“É importante entender a evolução como processo, como diacronia”. Entrevista com José Roberto Goldim

O Professor José Roberto Goldim é uma das principais figuras em Bioética no Brasil, talvez na américa Latina. Junto com o Professor Clotet, ele faz parte de um grupo de professores que ajudou a introduzir o tema no Brasil, e tem contribuido de forma decisiva para o debate destas questões. Além de ser uma das principais figuras na discussão de bioética, vale sugerir o sáite do Goldim, que é o maior portal sobre o assunto no Brasil, e um dos maiores e bem organizados que eu já vi. O professor Goldim é biólogo de formação, atualmente trabalhando como Pesquisador Responsável pelo Laboratório de Pesquisa em Bioética e Ética na Ciência.

O professor foi gentil o suficiente para aceitar responder algumas perguntas sobre Darwin e Evolucionismo, isso durante o período de férias aí no Brasil. Então fica aqui o agradecimento ao Goldim, que conheço desde 2004, das minhas épocas de estudante de direito e sempre foi extremamente paciente com as minhas perguntas impertinentes. Agora, ele nos dá alguns insights sobre questões pertinentes, desde o ponto de vista de três estudantes de filosofia, sobre a questão da evolução.

– Evolução enquanto paradigma:

1) Depois de 200 anos Darwin ainda apresenta um paradigma obrigatório para a Biologia, ou assim como Marx e Freud, ele foi falsificado pelos seus sucessores? Como as novas descobertas, como o DNA e a epigenética, influenciam e revisionam a teoria evolucionista?

Goldim: Darwin é uma referência obrigatória para a Biologia. É óbvio que a sua proposta foi mal interpretada desde o primeiro momento, mas o importante é que foi uma  ruptura teórica que permitiu um avanço notável. O código genético, o DNA e as novas perspectivas de entendimento da sua função, a epigênese e a ação ambiental são questões que atualizaram em muito a proposta inicial de Darwin, mas a base perneceu, ou seja, a inclusão do tempo como variável fundamental do processo biológico permanece inalterada

2) Hume escreveu que não somos de arame rígido, Darwin parece levar esta consideração até as últimas consequências na idéia de adaptação e evolução, não apenas com relação ao nosso filo, mas com relação ao todo da natureza. Qual seria, então, o limite do que Darwin nos oferece? No fim, esta pergunta é relacionada com o que perguntei antes sobre a falsificação da teoria Darwinista. Da forma como foi elaborada, a teoria da adaptabilidade e evolução das espécies é falsificável?

Goldim: A proposta teórica de Darwin, que não conhecia nada sobre o processo genético, é altamente falsificável. A leitura desatenta de sua obra permitiu um pastiche desd o início. Basta ver a questão do macaco como nosso ancestral! Quanto as possibilidades da adaptação e da evolução elas são parte do processo que hoje buscamos entender de como tudo de fato deve ter acontecido e está acontecendo.

3) A tese naturalista pode ser considerada uma tese metafísica, já que não pode ser comprovada empiricamente? Qual a relação desta objeção com a criação do naturalismo metodológico?

Goldim: A tese naturalista é comprovável. Existem evidências irrefutáveis a este respeito. O difícil é enquadrar todas as evidências em um modelo coerente. A questão do tempo como variável e não como uma constante é o mais intrigante. A simples noção de cronologia evolutiva não explica o processo.

Darwinismo e política:

4) O quanto a idéia de Singer e de Dawkins, de um Darwinismo de esquerda e engajado te parece interessante?

Goldim: As vezes me parece oportunismo.

5) A idéia de Darwinismo Social – como em Spencer, por exemplo -é consistente? Te parece interessante a transposição dos estudos de Darwin da perspectiva biológica para a perspectiva social? É extremamente difícil e delicado. Basta ver o que foi feito com a noção de eugenia.

Goldim: A transposição de um modelo biológico para a área social é sempre muito arriscada, pois pode ser um apelo ao determinismo biológico sobre a possibilidade humana.

6) Como fica a questão do altruísmo na perspectiva evolucionismo? Como explicar a opção pelo altruísmo, e pela fairness, desde a perspectiva naturalista? Já que o altruísmo pode ser considerado contrário aos interesses de auto-preservação?

Goldim: O altruísmo é extremamente evolutivo. É a preservação do processo como um todo. A perspectiva equivocada de comparar o mais forte como o mais adapatado parece ser a origem desta confusão.

7) Inversamente, como explicar os comportamentos auto-destrutivos da nossa espécie desde a perspectiva evolucionista?

Goldim: Os comportamentos auto-destrutivos não são encontrados apenas na nossa espécie. Várias outras espécies tem este tipo de manifestação. O altruísmo e a auto-destruição são apenas facetas, são variantes comportamentais, são maneiras de lidar de forma adaptativa com a realidade, lembrando sempre que esta relação é por definição complexa, multifatorial e envolvendo aincronias e diacronias múltiplas.

Darwinismo e Religião:

8 ) Ainda sobre Dawkins, é possível pensar Darwin desde uma perspectiva deísta? Devemos distinguir radicalmente entre a teoria da evolução e adaptação das espécies e a possibilidade de um Criador?

Goldim: Esta é uma das questões mais delicadas. A possibilidade de um Criador não obrigatoriamente remete para uma idéia de início de um projeto com meio e fim previstos. A oposição entre criacionismo e evolucionismo nada tem a ver com a idéia de Darwin, mas sim com um uso inadequado de sua teoria lida de forma superficial e tendenciosa. A idéia de evolução, de ter o tempo como variável deve ultrapassar a noção de simples cronologia. Não pode ser simplifica em uma linha de tempo onde os seres foram evoluindo. Onde alguns foram eliminados por serem não adapatados e outros permaneceram por terem tido esta característica. A relação entre tempo e adaptabilidade é bem maior. É importante entender evolução como um processo, como diacronia.

Darwinismo na arena multi-disciplinar:

9) Em que medida a metodologia utilizada por Darwin revolucionou a metodologia então utilizada na biologia e, ainda, em outras áreas do conhecimento?

Goldim: A questão metodológica de Darwin talvez tenha sido a sua maior herança. A possibilidade de utilizar de forma simultânea diferentes saberes, não mais como um simples exercício de ecletismo, mas como uma exploração ativa de pontos de contato, de interfaces possíveis. A união de saberes de forma criativa, porém respeitando a sua origem, competência e limitação foi uma das grandes contribuições de Darwin.A herança científica de sua família (seu avô), o rigor no uso do método clínico no fazer diagnósticos (seu pai), o treinamento em hermenêutica (formação teológica), a exposição ao método de coleta de amostras diretamente na natureza (Geologia/Zoologia/Botânica), a possibilidade de integração entre áreas aparentemente desconexas (Teoria da deriva continental), é que fazem de Darwin um grande inovador. As obras seguintes demonstram muito bem esta proposta. Quando Darwin estudou as emoções humanas ele introduziu uma novidade metodológica ao utilizar pela primeira vez o uso da fotografia como recursos científico. A incorporação de novas tecnologias, do reconhecimnto das interfaces possíveis, da reflexão sobre o próprio conhecimento, é que fez de Dawin uma figura tão notável na hirtória da humanidade.

Fiquem atentos, que vamos ter mais entrevistas por aqui  frequentemente.

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