À guisa do pedido – Hermenêutica e Fenomenologia

Por Luis Rosa

Bem, parece que nossa amiga fez uma pergunta que, se não é difícil responder, ao menos exige alguma resposta extensa. A pergunta é: “Quais são as diferenças existentes entre Hermenêutica e Fenomenologia? (Minha preocupação diz respeito especificamente às questões ontológicas, epistemológicas, e metodológicas, bem como a relevância e as implicações desses dois paradigmas para a pesquisa em Ciências Sociais)”.

Atentar para a distinção nestas três dimensões, ontológica, epistemológica e metodológica parece ser muita coisa. Acrescido ainda às implicações para as ciências sociais, a coisa torna-se mais complicada. Tenho então uma sugestão: como não é claro, para o caso da hermenêutica, como se pode falar estritamente em ontologia e em epistemologia, podemos nos ater inicialmente à questão metodológica. É deste tratamento que iremos extrair uma possível primeira relação entre hermenêutica e/ou fenomenologia e ciências sociais.

Parece que não há um sentido unívoco em que se fala do método fenomenológico. Trata-se de um método da análise da consciência? Ou de uma forma de trazer a essência “de volta” para a existência? Ou é um método para analisar a existência concreta?  Ou, ainda, uma tentativa de descrever a nossa experiência como é “em si mesma”, independente da causalidade psicológica?

Apesar desta multiplicidade de interpretações para o que consiste o método fenomenológico, parece que há algo unívoco nas mais variadas acepções de fenomenologia: a redução, ou epoché. Esta redução constitui um elemento prático, e por conseguinte, metodológico para a filosofia. O filósofo precisa então mudar seu foco de atenção do mundo objetivado para o significado das coisas, significado este relacionado ao que é imediatamente experienciado. A redução estaria assim nos permitindo entrar em contato com o sentido. Em terminologia heideggeriana, ela permitiria uma passagem do ôntico para o ontológico.

Segundo a orientação fenomenológica, cabe à filosofia responder a pergunta relativa ao sentido do ser. Mas esta busca não deve ser orientada por especulações relativas às causas últimas das coisas que estão no mundo, as coisas físicas e finitas, e sim por especulações acerca de como o sentido do Ser é constituído. Isso sugeriria uma abordagem a partir da subjetividade?

Aqui é preciso ter cuidado. Enquanto esta subjetividade for entendida como uma dimensão privilegiada, de onde (e somente de onde) é possível questionar sobre o sentido do Ser e dos seres, parece não haver problemas. Mas algo distinto ocorre quando esta subjetividade é entendida como meramente um termo da relação dual sujeito/objeto. Aqui caminha-se diretamente para o “psicologismo” limitador que contempla tão somente as limitações da subjetividade, e não a sua constituição de sentido.

Em suma, estes são aspectos que podem ajudar-nos a tentar falar mais claramente sobre um método fenomenológico, algo que não é claro a mim ( e duvido que seja absolutamente claro para alguém, mesmo a um estudioso assíduo de Husserl, Merleau-Ponty ou Heidegger).

Bem, em relação a hermenêutica, esta pode ser entendida em pelo menos dois sentidos: i) como uma teoria da interpretação, e ii) como um tipo de filosofia que tem como ponto de partida questões de interpretação. O cerne aqui é entender o significado de “interpretação”: é um ato relativo tão somente à linguagem? Ou há também interpretação de fatos?

A fim de que se possa tentar responder estas perguntas, é preciso atentar para tipos de orientação hermenêutica. Sabemos que há um tipo de orientação hermenêutica que pode ser chamado de ‘historicista’, no sentido de tomar a interpretação como um método das ciências sociais e humanas. O desafio desta orientação, presente em Dilthey, é constituir regras concisas e critérios suficientes para a compreensão do que um autor, historicamente distante ou não, “quis dizer” com seu documento.

Assim, a hermenêutica é uma metodologia, e cientifica, pois fundamenta as ciências humanas nos mecanismos interpretativos que trariam à tona, ou seja, tornariam público, o conteúdo circunscrito à experiência de um escritor. Trata-se de um método que não somente distingue-se do método empírico para ciências humanas, mas que inclusive pode ultrapassá-lo em termos de quanto conhecimento objetivo acerca dos seres humanos pode trazer. Mas entra um problema aqui: a circularidade relativa a interpretação.

Apresentou-se a tese de que a interpretação das partes depende da interpretação do todo. Mas se toda interpretação está ancorada em outra interpretação, não pode-se então evitar um círculo possivelmente vicioso. Mas, atentemos para a seguinte passagem de James Bohman: “A hermenêutica do século XX desenvolvida por Heidegger e Gadamer radicaliza essa noção do círculo hermenêutico, considerando-o uma característica de todo conhecimento e atividade. Assim, a hermenêutica não é mais o método das ciências humanas, mas ‘universal’, e a interpretação faz parte do caráter finito e situado de todo conhecimento humano” (In: Dicionário de Filosofia de Cambridge. Dir: Robert Audi. São Paulo: Paulus, 2006, p. 459. ). Como vemos, não demorou para que a hermenêutica fosse transmitida para um nível mais amplo, e isso quer dizer que a interpretação não deve ser entendida como sendo tão somente voltada ao texto.

Resta explicar como exatamente ela funciona! Apresentei alguns comentários de cunho geral sobre hermenêutica e fenomenologia, e espero que isso possa ajudar-nos a responder nossa amiga.

10 comentários

  1. marcosfanton · · Responder

    Muito bom teu texto, cara!!
    Só uma coisa que eu realmente iria discutir é a tua afirmação: “Trata-se de um método que não somente distingue-se do método empírico para ciências humanas, mas que inclusive pode ultrapassá-lo em termos de quanto conhecimento objetivo acerca dos seres humanos pode trazer”.
    O Stein tem uma frase lapidar: “a filosofia não pode saber mais do que as ciências sabem”. Ou seja, a filosofia não trata do conhecimento objetivo, mas das condições de possibilidade deste. Assim, parece que tua frase está formulada de uma maneira incoerente: como um método pode não ser empírico, mas alcançar mais conhecimento empírico?? Isto é, saber mais que as ciências humanas sabem?

    1. Luis Rosa · · Responder

      Digamos que um pesquisador se utilize tão somente de um método empírico para constituir pesquisas históricas. Além disso, este pesquisador desconhece o método hermenêutico historicista aventado por Dilthey, e portanto, não o utiliza. Além disso, suponhamos que haja um outro pesquisador, que dispõe dos dois métodos: o empírico daquele primeiro e o método hermenêutico. Em funcionando o método hermenêutico, conforme a sua proposta, de constituir regras concisas e critérios suficientes para a compreensão do que um autor, historicamente distante ou não, “quis dizer” com seu documento, então isso quer dizer que este segundo pesquisador contará com mais dados objetivos que o primeiro.
      Observe: isso não quer dizer que o método, o qual na vertente historicista supõe ser científico, de fato funcione. Mas em funcionando, ele certamente traria mais conhecimento objetivo, uma vez que disporíamos dos resultados empíricos “plus” os dados acerca do conteúdo presente em uma obra ou documento histórico. Tudo isso dentro do escopo do bom funcionamento deste método hermenêutico. Um escopo hipotético, em verdade. É por isso que aparece em minha frase o “pode ultrapassá-lo”, o que é claramente distindo de dizer “o ultrapassa de fato”.
      Neste caso, eu não estaria em discordância com Stein: precisamos saber se a corrente historicista do método hermenêutico supõe estar fazendo filosofia ou ciência, ou ambas as coisas. Além disso, a suposta incoerência que encontraste na minha frase sequer existe. O texto não contém qualquer afirmação sobre o método hermenêutico trazendo mais conhecimento “empírico”. Ora, ‘objetivo’ e ’empírico’ não são sinônimos (pelo menos eu não suponho que ele o sejam), e acredito que se alguém tentar equiparar em significado e extensão os dois conceitos, terá de mudar boa parte da história da filosofia.

  2. Bah, Marcos. Eu tinha pensado na mesma coisa. Tinha escrito um tantinho sobre isso, mas acabei perdendo num crash do windows aqui. Mas era isso, é justamente esta minha contenção com o texto.

    Isto e a afirmação que a Fenomenologia não tem um núcleo metodológico, para mim tem na velha e boa articulação entre compreensão e mundo: seja Husserl, Heidegger, Ponty até mesmo Sartre. Todos estes fizeram fenomenologia porque articularam “compreensão” e “mundo”.

  3. marcosfanton · · Responder

    A respeito dessa questão do núcleo metodológico, não teria também algo com a afetividade aí?

  4. Em Husserl, a questão da Afetividade ocupa um lugar central, especialmente no trabalho tardio. Não estou tão certo sobre isso no Heidegger ou no Sartre. Por isso resguardei mais na questão de compreensao-mundo.

  5. Me parece que vcs estão fugindo da questão sem respondê-la efetivamente. Para esclarecer um pouco o debate, cito Peter Hall (“Aligning Ontology and Methodology in Comparative Research” 2003):

    “One of the curious features of contemporary debates is that they pay more attention to methodology than to issues of ontology. ‘Ontology’ refers to the character of the world as it actually is. Accordingly, I use the term to refer to the fundamental assumptions scholars make about the nature of the social and political world and especially about the nature of causal relationships within that world. If a methodology consists of techniques for making observations about causal relations, an ontology consists of premises about the deep causal structures of the world from which analysis begins and without which theories about the social world would not make sense. At a fundamental level, it is how we imagine the social world to be.”

    Posto isso, retomo a pergunta: É possivel uma metodologia sem uma ontologia (e também uma epistemologia)? Faz sentido dizer que a Hermenêutica é apenas um método/uma metodologia, sem contar com uma ontologia e uma epistemologia? Nesse sentido, não seria mais preciso dizer que a Hermenêutica é só uma ferramenta? Se sim, por que então falar de uma “Escola Hermenêutica” (termo que ao meu ver, denota a existência de um corpo teórico que define os pressupostos ontológicos discutidos por Hall no parágrafo citado).

    Em outra nota: aindanão entendi adiferença estabelecida pelo Luis entre método empírico e método hermenêutico. O que vc está entendendo como empírico, Luis?

  6. Ainda: Se a fenomenologia possui um entendimento de ontologia diferente do que foi explicitado acima, como então entender/fazer uma ciência social de cunho fenomenolôgico?

  7. Só para complementar a citação ali em cima:

    “Ontology is ultimately crucial to methodology because the appropriateness of a particular set of methods for a given problem turns on assumptions about the nature of the causal relations they are meant to discover … To be valid, the methodologies used in a field must be congruent with its prevailing ontologies.” (esse trecho é do mesmo texto do Hall supracitado)

  8. […] desses dois paradigmas para a pesquisa em Ciências Sociais)”; e depois adicionou nos comments: “Se a fenomenologia possui um entendimento de ontologia diferente do que foi explicitado […]

  9. Marli araujo · · Responder

    Gostei muito dos comentários, mas ainda estou confusa!
    Sigo em busca de esclarecimentos.

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