Como um filósofo lê outro filósofo?

Uma questão que me persegue desde o início do mestrado é sobre o modo como os filósofos interpretam outros filósofos e, em último caso, a história da filosofia.

Como, por exemplo, podemos aceitar ou achar plausível que um autor como Heidegger diga que ele interpretou a história da filosofia de um modo original ou que ele tem acesso ao que não está dito no dito dos textos dos filósofos? É claro que podemos avacalhar com suas pretensões, que, visualizadas a partir de outro viés, tornam-se entendiantes, grotescas ou mesmo hilariantes (apesar da originalidade).   Tugendhat, por exemplo, denomina a particularidade metodológica de Heidegger como fetichismo verbal, já que, sempre que um fenômeno é introduzido, o é a partir de uma palavra, de um substantivo. Também Stein mostra, em um belo artigo (Anamorfose e Profundidade), o maneirismo heideggeriano e as ilusões e armadilhas que temos nos textos de Heidegger. Contudo, não é este o ponto que eu quero chegar. 

A questão é tentar entender como um filósofo compreende a filosofia ou o modo de filosofar de outro filósofo. Como as principais teses são elaboradas e re-elaboradas? Por que é diferente lermos um comentador de Kant (Paul Guyer, por exemplo) e um filósofo que interpretou Kant (Strawson ou Heidegger, por exemplo)? São estes os pontos que eu tenho em vista.

Rorty realizou uma discussão parecida no seu Filosofia e o espelho da natureza, a partir do debate entre hermenêutica versus epistemologia e a noção de (in)comensurabilidade de Kuhn. Por “comensurável”, Rorty entende “apto para ser controlado [brought under] por um conjunto de regras, no qual nos dirá como um acordo racional pode ser alcançado sobre o que resolveria o assunto em todos os pontos onde declarações/teses parecem entrar em conflito”. Me parece que a direção que Rorty toma é em tentar buscar este “acordo” não mais a partir de dualismos tradicionais, como subjetivo-objetivo, espírito-natureza e, em último caso, hermenêutica-epistemologia, e dá um enfoque grande às ciências. Contudo, eu tentaria, aqui, ser mais radical. E, para isso, trago dois exemplos:

(1) Logo após a alegoria da pomba, Kant faz a seguinte observação sobre Platão: 

Foi precisamente assim que Platão abandonou o mundos dos sentidos, porque esse mundo opunha ao entendimento limites tão estreitos e, nas asas das ideias, abalançou-se no espaço vazio do entendimento puro. Não reparou que os seus esforços não logravam abrir caminho, porque não tinha um ponto de apoio, como que um suporte, em que se pudesse firmar e aplicar as suas forças para mover o entendimento (KrV, A5B9). 

O que Kant faz aqui? Não seria criticar Platão a partir ou à luz de sua filosofia crítico-transcendental?  

(2) O seguinte exemplo seria sobre a interpretação que Tugendhat faz de Heidegger, o que dá uma visão mais nítida do que estou questionando. Veja-se o método de interpretação de Tugendhat:

Somente podemos entender um autor quando, por uma parte, nos comprometemos verdadeiramente com ele, mas, por outra, mantemos frente a ele e, em cada passo, a liberdade necessária para poder perguntar pela verdade do que diz.  Com isto, quero dizer, perguntar: primeiro: que é o quer dizer em verdade?; e segundo: é verdadeiro o que quer dizer? E para isso me parece que também aqui é indispensável um método de interpretação analítico-linguístico (Autoconsciencia y autoderminación, p. 234). 

Assim, Tugendhat vai criticar Heidegger a partir de cada enunciado que ele faz, pois somente um enunciado, conforme sua filosofia analítica da linguagem, tem uma pretensão-de-verdade e, consequentemente, tem um significado. 

Porém, a questão começa a ficar difícil, quando percebemos que esta análise não dá conta dos fenômenos trazidos por Heidegger. Exemplo: nOs Conceitos Fundamentais da Metafísica: mundo, finitude e solidão, toda a primeira parte é realizada a partir da pergunta pela tonalidade afetiva fundamental do filosofar. Mesmo em Ser e Tempo, há a noção de pergunta pelo ser (Seinsfrage). O que Tugendhat interpretaria disso? De uma maneira simplificada, poderíamos dizer que a variante entre uma pergunta e uma afirmação é apenas o seu modo sentencial; o conteúdo proposicional, no entanto, é o mesmo. Nesse sentido, poderia-se dizer, superficialmente, que todos os enunciados das obras de Heidegger tornam-se enunciados assertóricos (mas não de uma semântica natural, é claro). Por isso, poderíamos dizer: “ok, mas a pergunta, no sentido fenomenológico, tem outro sentido do que ser apenas uma afirmação; implica outra coisa, não é apenas uma asserção com ‘sinal’ trocado”. 

Não quero criar aqui uma espécie de solipsismo teórico-filosófico, no qual cada filósofo constrói um paradigma filosófico e não consegue enxergar nada além da sua própria filosofia. Contudo, parece que filosofar de determinado modo implica já em entender a história da filosofia a partir desse modo. Ao mesmo tempo, refutar uma posição filosófica parece ser possível somente mostrando a impossibilidade ou a inviabilidade de filosofar deste modo, ou seja, a partir de uma crítica interna á própria posição.

6 comentários

  1. Baita texto, Farroupilha.
    Uma pergunta de fundo: quando tu cruza a linha entre ser um comentador e um intérprete? Quero dizer, é possível comentar sem interpretar.
    Mesmo sobre o Guyer, tu sempre pode sustentar que ele re-significou Kant para toda uma geração de leitores, especialmente no mundo anglo-saxão. Sem o Guyer, boa parte da interpretação do Rawls é impossível…

    mas muito bom este texto, Fanton.

  2. “Quero dizer, é possível comentar sem interpretar.” é uma pergunta, não uma afirmação. Pessoalmente, eu acho que NÃO. :)

  3. Caro Marquito, adorei o texto.
    Principalmente a conclusão, ou seja, “(…) filosofar de determinado modo implica já em entender a história da filosofia a partir desse modo”. Essa frase mostra o quanto interpretamos uma tradição desde nossa própria situação hermenêutica.
    Além disso, “(…) refutar uma posição filosófica parece ser possível somente mostrando a impossibilidade ou a inviabilidade de filosofar deste modo, ou seja, a partir de uma crítica interna á própria posição”. Muito bom! Acredito que refutar (crítica negativa ou positiva) somente é possível a partir de “dentro” (adotando uma perspectiva interna) e nunca de “fora” (crítica externa). Se bem que, atualmente, com Agamben, a complexidade, a teoria sistêmica, a biotecnologia, etc. essa distinção entre dentro/fora, inclusão/exclusão possa ser questionada ou posta sob novas bases.
    Parabéns e boons estudos para a dissertação!
    Fabrício Zanin.

  4. Fabs,
    acho que tu tocou na pergunta retórica do meu post. Também concordo contigo, mas o que eu queria dizer é outra coisa. Talvez, se eu tivesse colocado aspas em comentador, teria tido o efeito que eu desejava, ao invés de deixar em itálico, o que enfatiza o significado. Vendo agora, parece que eu quis dizer que Guyer não é filósofo, mas um comentador, ao ser comparado com Heidegger ou Strawson. Não é isso, em absoluto, o que eu quis dizer.
    A pergunta se dirige a filósofos que se situam em outro paradigma filosófico do que o daquele filósofo que eles estão interpretando. Nesse sentido, a pergunta dirige-se à interpretação entre diferentes paradigmas.
    Agora, se tu me perguntares, até que ponto alguém se situa no mesmo paradigma do autor ou como alguém constrói um próprio, isso levaria para outras discussões. .

  5. Marcos, acho que vc tá colocando não apenas um dos problemas, a meu ver, mais instigantes da filosofia, a saber, o da interlocução entre diferentes filosofias e interpretações de filósofos e textos filosóficos, mas tb o da própria compreensão, na medida em que podemos até suspeitar da possibilidade de vir a entender o pensamento do outro, colocando em xeque a possibilidade da compreensão e por tabela do conhecimento. Como não acreditamos muito na intenção do autor (do filósofo) em questão e não ousamos mais professar tanta fé na pretensão de objetividade, esgotamento do pensamento sobre o real, totalidade etc, parece que estamos num beco sem saída, um cul-de-sac paradigmático. Sempre tem algo com cheiro de ceticismo nesse tipo de problema. A meu ver, a minha suspeita é que, muitas vezes, parece até que nos deparamos com um problema religioso, tipo “se vc entendeu mesmo Hegel, vc tem de se tornar um hegeliano militante”. Esta foi a grande desconfiança de Nietzsche com relação a todos os grandes filósofos, seus preconceitos e seu entusiasmo patológico com as conquistas da verdade. O problema da modernidade decadente, segundo N, era justamente de transpor o “enthusiasm” que Locke identificara entre os teístas para os círculos culturais de filósofos, cientistas e artistas de um mundo supostamente esclarecido. O que iniciara com um espanto cosmológico foi se tornando uma vontade de verdade, um efeito sintomático de vontade de poder. O perspectivismo sinaliza apenas isso: que cada filósofo fala dentro de seus paradigmas, jogos de linguagem e de suas perspectivas sem nunca realmente se dispor a fazer mais concessões do que o necessário para assegurar, de certa forma, a última palavra e dar a impressão de que nos oferece o melhor argumento num debate filosófico. O autismo, os solipsismos e os parricídios filosóficos ao longo de mais de 2500 anos parecem confirmar isso –como já suspeitara Rousseau com relação ao suposto progresso moral (e levou o prêmio da academia de Dijon!). A suspeita nietzschiana é tb o que complica toda celebração naturalista –“the survival of the fittest” não torna ninguém melhor ou pior, nem a filosofia da história nem a evolução histórico-social (à la Habermas) parecem capazes de nos redimir do niilismo inerente a todos os processos civilizatórios. Podemos pensar que Benjamin (e Heidegger, num certo sentido) tb compartilhavam desse tipo de perspectivismo e hermenêutica de suspeita. Eu acho, aliás, que essa skepsis é o que engendra e motiva o próprio filosofar, não apenas entre os malditos e bandidos da nossa história da filosofia ocidental, mas tb entre os construtores de castelos e grandes sistemas do pensamento. Como a skepsis pode ser tomada de forma construtiva, metodológica e heurística (Descartes e os filósofos analíticos seriam os grandes exemplos, neste caso, como sugeriu Rorty) temos a impressão de que estamos efetivamente conquistando o espaço –realidade, ontologia, verdade e por aí vai– somente para nos descobrir vazios, sós e fúteis nessas infindáveis odisséias especulativas. Mesmo assim, parece que vale a pena continuar acreditando que as coisas fazem sentido e que vamos chegar em algum lugar (nem que seja no próximo barzinho—assim pensava o Rorty). Por outro lado, talvez não dependa apenas de “nós” –ou de quem avalia, julga, pensa e valora: a opacidade do ser é o que, a meu ver, nos leva sempre de volta à nossa finita condição de intérpretes de nossa subjetividade, intersubjetividade e objetividade. Assim, eu tenderia a concordar em gênero e número com as suas colocações sobre Tugendhat nesse debate, pois afinal nem todo mundo se interessa em jogar tal e tal jogo, incluindo semânticas e análises da linguagem. O problema seria agora de evitarmos um outro extremo, o de uma postura mais ou menos pós-moderna, se é que isso ainda faz sentido –mas claro que faz, se não o fizesse não haveria tanto depto de filosofia continental que vai precisamente nessa direção esteticista. Quando ouvimos o Stein falar de anamorfose num rincão heideggeriano em Santa Maria há mais de 10 anos foi quase como uma revelação –bastante crível, por sinal, parecia que caíam as escamas de nossos olhos, tinha até um discípulo do Rorty, o Glenn Erickson, que fazia a ponte pós-moderna, parecia que fechava tudo em favor da hermenêutica, mas isso tb não passava de um blefe, como num jogo de poker. E este, a meu ver, é o problema de reduzir tudo a uma questão existencial, numa perspectiva estética da existência filosófica, como um artista da fome kafkiano que filosofa porque não encontrou comida que o agrade. Acho que o choque da realidade (falta de dinheiro, tanta gente morrendo de fome e sofrendo, tantas contradições nesse vasto mundo) é o que, em termos bem pragmáticos, nos impede de privilegiarmos um lado mais do que o outro e acreditarmos que superamos dicotomias, quimeras, preconceitos e vícios de nossos jogos de linguagem filosóficos. Enfim, essa conversa ainda vai longe –valeu o post! Cheers!

  6. […] minha comunicação parte da minha preocupação, que eu expus neste post aqui, cuja pergunta fundamental é: como um filósofo lê outro […]

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