Sobre fatos morais no carnaval 2009

Em um post não muito longínquo, o Fabrício perguntou a mim e ao Filipe se há fatos morais. Pois bem, não irei construir uma resposta muito rebuscada, já que tenho parcos conhecimentos em filosofia prática, por um lado, e, por outro, porque o bundalelê aqui em Farroupilha dominou geral – como vocês podem ver nos programas de tv.

Vamos lá. O Fabrício quer saber se há fatos morais. Primeiro, tenho que explicar o que entendi sobre esta pergunta. Vou tentar seguir o caminho mais óbvio, isto é, compreendê-la de acordo com o quê “ela dá a entender normalmente”. Então, reformularia a pergunta “há fatos morais?” , de um modo mais claro, do seguinte modo: Existem, dentre aquilo que entendemos por “fatos”, um tipo específico de fatos, que podemos denominar “fatos morais”? A tarefa que me é exigida, a partir disso, é tentar esclarecer o que entendemos por “existência”, “fato”, “fato moral” e “moral”.  

Por fato, em um primeiro momento, podemos entender um estado-de-coisas atual, ou seja, um estado-de-coisas possível verificado na realidade. Assim, fato é uma entidade, um dado objetivo no mundo (extralingüístico e extramental), que serve para tornar uma proposição verdadeira (ele tem a função de um truth-maker) e, ainda, serve como referência para frases declarativas. Exemplo: O fato do Fabrício viajar para Salvador dá um parâmetro semântico para verificarmos que a entidade Fabrício possui a propriedade de viajar para Salvador (<Fabrício, viajar para Salvador>). 

Irei ignorar completamente a discussão das teorias sobre existência, pois isto é um blog e, ainda, porque o modo como reformulei a pergunta do Fabrício implica já uma orientação a partir de Russel e Carnap: “há fatos morais?” é uma questão existencial interna, já que pergunta pela existênciade fatos morais no interior de um âmbito de fatos. Existência, então, seria um operador existencial: “entre todos os fatos, há alguns que são fatos morais”. Vocês podem ler algo de muito interessante aqui e aqui

Temos, agora, que nos confrontar com o seguinte: o fato do Fabrício viajar para Salvador é um fato moral? Mas o que este adjetivo implica? Implica que determinados fatos possuem a propriedade de ser moral? O que entendemos por moral aqui? Vamos admitir a concepção de Tugendhat, que extrai da etnologia: “moral é um sistema de obrigações/exigências recíprocas, justificadas reciprocamente”. Assim, uma pessoa é moralmente má, quando transgride as normas estabelecidas pela sociedade, havendo uma pressão social  diante da ação, a partir de sentimentos como indignição e culpa.  Contudo, uma pessoa também pode ser moralmente boa, quando comporta-se da maneira como é exigido reciprocamente entre os membros da sociedade moral. Nesse sentido, um dos critérios para identificarmos fatos morais seria o de, em tais fatos, estarem presentes indivíduos que participem da sociedade moral. 

Porém, parece que o nosso exemplo ainda não se adequa, de maneira correta, ao que estamos querendo questionar, uma vez que o fato de o Fabrício viajar para Salvador não causa maiores problemas, nem em um sentido mau quanto bom. Parece que ainda precisamos perguntar mais: “Quando ele viajou?”, “Por quê?”. Como estamos curiosos para saber disso, trago uma prova visual:

Fabs

Vâmu prá Illinóis cumigu, cambada!!!

Diante disso, o fato passa a receber contornos mais precisos: o Fabrício viajou, clandestinamente, para Salvador no Carnaval. Agora, há uma modificação radical no modo como encaramos o fato. Apesar disso, por amor à clareza, precisamos dizer que: (1) clandestinamente significa “sem autorização da es-posa e gastando as economias do primeiro carro da família”; e (2) no Carnaval significa “evento determinado temporal e espacialmente, no qual práticas como pornochanchada, bundalelê, histerias generalizadas, atitudes inconscientes são, além de estimuladas, justificadas reciprocamente”. Ou seja, parece que o complemento proposicional  “…mas era carnaval” torna-se um princípio (genuinamente brasileiro) de suspensão para a realização de determinadas ações e práticas de cunho XXX, que, normalmente, seriam qualificadas como moralmente boas ou moralmente más, desde que suas consequências e justificações sejam dadas ou esquecidas de maneira responsável após o evento.

Um outro exemplo que uma amiga minha me disse esses dias: “o milharal do meu tio pegou fogo do meu lado… mas era época de carnaval” realiza uma suspensão do sistema moral que abarcaria o fato do milharal do tio pegar fogo ao lado da sobrinha, mesmo com a frase seguinte: “este é o Joca Júnior, que vai completar, nesse domingo, 1 ano de idade”. Do mesmo modo, o fato do Fabrício viajar, clandestinamente, para Salvador no Carnaval torna-se moralmente irrelevante, isto é, não pode ser considerado um fato moral

Contudo, a questão não parece resolvida. Por quê? (1) não esclarecemos a relação entre proposição e fatos, que implicaria, ainda, um esclarecimento acerca da teoria da verdade que estamos utilizando e, ainda, o modo como a moral “determina” ou “engloba” um conjunto de fatos (isso faz sentido?); (2) os critérios para identificarmos um “fato moral” são demasiado amplos, já que qualquer fato envolvendo um ser humano seria qualificado de fato moral (bom ou ruim); (3) Como seria a relação entre no Carnaval  e fatos morais? A complementação proposicional …mas era Carnaval serve até que ponto, isto é, seve para qualquer localização geográfica, período temporal e quaisquer atitudes? 

Para ser rápido na conclusão, diria o seguinte: Quanto ao (1): pressupor que existem fatos no mundo é errôneo. O mundo espaço-temporal consiste apenas de objetos concretos. Falar em “fato”, desse modo, implica admitir dois estados-de-coisas (o asserido e o real), implicando, por conseguinte, admitirmos uma teoria da adequação para a concepção de verdade.  Outro modo de vermos isso – e aqui é que eu veria um caminho plausível para discutirmos a existência de fatos morais – é explicarmos que “fato” é um “pensamento verdadeiro” (Frege) ou, então, um “enunciado verdadeiro” (Tugendhat). Aqui, a investigação tomaria o seguinte rumo: precisamos saber quais são as condições de verdade para enunciados práticos ou enunciados que tenham uma implicação moral. Que tipo de enunciados seriam esses? Assim, diante de um enunciado prático verdadeiro, teríamos um fato moral; A questão (2) estaria, de qualquer modo, junto com a (1), uma vez que precisaríamos de critérios para identificar tais enunciados. Por fim, quanto à questão (3), teríamos que entender quais as modificações que um complemento desse tipo (no Carnaval) altera as condições de verdade dos enunciados ou se há realmente verdade neste tipo de enunciado.

3 comentários

  1. Eu comentaria longamente esse post.
    Mas é carnaval…

  2. Pô, Gisele! Comenta longamente aí, vai?
    :)

  3. Panorama of Endtimes · · Responder

    Perfeito. Tiraram uma foto da alma do Fabs e postaram na internet. Meus parabéns.

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