“Darwin, já no início de 1838, em seus Notebooks, dizia que sua teoria levaria ao estudo de uma nova Metafísica”. Entrevista com Anna Carolina Regner

Para continuar a nossa série de debates e entrevistas sobre Darwin, entrevistamos, agora, a Profa. Anna Carolina K. P. Regner. 

Apenas para contextualizar, a Profa. Anna Carolina leciona na Unisinos e tem como foco de estudo os problemas filosóficos que envolvem a teoria de Darwin e as questões da linguagem, da racionalidade  e do discurso das ciências. Estudou com Paul Feyerabend e realizou pós-doutorado  em Standford, com Timothy Lenoir. Foi, ainda, professora Fullbright no Saint Mary’s College da Californa e visiting scholar em Standford, no Centro de Estudos Latino-Americanos. Fora isso, participou da fundação do Grupo Interdisciplinar de Filosofia e História das Ciências na UFRGS e da revista Episteme, além de ter organizado o I Encontro o Cone Sul em 1998, cujo segundo encontro foi marcado pela criação da Associação de Filosofia e História da Ciência do Cone Sul (AFHIC). 

Para quem quiser conhecer os trabalhos da Profa. Anna, indicamos, entre o que está disponível na internet, esta entrevista sobre sua trajetória acadêmica e artigos como A origem das espécies: diálogo de imagens na trilha de uma teoria O papel da metáfora no longo argumento da “Origem das Espécies”  Retórica e racionalidade científica. 

Fica, então, mais uma vez, nosso agradecimento à profa. Anna Carolina por ter, gentilmente, aceito o nosso convite.  

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Distropia (D): Para a senhora, qual seria o principal problema ou o principal debate da época que Darwin procurou resolver com sua obra “A Origem das Espécies”? 

Anna Carolina Regner (ACR): O grande debate do qual Darwin participou e ao qual trouxe contribuição decisiva foi o debate sobre a origem das espécies, com todas as suas ramificações na área da História Natural. Na Inglaterra, a “História Natural” que Darwin encontrou confundia-se com uma “teologia natural”, quando os naturalistas (muitas vezes pacatos párocos) tomavam a aparente perfeição de adaptações e co-adaptações como evidências de desígnio divino, enfatizando a harmonia de toda a natureza. No plano dos debates geológicos e paleontológicos, a grande polêmica era a do “catastrofismoversus uniformitarismo”. As investigações sobre o tema ensejavam investigações sobre a origem das formas biológicas, a respeito da qual a grande polêmica foi a do “criacionismo  versus evolucionismo”. Ambos os termos sofreram diferentes determinações. No que concerne ao “evolucionismo”, as diferenças foram, sobretudo, referentes ao mecanismo da mudança. Quanto a “criacionismo”, o termo comportou diferentes níveis de comprometimento com a idéia de intervenção divina para a explicação dos fenômenos naturais. O criacionismo contra o qual Darwin claramente se coloca tem um sentido bem técnico: trata-se da visão de que cada espécie seja fruto de um ato especial de criação.  

D:  O processo evolutivo é descrito por Darwin de uma forma bastante elegante e bem-ordenada. Depois de quase 200 anos da publicação da origem das espécies, as pesquisas na área da zoologia e da biologia descobriram elementos não-ordenados nesta cadeia evolutiva? 

ACR: O que entender por “bem-ordenado”? Certamente não há critério absoluto de “ordem” na cadeia evolutiva darwiniana e Darwin chamou a atenção para a relatividade de critérios como “superior” e “inferior”, embora admitisse o critério, de modo não-absoluto, de “especialização”. Por exemplo, como a maior ou menor aptidão de um organismo depende de sua natureza e das condições do ambiente, pode acontecer que uma “simplificação” torne o organismo mais apto, ou que formas sejam preservadas sem modificações, caso as condições do ambiente continuem as mesmas e a natureza do organismo não exiba variações que venham a otimizar mais a sua relação com o seu ambiente. Sua teoria não requer constante “aperfeiçoamento”, nem constante “complexificação” das formas biológicas. 

D: Como devemos lidar com a questão do tempo, da sucessão de eventos, relacionada com a Evolução? Podemos entender o processo evolutivo como não-linear?

ACR: A evolução darwiniana demanda para as mudanças graduais que requer – muito mais do que, a seu tempo, a ciência estaria disposta a conceder. O diagrama pelo qual representa a evolução e a origem das espécies (e que consta em seu livro a Origem das Espécies)  mostra o seu desenvolvimento através de ramificações, sendo que uma grande parte dos ramos extingue-se, em diferentes taxas, e não deixam descendentes. Darwin referia-se a essas relações entre os seres orgânicos de “circuiticas”, não de “lineares”.

D: Na sua opinião, podemos entender o argumento do Design Inteligente como consistente com a tese Darwinista?

ACR: Como o design Inteligente comporta diferentes níveis de tratamento e usualmente apresenta-se como “adversário” da tese darwinista, acho mais interessante responder esclarecendo aspectos dessa tese.A aceitação ou rejeição da teoria darwiniana não dependia, para Darwin (e, penso não depender desde sua estrutura lógico-conceitual e empírica) da aceitação ou rejeição da existência de um Criador, chamemos esse Ser de Inteligência ou não. Darwin sempre admitiu que a Seleção Natural, como om principal agente causal na produção de novas espécies consistia em um acúmulo de variações úteis no “grau e direção certas”. Com toda a sua complexidade, contudo, esse processo continuava sendo “natural”, por causas “naturais”, não demandando a interferência de fatores “sobre-naturais” ou “não-ordinários”.  

D: Hoje em dia é possível, na sua opinião, fazermos filosofia sem levarmos em consideração as descobertas de Darwin? Em que medida e quais teorias filosóficas Darwin “refutou” indiretamente? 

ACR: Em minha opinião, hoje em dia qualquer reflexão séria sobre nossa cultura, em qualquer de suas manifestações, deve levar em consideração o programa explicativo que Darwin estabeleceu para a explicação dos diferentes aspectos da nossa vida e da Natureza. Darwin não se preocupou em “refutar” teorias filosóficas. Em geral, seu impacto sobre a antropologia e a psicologia cognitiva é bastante conhecido. A esses acrescento suas contribuições, por meio de seu próprio exemplo argumentativo e explicativo, que revolucionaram a epistemologia, a análise de “teoria científica” e a própria filosofia da Natureza.  

D: A senhora veria certa plausibilidade em aceitar o naturalismo metodológico como uma tese ou uma posição filosófica?

ACR: Não apenas “certa”, como “muita” plausibilidade. 

D: Haveria ou poderíamos traçar uma relação entre naturalismo e metafísica? Como esta pode ser vista após Darwin?

ACR: “Metafísica” e “naturalismo” podem significar muitas coisas. Para o propósito desta resposta, vou ater-me ao que, em grandes linhas e em sua relação com Darwin, podem significar. “Metafísica” pode designar um corpo de questões que transcendem os limites da experiência, ou que, além disso, ocupam-se de Deus e da alma. Darwin, já no início de 1838, em seus Notebooks, dizia que sua teoria levaria ao estudo de uma nova Metafísica (Notebook B, 228). Em outubro do mesmo ano, dizia que estudar Metafísica (referindo-se ao estudo da mente), como estava sendo feito, era como resolver quebra-cabeças em Astronomia sem a Mecânica; a experiência mostrava que o problema da mente não poderia ser atacado diretamente, mas que a mente é uma função do cérebro (Notebook N, 5). “Naturalismo”, em sentido darwiniano, embora Darwin não tenha explicitamente usado esta expressão para designar uma postura filosófica, pode ser entendido como uma abordagem e explicação dos fenômenos naturais, do homem, da mente e mesmo da “razão” enquanto fenômenos, entidades e propriedades “naturais”, ou seja, que pertencem à Natureza e a nós como seres da Natureza, seres naturais. Isso implica uma determinada visão do que seja “Natureza” e essa, por sua vez, traz um olhar metafísico, no sentido de perguntar pelo “ser” das coisas. Certamente não se trata de uma metafísica da tradição acadêmica. Na entrada 84 do seu Notebook M, em 16 de agosto de 1838, seguindo em comentários sobre a hereditariedade da mente, Darwin diz: “A origem do homem agora provada – Metafísica deve florescer – Aquele que entende o desejo do babuíno faria mais pela metafísica do que Locke”.

 

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