Genealogia da palavra existência

 Marcos Fanton

Bom, para quem não sabe, a minha dissertação vai ser sobre a palavra “existência”. Quer dizer, o fio condutor dela é a palavra “existência”, apesar de ela ter recebido diversos conceitos para diferentes problemas. Ou seja,  basicamente, eu quero escrever sobre o que está em jogo quando utilizamos esta palavra, mas, delimitando-a no contexto contemporâneo e no debate tradição analítica e tradição continental. Como vocês podem ver pelo que eu coloquei ali embaixo, há diferenças gritantes – e inclusive para o modo de se interpretar os autores do passado.

As principais referências para este meu primeiro trabalho foram: (1) Historische Wörterbuch der Philosophie; (2) o artigo existence da Stanford Encyclopedia; e (3) uma ótima página sobre a história e a teoria da ontologia, onde tem um bom apanhado de trechos de filósofos sobre o conceito de “existência“. 

Por último, eu gostaria de dizer que este post vai sofrer atualizações constantes no decorrer da minha pesquisa. Por ora, coloquei os principais autores e, na medida do possível, alguma frase característica do seu modo de uso da palavr ea sua localização no(s) trecho(s) ou na(s) obra(s) do respectivo autor.

Ah, e quem puder contribuir, pode mandar bala!

Filosofia Antiga

Hyparkéin         

[1] “tomar a iniciativa”, “dar o primeiro passo” [Odisséia, 24.286];

 [2] primeiro uso técnico na filosofia, como cópula: tó B tò A hyparkéin, B pertence a A  [Aristóteles, Primeiros analíticos, 25a5; De Interpretatione, 16b10]. Este uso é equivalente a um dos modos de uso do verbo einai.

[3] Grego tardio: “existir” ou “ser real”, em contraste com objetos imaginados ou uma palavra.

     [3.1] Estoicismo: predicado atual do sujeito concreto (ousía ou hypóstasis), que tem realidade aparente, por não ser material.

     [3.2] Neoplatonismo: uma das Idéias pré-existentes nas quais participa a substância ou o sujeito concreto.

Filosofia Medieval

Existere               Varro, Lucrécio, etc. serve apenas como uma variante estilística de esse, com a nuance, sugerida por ex-, de “emergir”, “vir a ser”, “ser produzido” .

Existentia          

[1] Mario Victorino (4d.C.): tradução de hyparkéin, distinguindo-a de ousía (substantia). Pode ter três significados:

        [1.1.] como substância pré-existente, aludindo ao sentido etimológico de hypárxis, que foi interpretada como “pré-começo” [Voraus-Beggin]. Aqui, a condição absoluta é Deus mesmo, denominado existentia.

        [1.2.] o ser determinado, que recebeu uma forma, em contraposição à substância, o ser indeterminado. Procede da tradição eclesiástica, em que o termo é utilizado para descrever as relações entre Pai, Filho e Espírito Santo – cada um tem uma forma, i.é, existentia específica. Há, aqui, uma mescla entre hypóstasis e hypárxis.

          [1.3.] sinônimo de substantia, denotando, de modo impreciso, o aliquid esse.

[2] Augustinus, Calcídio, Pelágio, Mamertus e Cassiodor: a realidade concreta de uma coisa. Em sentido estrito, o processo de realização ou Heraus-Treten.

[3] Boécio: prefere esse à existere para o uso técnico de hypárkein, o ser indeterminado, puro.

[4] Avicenna (980-1037): “hasti”: ser, semelhante ao tó òn hê ón, de Aristóteles, é o conceito mais determinado. Wujud: existência, que possui vários significados: (1) haqiqa: essência, realidade de algo, o fato de que existe; (2) a existência particular de algo. [Metaphysica, livro IV, cap. 1]. Esse existentiae e esse essentiae são constituintes ontológicos diferentes. Existência é um acidente, uma propriedade da coisa.

 [5] Santo Anselmo (1033 – 1109): [Proslogium, cap. 3]

 [6] Abelardo (1079-1142): existere, existens: “existir”; usa a expressão “exsistentiae rerum” como o “estado de coisas (atual)” para contrapor a existência na realidade (modus subsistendi) contra o aparente ser-pensado [Gedachtsein].

 [7] Ricardo de São Victor e Pedro Lombardo: o conceito de existência é utilizado para aperfeiçoar a definição de pessoa.

 [8] Santo Tomás de Aquino (1225-1274): distinctio realis: De Ente et essentia, cap. 4.

        [8.1.] João Capreolo, Silvester de Ferrara e Cajetan

 [9] Duns Scotus (1265-1308): distinctio formalis

 [10] Suárez (1548-1617): distinctio rationis [Disputatione Metaphysicae, XXXI]

Filosofia Moderna

Existentia, Existenz, Existence

 [1] Descartes (1596-1650): Existência como predicado [Recherche de la Verité; V Meditação; Réplicas às objeções da V Meditação]

 [2] Spinoza (1632-1677)

 [3] Leibniz (1646-1716): Existência não é uma propriedade.

 [4] Wolff (1679-1754): “Hinc existentiam definio per complementum possibilitatis”:  §174 e §134 de Philosphia prima sive Ontologia.

 [5] Hume (1711-1776): Tratado da natureza humana, livro I, parte 2, seção vi.

 [6]Crusius (1715-1775): “Existência é o predicado de uma coisa em virtude do qual a coisa é para ser encontrada em algum lugar e em algum tempo fora do pensamento”. [Entwurf der notwendingen Vernunftwharheiten, seção 46]

 [7] Kant (1724-1804): “Ser não é um predicado real.  [O único fundamento possível para uma demonstração da existência de Deus (1763) e Crítica da Razão Pura, B620ss (1781)]

[8] Hegel (1770-1831): Existenz Dasein

[9] Schelling (1775-1854):

Filosofia contemporânea

[1] Kierkegaard: Existência como condição particular de existir, uma das modalidades do ser. “Deus não existe, pois é eterno”. Post-scriptum.

[2] Jaspers (1883-1969): [Vernunft und Existenz]

[3] Heidegger (1889-1976): “A ‘essência’ do Dasein é sua existência”; ex-sistência [Ser e Tempo, §9, Problemas fundamentais da fenomenologia Nietzsche II (Esboços para a história do ser como metafísica, Existentia), Carta sobre o humanismo]

[4] Sartre (1905-1980): “A existência precede a essência”. [O existencialismo é um humanismo, O ser e o nada]

[5] Filosofia Analítica:

       [5.1]Neokantismo: Bolzano, Brentano

        [5.2.] Frege (1848-1925) : Existência como predicado de segunda-ordem.[Die Grundlagen der Arithmetik, sec. 53]

         [5.3] Russell (1872-1970): Existência não é compreendida semanticamente como um predicado, mas como um operador existencial. [On Denoting; The philosophy of logical atomism, cap. 5, Introduction to mathematical philosophy,  §16]

          [5.4] Meinong (1853-1920): [On the theory of objects]

          [5.5.] Moore (1873-1958): [Is existence a predicate?]

          [5.6] Carnap (1891-1970): Existência externa e interna. [Empiricism, semantics and ontology]

           [5.7] Quine (1908-2000):  [On what there is, Existence and quantification]

           [5.8] Strawson (1919-2006): [Individuals, parte II, cap. 8]

           [5.9] Tugendhat (1930-): [1] existência como um modo de uso (frase existencial). [Propedêutica lógico-semântica, Lições introdutórias à filosofia analítica da linguagem]; [2] existência como relacionar-se consigo mesmo. [Autoconsciência e autodeterminação, cap. 8 e Egocentricidade e mística, parte 1].

5 comentários

  1. Marcos, um comentário a respeito da tua síntese do que seja existência para Russell. Não entendi porque disseste que existência é um “operador”. Eu estava com dúvida quanto a isso e consultei The Philosophy of Logical Atomism. Lá está escrito que existência é uma propriedade de funções proposicionais. Dizer, por exemplo, “Homens existem” é atribuir uma propriedade à função proposicional “x é um homem”, a saber, a propriedade de que essa função tem instâncias ou que “x é um homem” é verdadeira para pelo menos um x (ou dizer dessa função que ela é “possível”, o que dá no mesmo).

    Evidentemente, é possível que eu não tenha encontrado onde Russell diz que existência é um “operador”.

    Espero ter ajudado.
    Abraço.

  2. marcosfanton · · Responder

    Cléber, muito obrigado pela colaboração!
    Seguinte, é muito provável que estejamos falando a mesma coisa com conceitos diferentes (!). Esta interpretação que coloquei é dada por Tugendhat, na sua Propedêutica lógico-semântica, Cap. 11.Ali, “operador” quer dizer algo como “força” da proposição, ou seja, ele diz respeito ao conteúdo proposicional – assim, talvez, daria pra dizer que é uma propriedade de funções proposicionais. Que tu achas?

  3. Sem dúvida que é possível estarmos falando da mesma coisa usando palavras diferentes. Embora eu não tenha lido a interpretação do Tugendhat, ela parece plausível. O importante aí, na minha opinião, é deixar explícito a que se atribui a propriedade da existência, como tu fez na tua réplica.

    Acho que era isso. Abraço e boa sorte na dissertação (deseje-me o mesmo que vou precisar muito :D)

  4. Prezado Marcos,
    Parabéns pela empreitada de investigar a fundo o conceito de”existência” –iniciando pelo estudo da rubrica no “Historische Wörterbuch der Philosophie”. A primeira coisa que salta aos olhos –e que eu creio deveria ser uma das mais importantes numa pesquisa desse tipo—é que, assim como na rubrica do HWP como em todos os registros enciclopédicos (Stanford e outros), a polissemia do termo “existência” nos obriga a levar em conta o contexto semântico em que está sendo usado. Com certeza, dizer que “Deus não existe” varia radicalmente conforme o contexto ou de acordo com a perspectiva de quem o diz –se um é um ateu, um teísta, um budista ou um filósofo analítico. Como eu entendi que o teu projeto se limita ao sentido ontológico da filosofia ocidental –o que já é em si uma empreitada magnífica—eu acho que vc devia articular de maneira mais explícita possível a relação entre filosofia da linguagem e metafísica, precisamente para não incorrer em imprecisões ou leituras errôneas (que encontramos em todos os grandes filósofos do passado e do pesente) ou –pior ainda– em misticismo semântico. Num dos links que vc mesmo indicou, a Barbara Cassin (em seu “Vocabulaire européen des philosophies”) nos adverte contra esses perigos, com exemplos de diferentes usos em diferentes línguas, em diferentes contexos culturais –incluindo a nossa contraposição entre “ser” e “estar”.
    Como vc mesmo levantou a bola, eu não pude resistir ao chute. Acho que o comentário do Puntel sobre Kant é, em parte, equivocado –ou pelo menos, mal formulado. Heidegger (assim como Husserl, antes dele) entenderam que o problema era mesmo de perspectiva semântica, que teríamos de mudar de paradigma de significação, portanto, se quisermos dar conta do que significa, afinal, falar de sujeito, mundo e significado. Isso faz parte do que Quine chama de “ontological commitments” –afinal, falar sobre o que há, sobre o que existe, em grande parte depende do que vc está falando –e com quem, em que contexto. Por ex, seria totalmente errôneo dizer que Kant acredita que o a priori “existe”, quando na verdade K apenas se pergunta como os juízos sintéticos a priori “são possíveis”. Como mostrou o Robert Hanna, o problema semântico é correlato ao problema modal do a priori–e sem isso, não podemos entender o que significa “existência”, por ex, no sentido de que não existe liberdade na natureza (como existem partículas da física) e que talvez nem mesmo números existam (anti-platonismo)–embora a matemática pura seja a priori. Entre Kant, Frege e Husserl podemos dispor de diferentes mapeamentos semânticos do que “existe” em termos de entidades matemáticas, mas o que nos deveria interessar nessas análises comparativas não seria tanto a intenção do autor (por ex, que Kant não acreditava na “existência” de algo como “raiz quadrada de menos um”, os números complexos só “viriam a ser” pensados depois) mas como as suas respectivas concepções de existência fazem sentido (make sense) num dado contexto semântico em seus respctivos jogos de linguagem. No caso de K, a correlação entre realismo empírico e idealismo transcendental não pode ser desprezada (como o faz Puntel) Assim, perguntar se existem cordas e dezenas de subpartículas em física quântica me parece uma questão diferentemente formulada (embora a sintaxe seja a mesma, a semântica é claramente distinta) da questão se existe um saci pererê ou mula sem cabeça (que certamente fazem ou faziam parte do imaginário folclórico de vários brasileiros) e da questão existencial, tanto em termos ontológicos do Dasein (Heidegger) quanto em termos ôntico-existenciais (Sartre). A meu ver, a fenomenologia tornou o perspectivismo semântico mais acessível e até mesmo vulgarizado ao ponto de nem pensarmos que estamos mudando de uma perspectiva de subjetividade (ou intersubjetividade) para outra da ontologia ou até da própria linguagem, após todas as críticas e desconstruções de sentidos previamente assumidos. Eu acho que nem Heidegger nem Sartre ultrapassaram a contenção kantiana de que o sentido último da existência está vinculada à liberdade humana (por isso não pode ser predicada no sentido “S é p” e “ser” não seria um predicado real) –o problema continua sendo o mesmo que o Habermas revisita na tese kantiana dos dois mundos, a meu ver injustamente denominado de “dualismo ontológico”. Enfim, eu acho que o teu trabalho vai ter de ser muito meticuloso e cauteloso para evitar os diálogos de surdos e as patologias semânticas (sem dúvida, a mais comum é o próprio autismo filosófico!) entre pensadores analíticos e continentais, compreendendo todos aqueles que viraram casaca. Good luck!

  5. marcosfanton · · Responder

    Opa, Nythamar! Sem dúvida, essa questão da cautela com termos filosóficos e da possibilidade de diálogo entre filósofos é algo que realmente me preocupa. É por isso que, na introdução da minha dissertação, irei realizar uma distinção importante entre “palavra”, “conceito” e “problema” – aliás, tópico de um post futuro. Por exemplo, Heidegger e Russell utilizam a mesma palavra (“existência”), mas os conceitos e os problemas que subjazem a estes conceitos são totalmente diferentes.
    Acredito também que a noção de paradigma filosófico (Stein), de quadro referencial teórico (Puntel) ou, ainda, como você diz, de “perspectivismo semântico-transcendental”, traz uma importante contribuição metodológica para os debates. A crítica que Heidegger vai fazer ao conceito de existência em Kant é totalmente diferente da apropriação de Russell sobre tal conceito – até porque cada um quer resolver diferentes problemas. Dito de um modo bastante superficial, se Heidegger procura estabelecer uma ontologia fundamental fora da relação sujeito-objeto, Russell procurará explicar o conceito de existência nos quadros de uma linguagem logicamente disciplinada/coerente.
    É por isso que, a respeito da crítica de Puntel a Kant, diria que o que falta ao primeiro, muitas vezes, é mostrar explicitamente que sua crítica a outros filósofos se insere no seu próprio quadro teórico, isto é, o modo como ele interpreta a história da filosofia parte de sua filosofia estrutural-sistemática. Isto, de certo modo, lhe impossibilita de uma refutação total a um filósofo (se é que isto é possível).

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