The Doctor’s Dilemma II

O Fabrício, logo abaixo, fez um post fantástico sobre a questão da eutanásia a partir de um artigo da Vanity Fair sobre o “Dr. Morte”. Eu acabei de os ler e, por empolgação, resolvi colocar meus comentários em um post próprio.

De início, diria que o artigo parece apelar excessivamente à “psicologia”: observações e expressões acerca da suposta “personalidade” ou “comportamento” do Dr. Morte e dos seus pacientes, etc. Digo não apenas em relação à argumentação que o debate provocou, baseado em sentimentos ou intuições morais – o que o Fabrício descarta prontamente -, mas o próprio artigo que o Rosenbaum escreveu é preenchido por observações que – me parece –  pretendem mostrar o modo como o Dr. K é ou age – como se isso mostrasse o porquê dele realizar tais “procedimentos”.

A segunda questão inicial que eu colocaria é a dificuldade em se debater tais questões polêmicas aceitando-as como questões legítimas de serem questionadas e debatidas.  E esta dificuldade eu coloco para mim mesmo. Como uma questão se torna ou pode ser considerada interessante ou legítima? Ela está sendo simplesmente reprimida por uma comunidade acadêmica ou é, realmente, uma questão idiota? Veja-se o impasse que o artigo coloca:

Still, by 1989 most American medical journals were rejecting Dr. K’s increasingly controversial articles and few people were paying attention to him. He might have gone to his death a neglected eccentric if he hadn’t abandoned his writing desk for the workbench and constructed the Thanatron.

Agora, situando-me diretamente no debate sobre eutanásia, parece-me que, de cada lado, erguem-se duas questões fundamentais:

(1) em relação aos médicos, a argumentação corrente no artigo é que a relação médico-paciente é constituída, isto é, tem por finalidade, a cura. Portanto, tudo que cair fora deste escopo – e a idéia da eutanásia cairia fora – é considerado uma subversão da profissão média. As perguntas que poderíamos fazer seriam, então: quais os limites da atividade médica, se ela for considerada apenas na perspectiva da cura? A relação médico-paciente tem apenas esta perspectiva? A eutanásia ativa, nesse sentido, seria um procedimento médico, mas realizado em um âmbito mais amplo? Ou tal procedimento destruiria a atual concepção de relação (ética) entre médico e paciente?

(2) em relação ao paciente, a pergunta mais impactante que li no artigo é realizada pela paciente Sherry Miller: “And how do you ask somebody to end your life?”. Ela mesma responde que “I want the right to die and I want the right to have help!”. Portanto, acho que esta questão, do ponto de vista do paciente, começa a ficar problemática quando há uma demanda do próprio paciente para, ética e legalmente, ter um suicídio assistido (eutanásia ativa). Mas, como pedimos isso?

Acho que todas estas questões, como o Fabrício aponta, buscam critérios. E como é possível estabelecer estes critérios? É aqui que vejo a possibilidade de um diálogo frutífero com a filosofia. Sim, pois os argumentos tanto para a aceitação quanto para a rejeição da eutanásia têm que estar justificados não apenas entre médicos, mas também para qualquer pessoa que possa ver-se enfrentada com este dilema. E, se precisamos de justificações recíprocas, estas não podem estar baseadas apenas em visões-de-mundo, ideologias, etc., que sejam mais restritas do que a própria comunidade moral em voga. Daí, a necessidade de um trabalho de articulação interdisciplinar.

Sinceramente, eu acho, no mínimo, simplória a distinção entre eutanásia ativa e passiva quando se trata de pacientes conscientes – como foi exposto, por exemplo, em uma declaração da  World Medical Association. Acredito que isto significa evitar o problema, a não ser que isto fosse tomado como uma resposta provisória – o que não é.

É de se pensar até mesmo se seria necessário a tal da máquina do Dr. K, caso a eutanásia ativa fosse autorizada. Afinal, ela não servia justamente como uma tentativa de desviar as possíveis represálias posteriores?

Por fim, peguemos o caso da Suíça (me baseio neste artigo; para entrar, é só se registrar grátis). O código penal deste país distingue suicídio assistido [eutanásia ativa] de eutanásia [passiva]. O primeiro é plenamente legalizado, a não ser que seja por motivos egoístas (o que é uma questão muito interessante: imagine se a paciente do Dr. K, Janet Adkins, tivesse um seguro de vida. A culpa ou a discussão não se dirigiria para o marido dela?). Além disso, o suicídio assisitido não precisa, necessariamente, do envolvimento de médicos. Por quê? A Academia Sueca de Ciências Médicas, em suas recomendações éticas, dirá porque este procedimento não faz parte das atividades médicas. Voltamos, então, para a questão (1) formulada anteriormente. Como, no entanto, isto é realizado, o artigo não conta. Mostra apenas que há um inquérito quando o pedido é realizado. Segundo as estatísticas (que não são detalhadas), cerca de 1800 pedidos são realizados anualmente, sendo que: (i) 2/3 são rejeitados; e, dos restantes, (ii) metade morre por outras causas e, então, (iii) cerca de 300 “suicidam-se de modo assistido”.

3 comentários

  1. desculpe a invasão…sou leigo em filosofia…participo de um blog que distribui palestras e vídeos do café filosófico da TvCultura…estou aqui divulgando o blog tem problema? ousando um pouco mais, poderiam nos apoiar divulgando?

    http://filosofiacomcafe.blogspot.com/

    obrigado e um abraço, o blog de vocês é excelente.

  2. marcosfanton · · Responder

    Claro! Não há problema algum. Estaremos colocando o seu blog no blogroll.
    Quando quiser, sinta-se à vontade para comentar, fazer perguntas, sugestões, etc.!! :)

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