O problema do abismo e da cesura em Kant

Semana passada, na última aula do seminário do Stein, uma discussão sobre Kant caiu em pauta. O problema dessa vez é aquilo que o Puntel chama do problema do abismo e da cesura , isto é, a diferenciação, comum na tradição filosófica, entre dois pólos: mente e mundo, fenômeno e coisa em si, sujeito e objeto, etc. Nesse sentido, argumenta Puntel, todos os filósofos que realizam essa diferenciação caem, sem saber, em uma auto-contradição performativa: “seus próprios enunciados não seriam nem compreensíveis nem mesmo possíveis, pois eles tematizam justamente a interconexão das duas dimensões distintas”. E dentre esses filósofos está o próprio Kant:

Se a filosofia transcendental de Kant tivesse validade absolutamente universal, os próprios enunciados do filósofo transcendental na Crítica da razão pura nem seriam possíveis ou não seriam acertados, pois não apreendem a estrutura “real” – portanto, a que é em si [ansich-seiende] do espírito humana, mas apenas a “aparência” (deste!). Está claro, porém, que os enunciados feitos na Crítica da razão pura reivindicam apreender e estruturar a “estrutura que é em si [ansich-seiende] do sujeito cognoscente (PUNTEL, Estrutura e ser, p. 489).

A questão que se encontra aqui, então, é perguntar-se: “como o próprio Kant, o Kant concreto, que escreveu a CRP, sabe sobre algo que está além da sua própria capacidade cognitiva?, como ele sabe e escreve sobre a razão (sendo esta considerada, por Puntel, como a coisa em si?” Bom, primeiramente eu gostaria muito de ouvir um kantiano falar sobre isso, porque eu acho muito difícil que ele não tenha armas para, no mínimo, embaralhar estas perguntas.

Em segundo lugar, seria interessante tentar perceber que autores estão situados na esteira desse tipo de solução para o problema do conhecimento. P. Strawson, na sua conferência Kant’s new foundation of metaphysics, apresentada no congresso Metaphysik nach Kant? (1987), levanta a tese de que alguns aspectos da filosofia kantiana estão ainda muito presentes nos filósofos de língua inglesa do século XX. Nesse sentido, dependendo do modo como interpretamos a revolução copernicana, podemos ter dois grupos de filósofos:

(1) De acordo com a concepção puramente negativa de númeno, todo pensamento das coisas em si mesmas é vazio, isto é, vira uma tautologia: “knowledge of the things of which we can have knowledge is impossible except under the conditions under which it is possible; or: we can know of things only what we can know of them“. Aqui, Putnam, Davidson, Wittgenstein compartilham da mesma opinião.

(2) Se admitirmos uma distinção de dois reinos distintos de entidades, o sensível e o suprasensível, fenômenos e númenos, então, nenhum filósofos desses mencionados compartilham do idealismo transcendental. Quem compartilharia com tal posição, diz Strawson, é justamente Thomas Nagel, que argumenta a possibilidade parcial, apesar de incompleta, de conhecermos como as coisas são em si mesmas.

Na fenomenologia hermenêutica, este problema cai fora quando Heidegger diz que fenômeno é aquilo-que-se-mostra-em-si-mesmo, o que significa: o ente mostra-se em seu ser – e não há nada para além da compreensão do ser do ente. E por que não há abismo ou distinção entre coisa em si e fenômeno? Porque a constituição ontológica do ente que tu mesmo é e dos outros entes já sempre são antes mesmo de qualquer tipo de explicitação teórica. No §32 de Ser e tempo, Heidegger fala o seguinte:

Pero si ya toda percepción de un útil a la mano es comprensora-interpretante y deja comparecer circunspectivamente algo en cuanto algo, ¿no quiere entonces decir esto que primero se experimenta una cosa que está puraemnte ahí, y que luego se la entiende en cuanto casa? Esto sería malentender la específica función aperiente de la interpretación. La interpretación no arroja cierto “significado” sobre el nudo ente que está-ahí, ni lo reviste con un valor, sino que lo que comparece dentro del mundo, ya tiene siempre, en cuanto tal, una condición respectiva abierta en la comprensión del mundo, y esta condición queda expuesta por medio de la interpretación.

Aparece aqui, algo como uma espécie de “realismo”, mas que não tem nem um pólo subjetivo nem um pólo objetivo separados, em que um precise alcançar o outro. Interpretar o mundo e a mim mesmo já é interpretar como o mundo é e como eu sou.  Portanto, não há abismo nenhum, mas modos diferentes de interpretação – mais ou menos fundamentais.

O mais interessante da argumentação do Puntel (assim como de Heidegger) é a inclusão do próprio teórico ou, também, dos próprios enunciados da teoria sobre aquilo que ele(s) fala(m). Por exemplo, quando Wittgenstein diz “Os limites da minha linguagem representam os limites do meu mundo”, Puntel irá replicar dizendo que “já se ultrapassou linguisticamente esse limite, pois se fala sobre o limite, e isso quer dizer que se está articulando linguisticamente a dimensão que se situa além do (suposto) limite da linguagem (Estrutura e ser, p. 39) (Isto, diga-se de passagem, pode ser aplicado ao que se fala sobre o Outro).  A aposta, no entanto, não é a mesma dos filósofos citados por Strawson, já que estes ainda se situam – poder-se-ia argumentar – em um paradigma da subjetividade.

5 comentários

  1. […] punheta mental | Tags: distropia, Filosofia, Kant | No Comments  Marcos, no que deve ser o post mais denso que eu já li no […]

  2. Muito interessante!

  3. “A questão que se encontra aqui, então, é perguntar-se: “como o próprio Kant, o Kant concreto, que escreveu a CRP, sabe sobre algo que está além da sua própria capacidade cognitiva?, como ele sabe e escreve sobre a razão (sendo esta considerada, por Puntel, como a coisa em si?”

    Bom, admite-se um limite para o conhecimento das coisas porque o acesso a elas se dá através das estruturas de um “Eu” que conhece. Kant não afirma que a coisa em si pode de maneira nenhuma ser conhecida, mas apenas enquanto admite-se um limite. Isto é, ele deixa claro que, nesse sentido, o parâmetro é negativo, não afirmativo. Bom você ter colocado o exemplo de Nagel, não conheço o suficiente, mas tenho mais ou um menos uma idéia formada a partir do exemplo do “Como é ser um morcego?”, onde ele afirma justamente a questão de que, a partir das bases de cada ente, isto é, suas estruturas, eu sou incapaz de reproduzir totalmente o que esse indivíduo conhece. No caso, estabeleço um limite para erros não sejam cometidos e me limito a dizer: “eu, como humano, considerando a minha base física, atribuo determinado sentido para essa apreensão do morcego.”

    Quando Puntel afirma que ao se afirmar o limite, ele já é superado, podemos recorrer a Kant, quando ele deixou claro que pensar os limites não é o mesmo que conhecê-los. Além do mais, mesmo Wittgenstein, ao ter uma visão mais acertada, estabelece limites, os limites do “contexto”, por mais que eles não sejam os mesmos de quando ele afirmava não ser possível conhecer determinadados campos teóricos. Ou seja, a “censura” é apenas uma economia: para não perdermos tempo ao achar que pensar é o mesmo que conhecer.

  4. correção, onde eu disse “Kant não afirma que a coisa em si pode de maneira nenhuma ser conhecida, mas apenas enquanto admite-se um limite.” leia-se “Kant afirma que a coisa em si não pode de maneira nenhuma ser conhecida, mas apenas enquanto admite-se um limite.”

  5. [Foi meio apressado o meu comentário anterior e um tanto quanto óbvio, logo faço outro:]

    Como afirmei, esses dois pontos as quais você faz referência, estariam, ao meu ver, interconectados. Porque a separação que você coloca lá no início do texto não parece ser o mais importante para Kant, no sentido de que ambas as categorias (sujeito e objeto) são inseparáveis. Para muitos intérpretes, é realmente um problema supor a conexão entre essas categorias, muitos afirmam que Kant se baseia em pressupostos não demonstrados, que o seu problema maior reside no fato de que o princípio do sistema seja baseado na dedução. Além da “contradição performativa” que surge da irreflexão ou falta de demonstração dos princípios.

    Mas, não parece ser um problema quando se enxerga a crítica de outra forma, quando se admite outra realidade apenas como um limite estabelecido pelas próprias estruturas do “Eu”, da subjetividade. Estabelecendo-se um critério de semelhança entre Nagel e Kant, que você fez no segundo ponto, admite-se perfeitamente o limite, o negativo – já apontado no primeiro momento. Pode ser entendido desta forma: enquanto o “Eu” não apreende as estruturas de algo em certo sentido, devido às suas limitações – por estar apoiado em uma base empírica (cérebro) e limitado a um ponto de vista (os sentidos) – há algo que ele não “abarca”, que ele não consegue apreender ou não que não pode ter certeza, mas não quer dizer que o que se obtém em por via da experiência seja falso.

    Além do mais, o limite não surge de “fora”, das coisas que se apresentam no mundo. Mas do “eu” que pode não fundamentar de forma correta os seus saberes. O problema não é imaginar um “além” no sentido de algo que esconde a verdade, que a vela, mas reconhecer os princípios, limites e extensão do próprio conhecer. Imaginemos isso em relação ao sentido das próprias categorias, através das quais nós pensamos uma em função da outra e mesmo as suas construções se dão por meio de analogias, enquanto geradas pelos conteúdos da experiência e pela forma como podemos apreendê-los, não enquanto objetos.

    Em suma, escolhe-se por uma distinção entre o conhecimento subordinado às estruturas da consciência e o conhecimento das coisas enquanto não-limitado, onde não há diferença entre ser e dever-ser, pois o sujeito pode perfeitamente construir objetos do conhecimento sem precisar “prová-los” justamente quando se considera a superação dos limites – como o exemplo de Puntel, ao afirmar que só pelo fato de um indivíduo falar sobre os limites, ele já estaria agindo e os ultrapassando. Mas ainda prefiro Kant, quando ele afirma que sem admitirmos as “estruturas a priori”, podemos dizer o que quisermos, mas isto não terá valor.

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