Existência [Existenz] – parte 1

Bom, como o tema da minha dissertação já estáva definido – vai ser sobre o conceito de existência em Ser e Tempo -, resolvi postar aqui algum material que tenho o prazer de ter traduzido sobre o assunto. O primeiro deles é o verbete Existenz do famoso Historisches Wörterbuch der Philosophie, organizado pelo Joachim Ritter (e outros), com 12 bandas volumes. Assim, a tradução que fiz é apenas parte de um projeto anárquico pedagógico, com a intenção apenas de piratear compartilhar o material disponível. Ou seja, apesar de servir como fonte de pesquisa, a tradução não serve como referência bibliográfica –  nem para colocar no cartão de páscoa que o Fabrício vai escrever para sua esposa. Enfim, nada de terrorismo, pessoal, vamos ficar todos calmos, afinal o  coelhinho está chegando! Segue abaixo a primeira parte do verbete; o projeto é postá-lo em três partes.

I. A palavra <existentia> (E.) apareceu em latim, pela primeira vez, nas obras teológicas de Marius Victorinus (em 360 d.C.), onde serve, quase sempre, para a tradução de  ὕπαρξις e está em oposição à <substantia>, tradução de  οὐσία, enquanto que <subsistentia> é reservado para a tradução de  ὑπóστασις. <E.> é derivada de <existere>, estabelecido na linguagem filosófica, frequentemente, no lugar de <esse>, especialmente na forma do particípio. Na base dessa igualdade de significados de <existere> e <esse>, está a palavra <existentia>, equivalente em Victorinus a <essentia> – Victorinus mesmo a utilizou apenas muito raramente – e significa geralmente “o Ser” [das Sein]. Mas, de acordo, respectiva e especialmente, com o sentido no qual, nos textos gregos primeiramente utilizados de Victorinus, foi atribuído às palavras ὕπαρξις e οὐσία, pode <E.>, em Victorinus, assumir três diferentes significados:

a) Em um primeiro significado, <E.> (ὕπαρξις) situa-se em oposição à <substantia> (οὐσία), como o puro ser, que não é nem sujeito nem predicado; situa-se em oposição ao sujeito concreto, que é determinado através de seu predicado. Esta oposição fixa de antemão uma ontologia, devido a qual o ser é fundamental, absoluto, universal e indeterminado (isto é justamente existentia). E determina-se progressivamente para ascender, através do aparecimento de sempre mais determinações ou qualidades particulares, até a realidade concreta (substantia). A mesma oposição de παρξις e οσία acha-se em Damaskios e, provavelmente, Victorius mesmo retirou [hat] esta distinção de Porphyrios. Pode-se esclarecê-la através de uma estreita interação entre Platonismo, Aristotelismo e estoicismo. Com efeito, esta oposição, inicialmente, equivale à oposição aristotélica entre o ser ideal de uma coisa e a coisa mesma (τὸ ἑκαστῷ εἶναι e ἑκαστός). Mas, na tradição [Überlieferung] aristotélica, παρξις jamais foi utilizado para denotar o ser ideal de uma coisa. A palavra παρξις adquiriu seu significado filosófico na tradição estóica, na qual contrastou-a, nitidamente, de οσία e πóστασις. Para os estóicos, οσία ou πóστασις significa o sujeito concreto, material, que enquanto tal, possui a plenitude da realidade ontológica, enquanto παρξις significa um predicado atual desse sujeito concreto, um acontecimento que, em sua vista, tem apenas uma realidade aparente, porque não é material.  No Neoplatonismo, estes não-materiais estóicos tornam-se um não-material platônico, que da autonomia sem predicado torna-se um predicado como os platônicos o entendem, quer dizer, como uma Idéia pré-existente na qual participa a substância ou o sujeito concreto. O que foi efeito sem substância, torna-se puro efeito do Ser universal e indeterminado. Então, o conceito aristotélico de <Ser ideal da coisa> (τὸ ἑκαστῷ εἶναι) pode, novamente, assumir seu sentido original platônico: o ser ainda não concretizado torna-se a Idéia pré-existente. Victorinus pode, ainda, definir <E.> como <substância pré-existente>, quer dizer, como a condição pré-existente da realidade concreta. Esta última definição alude ao sentido etimológico de παρξις, que foi interpretado como <pré-começo> [Voraus-Beggin] e que não pode receber a tradução como <E.>. A condição absoluta é Deus mesmo, que Vicotorinus – nisto, provavelmente segue Porfírio – denomina, sem vacilação, <E.>. Há um auto-estabelecimento [Selbstsetzung] da realidade divina, pela qual a E. original e absolutamente indeterminada transborda na “vida”, para retornar, no auto-conhecimento, para si mesmo e, então, constituir-se, através de um processo trifásico, como substantia totalmente determinada.

b) Em um segundo significado, <substância> (οσία), de modo inverso, denota o Ser indeterminado e <existentia> (παρξις) o Ser determinado, o que recebeu uma forma. Este sentido procede da tradição eclesiástica do começo do ano 4, que, por um lado, mesclou παρξις e πóστασις , e, por outro, interpretou a οσία (= substantia para Victorinus) como indeterminada, e a πóστασις como determinada. Esta nova distinção valeu também para Victorinus descrever as relações entre Pai, Filho e Espírito Santo: cada um desses três é a substantia divina compartilhada, mas de acordo com a forma, que é característica para cada um deles, quer dizer, de acordo com sua E. específica (peculiaridade, determinação, qualidade, atividade). Este uso teológico da palavra <E.> acha-se, posteriormente, apenas raras vezes, porque os latinos do final do ano 4, em quase todas πóστασις, reproduziam-na com substantia.  A equalização de <E.> com propietas apareceu mais tarde apenas com Orosius e, ainda, em um credo anônimo e, eventualmente, em certas traduções latinas de documentos do concílio, nos quais <E.> correspondia à palavra πóστασις.

c) Em um terceiro significado, <E.>, em Victorinus, torna-se, simplesmente, um sinônimo fácil para <substantia> e denota, ainda, de modo impreciso, o <aliquid esse>, o Ser-algo.

Após Victorinus, refletiu-se, partindo da antigüidade, não mais sobre o sentido de existentia e a palavra, que apenas foi utilizada raramente, tem um sentido muito indeterminado. Nos muito poucos empregos, onde é tratado por Augustinus, Calcidiu (segunda metade do ano 4), PELAGIUS, Claudianus Mamertus e Cassiodor, denotou a realidade concreta de uma coisa. Em um sentido estrito da palavra, significa um processo de realização, uma aparição ou sobre-sair [Heraus-Treten] (no sentido etimológico de ex-sistentia) em Calcidius (em oposição a possibilitas), em Julian von Eclan (em oposição a possibilitas), em Leo Dem Grossen e no autor anônimo do escrito “De attributis personae”. Em Makrobius e Boethius – o tratado <De fide>, no qual a palavra aparece uma vez, é, provavelmente, apócrifo – <E.> parece fazer pouquíssima falta. É notável que Scotus Eriugena a evita e usa a palavra <substantia> para reprodução de παρξις. Ainda que a palavra <E.> ficou em desuso, as formulações de Victorinus, nas quais o termo foi aplicado a Deus e aludiram a uma tríade <existentia – vita – intelligentia>, professou ao medievo através de Alcuin, no qual os cita em <De fide>.

4 comentários

  1. […] Abril 7, 2009 O tradutor de farroupilha ataca novamente Posted by fabriciopontin under coisas de bolsista, matter-of-fact, punheta mental | Tags: distropia, Provocações Gratuítas, Traduções | No Comments  Escondam as crianças. […]

    1. “O que foi efeito sem substância, torna-se puro efeito do Ser universal e indeterminado. ”

      Baita trabalho, Farroupilha. Só esta frase dá combustível para uns quinze artigos.

      Mas preciso perguntar, como vamos entender este “efeito sem substância”?

  2. Pois é, cara, é a miscelânea dos dicionários de filosofia. Vamos esperar para a tradução do verbete Wirkung! :P

  3. […] Bom, enquanto vou revisando a pirateação tradução do resto do verbete existência, do Historisches Wörterbuch, resolvi colocar a tradução do verbete Erschlossenheit, […]

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