Sobre patrulhas intelectuais

Uma coisa que me preocupa é a forma como questões filosóficas chegam no debate público. Não se enganem, eu creio que elas devem chegar – creio que é importante discutir certas questões que são questões eminentemente filosóficas em público.

O que é o bem? O que é tortura? O que é uma vida? O que é uma vida que merece respeito? Qual é o escopo, o alcance da nossa noção de bem? O que é uma questão moral? Qual é a justificativa de uma posição moral? Existem justificativas admissíveis e justificativas inadmissíveis?

Esta semana o Reinaldo Azevedo usou o espaço dele, no Blog dele, para responder – e também detonar – as posições de um professor de filosofia de Londrina que havia caído na asneira de discutir com ele. Eu leio o debate, e a vontade que eu tenho é de, sei lá, desistir.

Não gosto da idéia de uma academia fechada, acho que é ruim. Acho que ambientes que se mantém fechados, depois de um tempo, começam a cheirar como mofo. Mas por outro lado, eu acho muito ruim – muito ruim mesmo – que o debate quando chega no público, chega desta forma. Tu podes acompanhar aqui e aqui o que o Reinaldo tinha para falar sobre o assunto.

Vejam bem, o Reinaldo tem direito a ter a opinião dele. A opinião essencialista precisa de espaço, mas ela não pode ser usada como censura. Isto é inadmissível. Por outro lado, e não quero aqui criticar meu colega de Londrina, que foi jogado nesta fogueira certamente sem ter pedido por isto, as vezes o debate que foca na concepção Lockeana de pessoa tem argumentos que me parecem claramente situados como “de má-fé”. Digo isso no sentido Sartreano do termo, e explico.

Dizer que “não há problema moral algum no aborto” é de uma mediocridade intelectual ímpar, quase injustificável. Como assim, não há problema moral algum? Uma decisão que implica terminar uma gestação não é moral? Isso me parece dificilmente justificável. Me parece que é, sim, uma decisão moral. Mas o foco é que nem tudo que é imoral é ilegal, mais ainda, nem toda decisão que pode ser chamada de imoral é uma decisão ilegal – até porque elas tratam de um registro diferente.

O que me deixa mais apavorado é a superficialidade do debate – tanto no nível essencialista quanto no nível utilitarista. Dizer que “não há problema moral” é claramente um recurso retórico – e que não ajuda o debate. Por outro lado, a patrulha intelectual de tipos como Reinaldo Azevedo, que ficam atentos para logo qualificar e destruir o caráter alheio é um tanto mais preocupante.

Se o colega de Londrina tem uma posição questionável, e eu acho que tem, isto não é algo que deveria nos levar a dizer que ele deve pedir desculpas para seus alunos. Eu não sei o que ele ensina ao alunos dele, eu sei que ele disse algo em uma entrevista, e este algo que ele disse, eu acho pouco defensável. Isso é tudo que eu sei. Ele tem direito à uma opinião, assim como Reinaldo Azevedo tem direto à uma opinião.

Sob pena de fugir do escopo deste blog, que não é político, mas de filosofia, eu acho que cabe uma reflexão sobre isso. Somos responsáveis, é claro, por nossas opiniões. Mas não creio que destruição de caráter seja algo aceitável, muito menos no nível que gente como Reinaldo Azevedo e Olavo de Carvalho vem fazendo. Queremos debater a questão do aborto? Creio que sim. Mas precisamos discutir isso nos termos de um jogo de linguagem bem estabelecido.

Parte deste jogo de linguagem é que argumentos do tipo “deus fez assim” e “deus quer” não valem, assim como “isso não é um problema moral”. São claramente argumentos de autoridade, e que não cabem neste tipo de debate. Mais que isso, precisamos nos questionar se o uso destes argumentos nos autoriza a destruir o caráter alheio. Não creio que Reinaldo deva desculpa aos seus leitores. Até onde me consta, ele deve ser uma boa pessoa, com boas intenções, e mesmo que não seja, não é da minha conta. O que me interessa, é que uma opinião, qualquer opinião, dá direito à réplica, mas não dá direito à tomar a coisa pelo lado pessoal.

Precisamos construir este espaço público de debate, onde as pessoas podem discutir estas posições. Por exemplo, eu creio que é perfeitamente possível ser contra o aborto sem ter um argumento teológico por trás, assim como é possível ser a favor do aborto sem defender o infanticídio – também creio, e está é minha posição, que existe uma saída para a questão do aborto que reconhece o direito de escolha, ao mesmo tempo que controla a frequência da prática.

Mas precisamos debater, e parar de gritar um na cara do outro.

2 comentários

  1. Concordo totalmente, Fabrício.
    Em termos de argumentação, penso que os problemas aqui no Brasil – não posso falar pelo resto do mundo – são basicamente dois:
    1. Não se consegue trabalhar com a possibilidade de não levar a crítica para o lado pessoal;
    2. Por outro lado, se não se leva a coisa para o campo do pessoal, cai-se em uma impessoalidade assustadora, onde ninguém é capaz de assinar embaixo e se comprometer pessoalmente com determinada posição.
    Em resumo, ainda estamos na infância argumentativa.
    A lógica, sem apelos retóricos de quinta, assim como a maturidade, chegarão daqui a algumas décadas.

  2. Pois é, acho que o contrário também vale: tapinha nas costas e cachorro-quente com guaraná na hora da defesa de uma tese ou de ver os argumentos de um artigo não servem para nada.
    Além disso, por mais que blogs sejam um espaço em que dê para flexibilizar o discurso acadêmico, tu quer ver argumentos filosóficos ali!

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: