Livremente provocativo

O meu primeiro post sobre Harry Frankfurt foi uma tentativa de entender os conceitos, descritos no ensaio Freedom of the will and the concept of person (1971), de “desejos de primeira ordem”, “desejos de segunda ordem” e “vontade” (will). Este último conceito está intimamente conectado com o conceito de “pessoa”.

O começo deste artigo é fantástico, no que diz respeito a sua crítica inicial ao que se entende por pessoa. Aqui, vejo um ataque de Frankfurt por dois lados. O primeiro relaciona-se ao mal-uso da palavra “pessoa”, que traria conseqüências a (i) erros teóricos inocentes; (ii) perda da área específica de investigação (iii) empobrecimento do vocabulário filosófico. O segundo, que é também resultante do primeiro, é que o conceito de “pessoa” não pode ser entendido como um critério para diferenciar homem de outras espécies, ou seja, não é a partir disso que temos uma “taxonomia” (species-specific). [Nesse instante, minhas pernas tremeram. Lembrei das aulas do Stein, das leituras de Heidegger e de toda a crítica ao adjetivo racional]. 

Nas palavras de Frankfurt:

Rather, they [the criteria for being a person] are designed to capture those attributes which are the subject of our most humane concern with ourselves and the source of what we regard as most important and most problematical in our lives. […]

We do in fact assume, on the other hand, that no member of another species is a person. Accordingly, there is a presumption that what is essential to persons is a set of characteristics that we generally suppose – whether rightly or wrongly – to be uniquely human. 

E, com isso, ele arrebata:

It is my view that one essential difference between persons and other creatures is to be found in the structure of a person’s will. […] It seems to be peculiarly characteristic of humans, however, that they are able to form what I shall call “second-order desires” or “desires of the second-order.

O conceito de pessoa aparece na segunda parte do artigo, depois que a maioria dos conceitos já estão desenvolvidos:

Someone has a desire of the second order either when he wants simply to have a certain desire or when he wants a certain desire to be his will. In situations of the latter kind, I shall call his second-order desires “second-order volitions” or “volitions of the second order”. Now it is having second-order volitions, and not having second-order desires generally, that I regard as essential to being a person.

O conceito de will é explicado do seguinte modo: “It is the notion of an effective desire – one that moves (or will or would move) a person all the way to action. Thus the notion of the will is not coextensive with the notion of what an agent intends to do”. 

Portanto, o meu desejo de querer comer o pastel, para se tornar uma volição de segunda ordem, tem que se tornar efetivo, ou seja, eu tenho que, efetivamente, ir comprar o pastel e comê-lo. Mas, isso não significa que simplesmente fui atraído, como um cachorro, por aquele pedaço de banha. Não! Porque? Porque eu me importo (care) pelos meus desejos e sou capaz (racional) de avaliar quais dos meus desejos de primeira-ordem eu quero (desejo de segunda-ordem) que se tornem efetivos (will). Nem todo ser humano racional é livre, mas todo ser livre é racional: “For it is only in virtue of his rational capacities that a person is capable of becoming critically aware of his own will and of forming volitions of the second order. The structure of a person’s will presupposes, accordingly, that he is a rational being”. 

Com isso, ser livre torna-se um problema que nunca acaba, pois sempre estou confrontado com meus desejos e posso escolher em os realizar ou não. E é na satisfação ou frustração de meus desejos que eu passo a me identificar como pessoa. Nessas situações, eu experencio/desfruto (enjoy) a liberdade da vontade (will), já que sou livre para ter a vontade (will) que eu quero. Liberdade de ação e liberdade de vontade não são idênticas, mas andam juntas: “Then he is not only free to do what he wants to do; he is also free to want what he wants to want. It seems to me that he has, in that case, all the freedom it is possible to desire or to conceive”. 

Pode parecer meio “solipsista” a descrição que eu acabei de fazer e é por isso que, acho, o que o Fabrício escreveu traz muitas questões sobre, digamos, o “resultado” da vontade livre – em outro nível. Só que tu poderia explicar pra gente o que é razoabilidade!

A questão da responsabilidade é o ponto fundamental, segundo Tugendhat, sobre a liberdade. Cito:

El problema real de la libertad de la voluntad, el problema que ha preocupado durante siglos a la tradición filosófica, no ha sido el que se puede ejemplificar con el movimiento de un dedo, sino el problema de la responsabilidad. ?Cómo hay que entender que nos podamos responsabilizar de nuestros actos y reprochárnoslos recíprocamente así como también a nosotros mismo? (Libre albedrío y determinismo. In: Antropologia en vez de metafísica. 2008).

E a vontade livre, aqui, refere-se “específicamente a esta capacidad humana de una voluntad reflexiva que está implicada cuando se puede decir ‘depende de mí'”. Por isso, a questão da responsabilidade vai sempre de encontro com (1) a dependência de tal pessoa que o evento ocorresse ou não; e (2) que esta pessoa poderia ter agido de outro modo (é o conceito de imputabilidade que Tugendhat descreve aqui). Reformulando, então, vontade livre requer a explicitação das frases: “dependeu de mim” e “poderia ter agido de outra maneira” (sei, mas não li ainda, que H. Frankfurt refuta o possibles alternatives principle, o que, em tese, traria dificuldades para se aceitar algumas explicações de Tugendhat). 

Já o conceito de pessoa de Tugendhat, é constituído pela capacidade de deliberação (que é uma postura ativa), o que significa: capacidade de perguntarmos por razões e, também, de perguntarmos-e-decidirmos “como quero ou como devo viver?”. Esta explicação é extremamente sintética, pois Tugendhat gasta artigos para explicar isso.

Para continuar a discussão:

(1) Acho que o Carlos, nos comentários 2 e 9, confunde: (a) o determinismo, como uma tese metafísica de que “as leis da natureza e o modo como as coisas são no tempo t determinam o modo como as coisas serão em tempos posteriores”; com (b) uma tese espistemológica da previsibilidade dos eventos, que trata sobre como sabemos sobre o futuro (há um verbete muito bom sobre o conceito de Determinismo em PSHILLOS, S.; CURD, M. (Org.). The routledge companion to philosophy of science. 2008). Ou seja, não é porque temos uma corrente causal funcionando, que saberemos o que irá acontecer no futuro. Foi o que eu entendi de tuas frases: “Alem do que, tanto a explosao qt a caganeira sao previsiveis, porem com diferentes graus de probabilidade” e “Me parece que nao ha consequencia que nao pode ser prevista, falando no sentindo estrito. Acredito que a ciencia trabalha com o pressuposto que tudo tem causa(s). Assim, tanto a caganeira qt a explosao poderiam ter sido previstas e nao ha como separa-las em previsivel X imprevisivel. Apesar de que em uma situacao concreta a pessoa previu ou nao, mas “a coisa” eh sempre previsivel.”

(2) Acho que quando o Habkost fala de que “não há ‘pessoa razoável'” e “vida, porém, pode significar coisas absolutamente diferentes”, repetindo o argumento no outro comentário “os fundamentos que informam os raciocínios de diferentes pessoas são, bom, diferentes”, não cola. A questão não é unificar ou realizar uma média harmônica dos diferentes significados de “pessoa”, “pessoa razoável” ou “vida”. Nâo é o conteúdo que poderia ser descrito pela filosofia. O que eu quero dizer é que o conceito de liberdade, por exemplo, tenta descrever se e como cada pessoa é livre – no sentido de estruturas formais que possibilitariam ou concordariam com o conceito de liberdade. Se ela come pastel, explode botijão de gás, quer virar barman, quer se tornar um grande crítico literário ou almeja ser um ótimo cantor, não tem a mínima importância.

(3) Acho que o que dificulta a tese de H. Frankfurt sobre liberdade e responsabilidade é o trecho “uma consequência que poderia ser esperada”. Ora, que um pastel de rodoviária não me faça mal é algo que, em um sentido escrachado, não posso esperar. Agora, eu posso exigir que ele não me faça mal; do contrário, posso processar o gordinho de bigode que colocou pentelho no recheio. Então, o entupimento do banheiro seria, também, minha responsabilidade? Eu também não poderia exigir que o banheiro do ônibus fosse adequado? Talvez, o exemplo não ajude, pois há uma confusão entre algo aí…

Realmente preciso sair de casa para ir para a PUC!

7 comentários

  1. Vou te responder, eventualmente, o que eh razoabilidade.
    Primeiro preciso fazer o que eu preciso fazer. :P

  2. E ae, Marcos! Valeu pela inclusao! :)

    Seguinte: eu nao disse que “é porque temos uma corrente causal funcionando, que saberemos o que irá acontecer no futuro” [Essa frase eh sua].

    Eu disse, como vc mesmo citou, que “tanto a explosao qt a caganeira sao previsiveis, porem com diferentes graus de probabilidade”.

    Eh importante perceber a diferenca sutil entre ser (1) “previsivel” e (2) “ter sido prevista”. O primeiro indica um pressuposto que a ciencia trabalha com ele, de que tudo tem causa independente da consequencia e anterior a ela (portanto passivel de ser prevista); enquanto o segundo depende de alguem ter sucesso na empreitada de tentar achar as causas, medi-las, e usa-las para prever o futuro.

  3. Então, Carlos, você acabou de repetir o que eu acredito ser errado. Que a ciência trabalhe com o pressuposto de que “tudo tem causa”, não pode ser inferido que “tudo é previsível” ou “passível de ser previsto”. Ou seja, tu queres inferir de uma tese metafísica sobre o universo uma tese epistemológica sobre este mesmo universo.
    E, em relação a segunda, ainda continuo acreditando que ela é totalmente supérflua, pois não há critérios para se distinguir o que é “normalmente” previsto do que o que não o é. Por isso, talvez, venha a calhar o conceito de razoabilidade de H. Frankfurt (que, por sinal, o Fabrício ainda não nos disse o que significa).

  4. O Fabricio tem dois artigos para apresentar se ele nao quiser perder a bolsa. O Fabrício precisa de tempo. Depois do dia 5 eu posto

  5. E ae, Marcos!

    Talvez vc pudesse dar um exemplo pra gente de um fenomeno, ou de uma simples variavel, que nao tem causa. Vc tem algum(a) em mente?

  6. Eu tenho! Eu tenho!
    Esperem eu chegar em casa, vem com citacao e tudo! :D

  7. […] 17, 2008 por fabriciopontin No nosso debate aqui no blog, até agora o único que foi para frente, começamos uma discussão sobre liberdade-justificação-razoabilidade. Um dos pontos principais […]

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