Tópicos de Frankfurt

Filipe Campello

 

Depois de um período de ausência, volto a postar, aproveitando o retorno para fazer um aggiornamento geral, destacando algumas das discussões por aqui. 

Em março ocorreu no Instituto de Pesquisas Sociais um debate entre  o psicanalista francês Christophe Dejours , Emmanuel Renault e Axel Honneth. Dejours apresentou um resumo dos papers The Centrality of Work e Subjectivity, Work and Action, cuja argumentação apresenta uma articulação entre desejo, subjetividade e trabalho numa perspectiva psicanalítica (Uma forma resumida dese último artigo encontra-se aqui). Emmanuel Renault expôs o tema “Recognition and work. Comparison between Dejours’ and Honneth’s models”, discutindo, como o título esclarece, os modelos dos dois autores. Em sua réplica, Honneth observa a inversão da sua proposta em relação à de Dejours. Enquanto em Dejours o reconhecimento está inserido na noção de trabalho, em Honneth a abordagem sobre o trabalho é desenvolvida enquanto uma das esferas de reconhecimento, no qual a noção de reconhecimento compreende uma abordagem mais ampla do que aquela entendida por Dejours (Há uma tradução em português do texto de Honneth Trabalho e Reconhecimento).

No mês passado, David Miller, importante teórico político de Oxford, esteve aqui para uma palestra intitulada “Democracy’s Domain: lecture outline”. O objetivo de Miller é estabelecer as fronteiras da democracia, discutindo quem se deve incluir e quem se deve excluir quando se estruturam instituições democráticas. O ponto aqui é discutir qual deve ser o domínio democrático e qual teoria da democracia pode melhor ajudar a responder essa questão. Miller parte de uma distinção entre (1) uma constituição interna da noção de demos, compreendendo um exclusionary pull, e (2) uma abordagem que se centra nos impactos de decisões democráticas, sendo entendida, assim, como um inclusionary push. Ele vai perseguir uma perspectiva que se encontre entre essas duas posições.  Apesar da argumentação sugerir aspectos importantes,  pelo caráter desse post restrinjo-me à indicação do tema discutido. Alguns elementos em torno dessa discussão podem ser encontrados no livro de Miller Citizenship and National Identity, bem como no livro de Iris M. Young Inclusion and Democracy.

Agora algo em torno dos seminários. Um deles, ministrado por Willaschek, é sobre o conceito de Anfechtbarkeit (defeasibility). A idéia central é discutir a hipótese de que crenças possam ser válidas não necessariamente quando justificadas, mas quando não há razões para pô-las em questão. Estamos discutindo autores como Austin, Wittgenstein, Brandom, Peirce. Por se tratar de um debate mais amplo, voltarei a esse assunto num próximo post, no qual pretendo vincular essa abordagem com aquela que está sendo discutida num outro seminário que participo sobre “Intuição e Conceito”, ministrada pelo professor visitante australiano Christensen.  A propósito do seminário com Willaschek, é a convite dele que em 27 de Junho estará aqui John Martin Fischer para um workshop sobre “Responsabilidade” (Verantwortung), no qual será discutido seu livro Responsibility and Control.

No colóquio dos orientandos com o Honneth lemos um texto da Martha Nussbaum (Whether from Reason or Prejudice, contido num livro com uma discussão caracteristicamente americana: Philosophy of Sex) e um interessante livro da Judith Butler, recém-lançado (Frames of War: When is Life Grievable?). Por conta do acúmulo de apresentação do trabalhos de orientandos para esse semestre, Honneth deixou para o próximo a discussão sobre o também recém-lançado livro da Korsgaard (Self-constitution: Agency, Identity and Integrity), que, por sinal, está sendo discutido atualmente no Colóquio de doutorandos com Willaschek.

Já o atual projeto do Grupo internacional de estudos em teoria crítica, vinculado ao Instituto de pesquisas Sociais, centra-se na discussão atual sobre o conceito de igualdade. Estamos discutindo basicamente dois autores: Christoph Menke (por sinal, é com ele um outro seminário que estou frequentando sobre o conceito de Sittlichkeit em Hegel e Nietzsche), que apresenta sua proposta no livro Spiegelungen der Gleichheit (“Reflexos da igualdade”) e Jacques Rancière, com Das Unvernehmen  (algo como “A impercepção”). O projeto segue até julho. A propósito, na próxima quarta terá um workshop no Instituto entre Honneth e Rancière, mediado por Menke, sobre a diferença da abordagem política dos dois autores. Depois devo postar algo sobre esse debate.

Bem, após esse delineamento amplo das atividades por aqui, nos próximos posts tratarei de especificar melhor algumas das discussões.

One comment

  1. marcosfanton · · Responder

    Legal, cara!
    Me diz, que tipo de discussão metodológica esse pessoal tem? É levado em consideração o que cada um entende por “filosofia”, “modos de filosofar”? E que tipo de relação esse pessoal estabelece entre filosofia e outras ciências? Há estudos sobre o que é interdisciplinaridade, etc.?

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