Objetivismo, dabilidade e síntese

Sexta passada, aqui na SIU, ouvi o tal do Shelby Hunt.

Pois bem, me contam que o cidadão é um dos grandes pensadores do marketing e do mercado, e me passaram um artigo dele sobre a tal da theory-ladeness e também sobre filosofia da ciência e marketing. Por mais estranho que a intersecção entre um assunto tão prático (marketing) e outro tão amplo (filosofia da ciência) pudessem parecer, o Shelby Hunt – na leitura do artigo – pareceu saber do que estava falando. De forma que resolvi ir na palestra do cidadão.

Dez minutos de palestra, o quadro estava mais ou menos formado na minha cabeça: “Círculo de Vienna aplicado ao Marketing”. Até aí, tudo bem. É um modo legítimo de se pensar ciência. Mas o Hunt queria mais, ele queria defender um modelo objetivista para se pensar a ciência, e queria defender que este modelo objetivista é o modelo que é capaz de dar conta de explicar a ciência sem apelar para argumentos do tipo ad-hoc (e.g.: “milagres”) na descrição do progresso científico, ou mesmo da possibilidade do progresso científico.

Até onde consegui acompanhar a descrição do Hunt, que admito ter sido bastante elegante e bem fundamentada, ele baseou o modelo dele em Popper e Wittgenstein. O primeiro Wittgenstein, é claro. Portanto, podemos (1) reconhecer um mundo externo; (2) significar este mundo externo em (3) formas propositivas que são verdadeiras ou falsas.

Só que o Hunt quer ser um objetivista e ainda resguardar a realidade das proposições de verdade e falsidade que fazemos sobre objetos. Como eu disse, é um forma legítima de pensar a ciência. Mas ela não é, de forma alguma, a única. Inclusive, existem alguns problemas que esta forma “objetivista” de pensar a significação parece não dar conta.

Primeiro, é a questão do Objetivismo per se.

Pois bem, é claro que se admitimos a existência de um mundo externo também podemos admitir que este mundo externo limita as possibilidades de nosso conhecimento. Assim, os objetos nos dão limites para a sua significação. A significação do que é externo não é aberta para qualquer tipo de significação. O problema é que ela é aberta para alguns tipos de significação. O outro problema é que objetos externos não são capazes de colocarem (posit) a sua própria existência para eles mesmos. E então? Então permanece que para algo ser considerado “objetivo” ele precisa ser “dito objetivo” e isso é uma espécie de internalização do objeto. Neste sentido o Objetivismo pressupõe um sujeito capaz de dizer sobre aquilo que é Objetivo, e não é mesmo “objetivo”, a existência do objeto pode ser independente da do sujeito que significa, mas ela tem sentido apenas no momento da significação. Antes disso o objeto existe em silêncio – e não pode ser, obviamente, nem verdadeiro, nem falso (afinal, proposições não existem em um mundo de silêncio).

O que me leva para o segundo ponto:

A questão da forma como objetos são dados. Com Husserl, podemos dizer que existe uma dabilidade vertical e horizontal do mundo externo que é persistente no momento de significação. Aqui entramos em um problema que não cabe em um blog, que é o problema da transcendência. Acontece que a perspectiva objetivista muitas vezes falha em dar conta do problema da transcendência exatamente por focar apenas em uma externalidade horizontal. Ocorre que se seguimos uma abordagem fenomenológica, vamos falar de retenção e representação. A retenção não é um ato intencional, mas pré-predicativo de aproximação. O objeto se apresenta e é retido como uma potência, mas ainda não é atualizado intencionalmente (na forma de uma representação).

Daí o problema da síntese.

Husserl irá falar de Síntese ativa e Passiva, ou seja, de uma forma de sintetizar a aparencia de objetos externos que não é objetificante (embora ela respeite os limites do objeto). Existe um fator do ser-afetado por uma realidade externa, que é então sintetizada e significada. Mas ela não é significada de forma total, ela permanece também com um elemento retido, que participa da construção do sentido do que chamamos de “tempo” e de “memória”.

A pergunta “e a ciência com isso” talvez tenha que ser levantada agora.

Bom, o que me parece claro aqui é que esta forma de olhar a questão da significação vai informar um outro modo de trabalhar com o científico, e que também não vai explicar as coisas em termos de milagres. No entanto, esta forma traz consigo a vantagem de poder dar conta de duas explicações conflitantes para o mesmo problema científico – sem ter que atribuir para esta ou aquela questão o status de “falsa” ou “verdadeira” em detrimento da outra. Ela também consegue dizer algo sobre aquilo que permanece não-dito, aquilo que a síntese ativa (horizontal) não dá conta, e de certa forma pressupõe. É este mesmo elemento que em Husserl vai estar ligado com a generatividade e a temporalidade, com o que Heidegger vai chamar “desvelamento”.

Com isso talvez eu desenhe meu problema maior com o discurso Objetivista mais radical, que é o explendor inorgânico daquela forma de descrever a realidade externa – e as limitações de trabalhar com “interno” e “externo” em termos proposicionais formais. Diga-se de passagem, este foi um problema que Wittgenstein mesmo foi capaz de reconhecer nas Investigações, e que pessoas como o Hunt fariam bem em considerar antes de afirmar que o Realismo de fundo Objetivista é a única forma de descrever o conhecimento científico de forma não-arbitrária.

Para deixar Husserl ter a última palavra:

It was only with phenomenology that we first had avenues of access, methods, and insights that make possible an actual theory of science, namely, through its radicality in going back to sense-giving consciousness and the whole of conscious life. It is phenomenology that seriously inquires back from the ready-made propositions, theories, to thinking consciousness and to the broader nexus of the life of consciousness in which these formations are constituted; and it inquires back, going still more deeply from all types of objects as the substrata of possible theories, to experiencing consciousness and its essential characteristics which make the experiencing accomplishment intelligible. It thus allowed us to see in a presuppositionless manner the feature of intentionality as the very feature that makes up the fundamental essence of consciousness. It has generated methods of developing the hidden implication of one consciousness in another, an implication that is given everywhere with this feature, and therefore of making intelligible how objectivity as a true being of every kind is shaped as an accomplishment in the subjectivity of the life of consciousness, and is then shaped as a higher level of accomplishment which is there as theory. If one goes back from theory that is dead, so to speak, and has become objective, to the living, streaming life in which it arises in an evident manner, and if one reflectively investigates the intentionality of this evident judging, deducing, etc., one will immediately be lead to the fact that what stands before us as the accomplishment of thougt and was able to show itself linguistically rests upon deeper accomplishments of consciousness. Thus, for example, in order to be able to emanate from actual evidence every theory that refers to nature presupposes natural experience – what we call outer experience. In this way, all theoretical knowledge in genreal ultimately leads back to an experience. (Husserl, Analyses:31-32)

2 comentários

  1. […] Março 30, 2009 Externalismo, Internalismo e a palestra de sexta Posted by fabriciopontin under NERDices, coisas de bolsista, punheta mental | Tags: distropia, Filosofia, Rotina |   Aqui. […]

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