Tugendhat sobre Frege

Segue abaixo a resenha-resumão do artigo de Tugendhat sobre Frege, O significado da expressão “Bedeutung” de Frege.  Ela fez parte da avaliação simples para a disciplina do prof. Roberto Pich (Filosofia Analítica no séc. XX).  No início, como todo obsessivo, pretendia fazer algo a mais: confrontar as interpretações de Tugendhat com a de Dummett e construir um debate, no sentido de ver as vantagens e desvantagens. O interessante também seria tentar perceber a importância que Frege possui para a filosofia de Tugendhat em determinados pontos (claro, sem transformar essa tarefa no apenas ver “conexões”, mas, sim, na possibilidade de levar a interpretação para um nível de argumentação crítica mais avançado). Mas, enfim, como fiquei completamente absorvido pelo tema da liberdade e vontade livre durante o semestre, preferi deixar isso para uma ocasião futura. 

 

O artigo de Tugendhat, O significado da expressão “Bedeutung” de Frege, é resultado de uma conferência apresentada em Oxford, no outono de 1969, em que o autor critica as diversas traduções inglesas deste termo fregeano e propõe uma nova. No prólogo de seu livro Aufsätze, podemos encontrar o núcleo do seu questionamento nesta conferência: “este artigo não trata da verdade, mas sim da relevância da verdade para a compreensão do sentido e da significância” (17). Um tanto quanto ironicamente, Tugendhat conta-nos, posteriormente, que, graças às discussões com Michel Dummett (DUMMETT, Frege: philosophy of language. 1973. p. 199-204), ele tornou-se conhecido na Inglaterra como o “autor de um artigo sobre Frege” (17).

Acredito que as principais teses deste artigo são as seguintes:

(1) as traduções inglesas de Bedeutung (“denotação”, “nominatum”, “referência”), além de já anteciparem um tipo de interpretação deste termo, induzem o leitor ao erro de que, para Frege, todo Bedeutung é o objeto designado por ele;

(2) o próprio Frege, no modo de expor sua teoria, provocou confusões, tendo em vista que ficou atrelado à mesma tradição que já havia superado;

(3) o modo correto de entender o fenômeno que Bedeutung quer exprimir é substituí-lo pelo conceito potencial valor de verdade (PVV);

(4) somente com este último conceito, pode-se afirmar a universalidade do princípio de intercambialidade (principle of interchangeability [Carnap]) (PI). [Por PI, entende-se: “quando uma oração substituímos uma parte por outra com a mesma significância, mas com diferente sentido, o sentido pode mudar, mas não a significância da oração” (148).]

A explicação e verificação de tais teses é realizada, ao longo do artigo, através da análise das teorias da significância (Bedeutung) das orações, dos predicados e das orações complexas. Cada uma delas é um ponto-chave para Tugendhat testar e tentar comprovar o alcance de seu novo conceito.

Qual o problema, então, de traduzir Bedeutung por “referência”? Veja-se, por exemplo, a teoria da significância (Bedeutung) das orações. Se a explicássemos a partir de “referência”, teríamos, de certo modo, um juízo prévio sobre as expressões em geral: todas elas referem-se a objetos. No entanto, salienta Tugendhat, também predicados e orações possuem “referência”, mas, no caso, não “se referem” a objetos. Por isso, Tugendhat exige um novo conceito, que abarque todas as suas possibilidades de aplicação (143-6).

Segundo o seu uso na língua alemã, diz Tugendhat, Bedeutung tem o sentido tanto de significado (Dummett, assim, traduz corretamente por meaning), quanto o de importância, de significância (significance). Como Frege estava tentando introduzir um conceito novo, ele, supostamente, deveria estar mais interessado no segundo sentido, já que não carrega as associações dos contextos semânticos correntes. Nesse sentido, é o último o termo, significância, utilizado por Tugendhat como tradução, já que ele ainda nos livra da associação livre das teorias semânticas atuais (144).

Frege, no entanto, não deixou claro esta sua concepção, devido ao modo como introduziu a expressão significância. Primeiro, ele introduz o, assim chamado por Carnap, princípio da intercambialidade (PI), para, com isso, explicar a significância das orações. Portanto, Frege parte dos nomes próprios para as orações.

Já Tugendhat diz que esta dificuldade, de não confundirmos a significância de nomes próprios com a de orações e predicados, pode ser eliminada ao invertermos o caminho explicativo de Frege. Devemos ir das orações para as palavras, isto é, atribuímos ao princípio de intercambialidade a função de apresentar a significância das orações e, com isso, explicamos a significância dos nomes. Diz Tugendhat:

Partimos, então, do valor de verdade das orações, o chamamos sua significância, e estabelecemos que a característica dos nomes, que permanece inalterada quando os alteramos em orações pelos demais iguais, sem que se cambie seu valor de verdade, deve se chamar significância dos nomes (149).

Esta explicação, acredita Tugendhat, é esclarecedora a respeito da significância dos nomes e das orações, e não borra suas diferenças (149-50).

A razão pela qual Frege toma este modo de explicação é, segundo Tugendhat, sua influência da teoria semântica tradicional, no qual tem como exemplo modelo de uma expressão completa o nome. Esta observação torna-se relevante, pois o mesmo Frege já havia ultrapassado esta concepção ao estabelecer o princípio do contexto nos Grundagen: “apenas no contexto de uma oração as palavras significam algo” (§62).

Assim, e isto Tugendhat toma como incontornável, a unidade semântica significativa primária é a oração. E é a partir dela que temos de estabelecer o nexo funcional entre parte e todo. Tugendhat explica:

Em tal caso – por exemplo, o de uma ferramenta, uma máquina ou um organismo – a parte somente pode ser definida por sua relação com a função do todo e não ao contrário. Como a relação da parte com o todo é funcional, a referência ao todo na definição da parte não resulta uma assimilação das propriedades da parte às propriedades do todo. Por outro lado, todo intento de definir o todo por meio de suas partes resulta uma apresentação não funcional do todo que iguala suas características às características da parte ou o define como pura acumulação de suas partes ou como ambas coisas (p. 151).

 Dadas as insatisfações que tais críticas provocaram, Tugendhat irá propor, então, que “significância” deva ser entendida (ou, se quisermos, substituída) como (por) potencial valor de verdade (PVV), um novo termo técnico introduzido do seguinte modo:

Duas expressões  têm, então, o mesmo potencial de valor de verdade quando – em tanto que cada uma é ampliada a uma oração por meio da mesma expressão – ambas orações têm o mesmo valor de verdade (148).

 Aplicado à teoria da significância das orações, temos que: (a) dois nomes têm o mesmo PVV, quando, ao serem ampliados a orações, por meio da mesma expressão, o valor de verdade de ambas orações criadas seja o mesmo. Já duas orações, como não precisam ser ampliadas, têm o mesmo PVV quando têm o mesmo valor de verdade (147-8). As vantagens desse seu novo conceito, acredita Tugendhat, são os seguintes: (1) temos uma definição geral e unitária de Bedeutung; (2) este novo conceito não nos induz a pensar, diretamente, na referência a um objeto para as demais expressões além do nome; (3) valoriza, explicitamente, o “novo” em Frege, isto é, o princípio do contexto.

A confirmação de sua proposta, Tugendhat vai buscar também na teoria dos predicados. O que devemos evitar aqui? Pensar que conceitos (ou termos conceituais) são objetos, ou seja, não devemos pensar, por analogia, que a relação entre objeto e nome é a mesma que a de conceito e predicado. A partir do manuscrito de Frege, Ausführungen über Sinn und Bedeutung, Tugendhat esclarece que um termo conceitual indica sob que condições dois predicados tem a mesma significância. E ter as mesmas condições para tanto significa, na sua versão, que ambos predicados têm o mesmo PVV (152-4).

Com isso, Tugendhat extrai o que para ele é o revolucionário em Frege:

todas estas expressões têm, fora de um sentido, uma significância com relação à verdade e à falsidade:as orações são significativas em tanto que são verdadeiras ou falsas; os predicados são significativos em tanto que podem se aplicar a alguns objetos e a outros não; os nomes têm uma significância em tanto que designam algo ao qual se podem afirmar ou negar predicados (154).

 A última parte de seu artigo é dedicada à teoria fregeana das orações compostas e da “significância indireta”, visualizada sob o conceito de PVV. A atenção de Tugendhat, neste momento, volta-se para a verificação da universalidade do PI.

Aqui, diz Tugendhat, devemos modificar este princípio para que ele também possa servir às orações compostas e, com isso, garantirmos sua universalidade. Primeiro, devemos notar que a significância de uma oração não pode ser definida pela sua contribuição à significância da oração composta, como no caso de um nome a uma oração, pois sua significância já está definida como valor de verdade. A significância das orações compostas, então, deve ser tomada como a função de verdade das orações simples, dependendo da significância usual das orações parciais. Porém, no caso de orações nominalizadas, ocorre algo diferente: a significância das orações compostas depende da significância indireta de tais orações (154-6).

É neste último caso que Tugendhat diz ganhar vantagem sobre Frege. A significância de uma oração não diz respeito apenas ao valor de verdade. Quando a nominalizamos (“que p”), e, com isso, retiramos a sua “força assertórica”, ela continuará possuindo PVV, mas que, não sendo um valor de verdade, é um “aporte ao valor de verdade de orações em que pode entrar como parte” (156-7). O PI é reformulado novamente, agora para mostrar como ele é compatível com as orações compostas: “temos o enunciado de que duas orações nominalizadas têm exatamente o mesmo potencial de valor de verdade quando – em tanto que cada uma é completada com uma e a mesma expressão para constituir uma oração – ambas orações têm o mesmo valor de verdade” (156).

E Tugendhat acredita que está de acordo com Frege, pois o caso de “significância indireta” ocorre quando uma oração é tomada como um nome e, por isso, necessita de um PVV predicativo, que evidencia um valor de verdade. A análise das orações compostas comprova, mais uma vez, como a significância em Frege é funcional (157).

Por fim, Tugendhat afirma que o PI é válido universalmente devido à preeminência das orações do tipo sujeito-predicado no nosso discurso assertórico. E isto significa: como orações sujeito-predicado são tomadas como uma totalidade, logo que temos uma unidade maior que a delas, a significância destas orações é definida como a função das orações simples, ou seja, é tomada como orações assertóricas de sujeito-predicado, transformando as orações simples em nomes (157-8).

Bibliografia para pesquisa:
TUGENDHAT. Lições introdutórias à filosofia analítica da linguagem. (a lição que possui um apêndice sobre conceitos);
TUGENDHAT. O significado da expressão “Bedeutung” de Frege (1969), publicado em TUGENDHAT, E. Ser-verdad-acción. Barcelona: Gedisa, 1998. pp. 143-164. [ou: Aufsätze, Suhrkamp, 1992].
DUMMETT. Frege: philosophy of language. 1973. p. 199-204.
DUMMETT. Origins of analytical philosophy. 1993.
GABRIEL, G. “Fregean Connection: Bedeutung, Value and Truth-Value”. The Philosophical Quarterly, Vol. 34, No. 136, Special Issue: Frege (Jul., 1984).
GLOCK, H.-J. Review of Ursprunge der Analytischen Philosophie. by Michael Dummett. In: Mind, New Series, Vol. 98, No. 392 (Oct., 1989), pp. 646-649.
ENGEL, P. Review of Origins of Analytical Philosophy by Michael Dummett. The Philosophical Quarterly, Vol. 45, No. 179 (Apr., 1995), pp. 268-271.

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