Existe justificação sem razoabilidade?

No nosso debate aqui no blog, até agora o único que foi para frente, começamos uma discussão sobre liberdade-justificação-razoabilidade. Um dos pontos principais da discussão foi uma argumentação sobre o que, exatamente, significa ser razoável. Razoável é o mesmo que racional? Faz sentido falar nestes termos? Ou essa é uma discussão racionalista, que deve ser tratada como fragmento de um discurso do século dezenove, que não diz mais nada para a gente?

Eu gostaria, primeiro, de destacar alguns pontos de possível aproximação de como entender o conceito de razoabilidade:

a) Emotivismo: Razoável é aquilo que causa ou não causa reações do tipo “OBA!” ou “BUUU!”. Digamos, “matar bebês jogando eles contra a parede é certo”. Porquê? “porquê eu não vejo nada de errado nisso”. Somos capazes de aceitar esta justificativa como razoável? Para o emotivista, não é nem uma questão de razão. Não é razoável porque respondemos à justificativa do ato (e ao ato) com uma vaia, ou com um “nem a pau”. Neste caso, razoável é uma questão de gut-feeling, “Como assim tu não vê nada de errado nisso?! é um bebê, poxa vida!”. Podemos argumentar que todos os níveis de análise que estou colocando aqui não são nem verdadeiros, nem falsos. São sentimentos. É difícil argumentar que nossa relação com a moralidade não começa neste nível, se todos os nossos julgamentos sobre razoabilidade ou justificação permanecem neste nível é outra discussão. O maior expoente desta corrente é Michael Smith, cujo livro “The Moral Problem”, eu gostaria de recomendar EFUSIVAMENTE. John Mackie também vai para estes lados com a sua error-theory. Eu diria que ambos autores são utilitaristas, pelo menos EMINENTEMENTE utilitaristas.

b) Cognitivismo: “Eu sei que matar bebês jogando eles contra a parede é errado” Como tu sabes? “Porquê bebês são indivíduos complexos em potencial” ou “Porquê bebês estão inseridos na cultura e demandam proteção” ou “Porquê tá na lei” ou etc. Coloquei várias alternativas aqui. No caso do cognitivismo, o razoável é aquilo que de alguma forma a gente sabe sobre a moral, ou sobre a justificação. O que tu sabe? Bem, daí a coisa entra pro lado da epistemologia moral. A premissa básica do Cognitivismo é que existem coisas verdadeiras e falsas sobre a moral – o que é verdadeiro ou falso? Bom, depende para qual cognitivista tu perguntas. De qualquer forma, o cognitivista via de regra vai apelar para um standard de razoabilidade que valida o seu argumento “potencialidade”-“cultura”-“lei”, “que seja”. A discussão fica interessante quando tu questiona o critério (ou princípio) utilizado. Rorty talvez tenha sido um expoente desta linha. R.M. Hare, também.

c) Utilitarismo: “matar bebês jogando eles contra a parede não é errado, se e apenas se o bebê não for capaz de sentir dor” “porquê?” “porque ‘sofrimento’ é o critério básico para lidar com moralidade. O bebê nao é capaz de sentir dor, portanto etcetera”. No caso, estou lidando com um utilitarismo pouco sofisticado, apenas para dar conta do contexto aqui. De qualquer forma, a justificação apela para um critério. Creio que o utilitarismo é compatível tanto com o cognitivismo quanto com o emotivismo, mas no fundo, pro utilitarista não importa o que a gente sabe ou não sabe, ou como a gente sabe ou não sabe dos critérios que utilizamos, importa como se usa estes critérios. O utilitarismo é eminentemente uma teoria coerentista de justificação. Entende-se como “razoável” aquilo que está coerente com o critério de justificação utilizado. Se tem uma falha na tua linha de justificação, acabou tudo.Aqui a gente tem o Peter Singer do lado dos Utilitaristas hard (via Hegel)  e o Tugendhat com uma idéia mais Humeana, naturalista, de justificação.

d) Universalismo (doravante Principialismo, especialmente na bioética do Beuchamps): Pois bem, o Universalismo é a vertente mais racionalista desta brincadeira toda. Muita gente vai ter dificuldade de distinguir o universalismo do Cognitivismo, mas nem todo Cognitivismo é Universalista (ver Hare, que usa o neologismo “universabilidade”) e vice-versa (ver Rawls). No Universalismo tu vais te basear em princípios informadores do que é “razoável”, então razoável é o que é CONSISTENTE (consistente é diferente de coerente, por favor) com um ou uma série de princípios gerais. Existem várias estratégias de trabalho aqui, seja com o uso de valores Thin and Thick (Rawls/Waltzer) até com o apelo para uma comunidade aberta de comunicação que informa os critérios discursivos – universais – que servem como regras do jogo onde algo é considerado razoável (Habermas).

Teria muitas variações sobre estes mesmos temas, mas creio que é difícil fugir destas caixas que coloquei ali em cima. Tu vai ter a variação totalmente cética (Foucault, que basicamente vai dizer que razoável é só o que sobrou ali no final como imposição de quem tinha mais poder. Com alguma sorte, vai ter sido algo legalzin) a variação na área de virtudes (McIntyre/Agamben, embora que de modo completamente distinto).

Permanece, no entanto, que dificilmente a gente vai conseguir falar de justificativas sem apelar para um nível de razoabilidade. Existe um plano quase instintivo onde tu responde “isso não é justo!”. Esta resposta, é na realidade um pedido por razões. Tu tem um guri de cinco anos, tu tira um pirulito da mão dele, e dá para o irmão dele de três anos. Reposta padrão: “Isto não é justo!”. A contra-resposta é o importante aqui. Desde o tapa na mão do guri, até o “não levante a voz para o senhor seu pai”, passando por “seja legal com teu irmão mais novo, temos dinheiro para apenas um pirulito”,  tudo isso acaba sendo constitutivo de como entendemos os processos de justificação – ainda que a gente resignifique isso todo o tempo. Aqui, já estou dando um pouco da minha posição sobre o tema – que vocês já devem ter percebido, é um pouco menos analítica do que eu descrevi acima.

Mas eu fico na dúvida, como seria possível qualquer processo de justificação sem alguma noção de razoável. Seja ela uma noção emotivista, cognitivista, ou what have you? Tu podes alegar que o razoável também é um standard cultural, que existem culturas que não tem uma noção de razoável. Mas daí a gente entra num problema interessante: se tu usas algo que tu não chamas de razoável, mas que por o acaso é algo que eu sou capaz de chamar de “um argumento sobre razoabilidade”, parabéns, estamos usando duas palavras para falar de algo similar. “Mas eu chamo de Table isso que tu chama de Mesa!” “Mas eu coloco meus pés em cima dela o tempo todo , e tu acha isso ofensivo!”. O interessante é que nós dois temos justificativas para dar sobre a forma como usamos a mesa, e vamos ter uma perspectiva do que é razoável se fazer com aquele objeto que chamamos de mesa [ou Table].

Mais duas coisas:

Estou dizendo que alguma noção de razoabilidade é ligada necessariamente à alguma noção de justificação. Se justificamos nossos atos, para tanto precisamos de um razoável que se liga ao “justificável”.

A segunda coisa, seria questionar se podemos comunicar noções diferentes de razoável. É possível que duas coisas sejam razoáveis ao mesmo tempo? Sim, claro que sim. Mas e quando as noções são conflitantes. “Matar bebês jogando eles contra  parede é legítimo se e apenas se eles não sentirem dor” versus “Toda gestação, a partir do momento da concepção, aqui entendida como a ligação do embrião à parede uterina, tem que ser protegida como uma vida humana complexa e completa”. Daí depende de qual critério tu vai utilizar. E como tu vai justificar o critério que tu está entendendo como razoável. Por exemplo, até que ponto é razoável dizer “porque Deus quer”? Em qual contexto? Em algum contexto?

Tenho minha opinião sobre este assunto, mas ela não importa agora. O que eu queria demonstra aqui, de verdade, era que não tem como tu falar de justificativa sem razoabilidade, e não tem como tu falar de agir – qualquer agir, qualquer tipo de agência – sem um nível de justificação para a agência. O que muda é como a gente vai ter estratégias, dentro da filosofia, para lidar com os diferentes níveis de justificação e de entendimento do razoável. No entanto, permanece que o desdém com a idéia de razoabilidade e justificação… bem… ele também precisa ser justificado em termos razoáveis…

One comment

  1. […] Heideggeriana, Justificação, Links, Pedidos desesperados de apoio, Razoabilidade |   Aqui, sobre justificação e razoabilidade (vai lá, Tiago! Que esse foi práquela outra […]

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