assunto – que me fascina. Depois de muito pensar sobre o assunto resolvi trazer aqui um pouco do que estou elaborando – como sempre, minha idéia não é ser professoral, nem expor uma pesquisa mais densa. Apenas colocar algumas questões para discussão. Tomem este texto pelo que ele é: uma série de aproximações -técnicas, é claro – sobre um tema que vai ser mais elaborado no futuro.

Claro, falar de facticidade moral, de agir moral e de obrigação moral, sempre vão nos trazer os dois maiores filósofos que falaram sobre moral e política no século XX – Habermas e Rawls – e como estes filósofos pensaram estas questões. Rawls, no fabuloso “a public conception of good” estabelece uma espécie de esquematismo moral para superar a tensão entre os Humeanos e os Kantianos – ou seja, naqueles que acreditam na prevalência de sentimentos e aqueles que subscrevem para uma necessitação do que se entende enquanto “certo”. Pois bem, não tenho espaço aqui para entrar nas minúcias da argumentação do Rawls, mas em termos gerais, o Rawls vai sugerir que não importa se a concepção pública de bem é actually existent, ou seja, ela não precisa ter implicações ontológicas, ela precisa ser apenas compreendida políticamente. Enquanto o resultado de um processo de publicização de concepções individuais e comunitárias de bem, que colapsam em uma concepção política.

Habermas, por sua vez, vai voltar para uma via de acesso mais discursiva, onde as concepções morais são contruídas através do uso de linguagem. Habermas vai dividir o uso desta linguagem em termos instrumentais e em termos universais. Bom, aqui temos uma divisão no tipo de leitura de Habermas. Creio que a leitura mais coerente com Habermas é a que vai acessar isso a partir de uma via Crítica – a partir da idéia de colonização sub-sistêmica, que vai nos remeter para a tese de doutorado do Habermas sobre Schelling. No entanto, a leitura mais coerente aqui também é a menos produtiva. Isso é porque esta leitura vai nos limitar à uma análise de termos de instrumentalidade e comunicatividade tal qual pensada pela escola de Frankfurt. No entanto, podemos pensar estes termos universais e comunicativos a partir de uma virada semântica – vou tentar explicar esta virada semântica e o que ela implica para como pensamos “moral” a partir de uma idéia de Generatividade.

Explico:

Tanto Habermas quanto Rawls procuram saídas para o debate entre externalismo e internalismo. Para Rawls, a saída é política. Para Habermas, a saída é a partir da idéia de Razão Comunicativa. Pois bem, o problema é que ambas saídas esbarram em problemas no nível das justificativas. Pois Habermas não é capaz de nos dizer sobre os elementos não-discursivos no processo de construção de consenso , enquanto Rawls não consegue elaborar seu esquema para além de uma politização da linguagem (talvez Rawls não quizesse fazer mais que isso, no “Justice as Fairness” é claro que ele não pretendia fazer mais que isso).

Só que mesmo a politização da linguagem implica em uma certa ontologia, isso é porque a linguagem constitui uma certa forma de pensar o mundo, e mesmo que Rawls não queira dar conta deste problema, o problema volta para puxar o pé dele. Ao usar a linguagem construímos e geramos significados que tem implicação direta na forma como nos relacionamos, esta relevância social da linguagem pode nos ajudar a compreender como a moral é “factualizada” e como falamos de “obrigações” morais.

Estou seguindo aqui uma leitura que diz que aquilo que existe é aquilo que somos capazes de estabelecer sobre o mundo linguisticamente. Existem coisas que independem de linguagem? Talvez, mas sem linguagem não somos capazes de estabelecer verdades sobre estas coisas, não somos capazes de predicar ainda que em  uma base pré-predicativa , pré-linguistica, que nos dá as condições de possibilidade do discurso. Pois bem, com isso espero que fique um pouco mais claro como entendo existência. Sem a linguagem, toda existência está ali em silêncio – ou melhor, nem a possibilidade de silêncio é dada.

A moral, portanto, vai ser existente enquanto relevante linguisticamente. Construímos um sentido moral a partir da predicação de algo que é compreendido enquanto moral. E como somos obrigados? Somos obrigados a agir moralmente por uma questão de consciência moral. Nossa concepção de mundo nos diz que existe algo que é uma obrigação moral. Estas obrigações morais são existentes? Esta moral, ela é factual?

Bem, eu creio que da forma como descrevi aqui posso apenas falar de uma facticidade, mas não de fatos. Até porque a externalidade que me permite falar de “fatos” perde todo sentido quando adoto o vocabulário Generativo. Isso acontece porque meu falar sobre o mundo presume uma intencionalidade, e esta intencionalidade colapsa aquilo que é interno (consciencia) e aquilo que é externo (mundo) em atos de linguagem.

Mas isso nos leva para um relativismo? Isso tem implicações para a moral no sentido que vai dizer que toda implicação moral não é nada além de um constructo?

Isso nos leva para algo que Rawls já sabe: existe uma multiplicade de concepcões de bem. Mas não paramos aí: estas concepções de bem são ligadas ao  pré-predicativo,ao mundo que cerca o indivíduo que está ali dizendo algo sobre o mundo.  O ato linguístico leva o pré-predicativo consigo. Portanto, as nossas concepções morais estão ligadas, sim, ao mundo que nos cerca e são de certa formas determinadas por este mundo.

Mas os atos de significação estão sempre abertos – podemos aprender coisas sobre o mundo que não sabíamos antes, integrar outras formas de geração de significado, outras compreensões e intencionalidades. Ver outras perspectivas sobre aquilo que está sendo colocado. Somos capazes de contruir e resignificar as nossas concepções de mundo com o tempo.

Aqui, o que fica aberto, é se existe um núcleo irredutível para a moral. Como seria possível fazer uma redução daquilo que entendemo enquanto “moral”? Aqui, eu gostaria de sugerir um núcleo linguístico irredutível – formal. Husserl, ao sugerir a idéia do rigor semântico parece apontar para isso: no fundo, não é o quê está sendo dito, mas como está sendo dito.

Neste sentido, podemos pensar a idéia do rigor linguístico junto com a temporalização da moral: compreendemos enquanto moral aquilo que apontamos como “certo” ou “errado” aqui e agora, mas este ponto de vista implica na historicização de outros pontos, onde revisamos a todo tempo concepções passadas e procuramos adequar estas com o que vemos neste momento. Pensar em termos de princípios de justiça, por exemplo, é algo que só é possível depois que estabelecemos estes princípios linguísticamente – a adequação destes princípios, e como pensamos estes princípios também é pensada agora de acordo com a prévia funcionalidade, com a história destes dispositivos. Assim, geramos princípios de justiça linguísticamente, e estabelecemos a facticidade semântica destes princípios – que podem ser traduzidos, então, como uma “norma jurídica”. É lógico que este estabelecimento de princípios ou de moralidade já acontece dentro de um jogo político, mas o que eu tentei mostrar aqui é como o jogo político pode ser compreendido na base de uma ontologia, de uma fenomenologia generativa.

O rigor linguístico serve aqui como mecanismo para estabelecer um limite. Podemos dizer muitas coisas sobre nós mesmos, inclusive que “somos capazes de bater nossos braços realmente rápido e voar”. No entanto, por mais que digamos isso, a sentenção não se torna verdade, ela não é verificável. O processo generativo, portanto, encontra elementos de limite no pré-predicativo – por isso mesmo ele leva o pré-predicativo consigo. É por isso que atos linguísticos podem ser desastrados, eles são desastrados quando aquilo que tu tenta estabelecer sobre o mundo não pode ser verificado. Para a moral isso só é possível a partir da idéia de coerência argumentativa e semântica, e da tentativa de universalização da perspectiva adotada. Aqui vou aproximar minha compreensão de generatividade da concepcão de razão pública adotada por Rawls: a tua concepção moral é tão boa quanto ela pode ser compreendida por mais pessoas enquanto uma compreensão moral. Quanto mais ela excluir, pior ela vai ser. Quanto mais ela gerar vaias, mais próxima de uma afirmação do tipo “a lua é feita de queijo” ela vai estar.E por isso mesmo ela não pode ser aceita enquanto uma concepção possível de mundo – assim como não estamos dispostos a aceitar que “a lua é feita de queijo” é uma concepção possível sobre a lua

2 comentários

  1. […] Junho 4, 2009 Eu estou de férias Posted by fabriciopontin under coisas de bolsista, punheta mental | Tags: distropia, Epistemologia Moral, Filosofia, Rotina | No Comments  E é por isso que são cinco da manhã, e eu passei as últimas duas horas escrevendo isso aqui. […]

  2. Muito bom o post, Fabrício. Ao invés de comentar já aqui, vou deixar para o meu próximo post, pq assim aproveito pra trazer algumas questões que fiquei devendo.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: