Reflexões semânticas sobre arte – primeiras aproximações

por Luis Rosa

Contextualização: As “reflexões semânticas sobre arte” devem ser uma série de pequenas análises relativas ao significado ou sentido da arte. Nesta primeira abordagem começamos com alguns delineamentos surgidos de uma determinada pergunta. Com tais reflexões, não acredito oferecer respostas verdadeiras. É uma forma de coçar as costas.

Uma pergunta que pode assaltar artistas, desfrutadores da arte e críticos da arte, é a seguinte: a arte sempre expressa algo? Pode não parecer, mas se trata de uma pergunta complexa, tendo em vista não somente o que está sendo perguntado, mas principalmente, o que está sendo pressuposto. É possível fazer uma análise, ainda que incompleta, da pergunta.

Tentemos delinear quais são os pressupostos supostamente intrínsecos à própria pergunta. Se na pergunta questiona-se se a arte sempre expressa algo, então quer isso dizer que alguma vez ela o faz. Ora, geralmente quando perguntamos se algo sempre acontece, é porque este algo invariavelmente de fato acontece (“a água sempre vai para o ralo?”; “o aparelho sempre desliga sozinho?”, etc). Então, isso quer dizer que, ao menos em alguns casos a arte expressa algo, o que acarreta por uma inferência modal, que há a possibilidade de a arte expressar algo. Este seria um primeiro pressuposto da pergunta.

A meu ver, um segundo pressuposto muito evidente, é algo como a dualidade existente entre sinal e conteúdo. O sinal é uma entidade lingüística, o conteúdo é uma entidade cognitiva, semântica. Neste caso, a pergunta pressupõe que a arte, e talvez isso queira dizer a manifestação artística, ou a obra, expressa ou exprime um determinado conteúdo. Sobre a qualificação de tal conteúdo, se ele é objetivo, subjetivo ou mesmo intersubjetivo, não nos deve ocupar agora. Basta, por ora, ter em conta o segundo pressuposto que elencamos, o de que uma coisa é a obra e outra coisa é o que ela expressa (duas coisas que, embora indissociáveis, são de naturezas distintas).

Seria ainda importante enfatizar que, embora a pergunta tenha o termo “arte” ocupando a função de sujeito na frase, não parece que ela pressuponha uma total impessoalidade da manifestação artística. Tal pressuposição não é necessária, tendo em vista que, por um processo indutivo chegamos à conclusão de que um artista é uma condição necessária para a arte. Em outras palavras, parece difícil sustentar a possibilidade de existir uma arte sem que um artista a tenha criado. Dessa forma, podemos ter como uma terceira pressuposição a de que há um artista que expressa algo, com a obra de arte. Certamente algumas outras pressuposições intrínsecas à pergunta poderiam ser reveladas à luz de uma análise dedutiva. Destaquei aquelas que me pareceram mais pertinentes à tentativa de responder a própria pergunta. Ao responder à pergunta, mesmo se ao fazer isso não mantivermos uma posição assertiva, outras pressuposições devem aparecer.

Parece que, de fato, há casos em que o artista expressa algo através da obra de arte. Há sempre uma dificuldade interpretativa relativa ao que ele expressa. Temos casos em que os próprios artistas servem de testemunhos à sua expressão, e advogam uma interpretação que “está correta”, ou seja, uma interpretação que atribui características ao conteúdo expresso pela obra correspondentes às características que o próprio artista intencionou atribuir. Uma multiplicidade de interpretações sempre pode surgir, mesmo num caso como este. Tentemos ver como isso se dá.

Depois de algumas inovações surgidas a partir do século XIX, principalmente nas áreas de psicologia, sociologia e biologia, ganhamos o direito de reclamar um não-controle sobre o que fazemos, uma não-consciência sobre o que intencionamos. Isso quer dizer que, mesmo se um artista tenha dado o veredicto sobre aquilo que quis expressar com a obra de arte, outros sujeitos poderão disso discordar, apontando que alguns elementos na referida obra não condizem com o que afirma o artista. Trata-se do “sentido inconsciente” associado à obra de arte, associação tal que o artista não a conseguiu perceber.

Temos casos, porém, em que os artistas não são testemunhos à sua expressão, e em que não advogam uma interpretação que “está correta”. Tal pode acontecer principalmente em dois casos: em que o artista morreu sem deixar alguma explicação mais exata e completa sobre o seu labor artístico, e em que o artista simplesmente não fala sobre suas intenções, sobre o significado atribuído à obra, etc. O primeiro caso é um caso eminentemente histórico. Várias obras são constantemente reinterpretadas, obras cuja produção se encontra distante no espaço e no tempo, de forma que o artista que as criou torna-se inefável. Temos sobre o artista algumas informações transmitidas historicamente, mas por contingências relativas à linguagem, aos valores, aos costumes e à própria forma de significar as coisas, não parece que podemos angariar alguma certeza sobre o que este artista quis expressar.

O segundo caso é o caso do artista que só aceita se expressar por meio da arte. Recusa-se a dar explicações racionais sobre o sentido de sua obra, e não se rende à lógica convencional, à forma de pensar mais adaptável a variadas mentes. Sua subjetividade deve ser incorruptível, e o que é expresso só tem algum valor quando “raspa” em outras subjetividades.

Tivemos três casos em que se supõe que algo tenha sido expresso por meio da arte. Nossa pergunta de se a arte sempre expressa algo está longe de ser respondida: teremos de verificar estes casos elencados e compará-los a outros casos, a saber, aqueles nos quais se nega existir um algo expresso pela arte. A título organizacional, a partir de agora, chamaremos à arte em que se visa expressar algo de “deontológica”. Trata-se de uma concepção da arte como meio. Nas próximas reflexões semânticas sobre a arte, tentaremos verificar a possibilidade de uma arte como fim em si, não deontológica. Logo, as reflexões continuarão.

One comment

  1. JuniorMatos · · Responder

    Gostaria de te convidar para partipar de uma rede de conteúdo, caso tenha interesse me adiciona no msn ocasional81@yahoo.com.br ou me manda um email. Abs, Matos.

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