Quantificando a Moral

Um dos temas que mais me fascinam na discussão sobre valores é o que envolve a existência/relevância de valores e intuições. Em suma: como é possível medir se uma ação é mais ou menos ética – ou, é possível medir isso at all.

O pessoal da Harvard está com este Moral Sense Test no ar, que é supostamente uma forma de medir a coerência de tuas convicções morais, e ver como pessoas fazem opções morais no seu dia-a-dia. Pois bem, fiz o teste. Algumas coisas me chamaram a atenção:

O teste coloca aqueles velhos problemas morais típicos de utilitaristas: “um trem se aproxima de uma intersecção, se ele pega a intersecção ‘A’, ele mata 3 pessoas, se ele pega a intersecção ‘B’, ele mata 5. Puxar a alavanca para a inteseção ‘B’ é moralmente: 1) muito adequado 2) bem adequado 3) adequado 4) neutro 5) pouco adequado 6) muito pouco adequado 7) nada adequado”.

Meu instinto, aqui, é reagir com um “bem, para início de conversa tu tá supondo que moral é quantificável”. Como, exatamente, é possível tu dizer que uma ação é “mais boa”? Se estamos confiando em intuições, posso dizer que me agride menos pensar em matar uma pessoa do que matar 30. Mas isso significa que é moral matar uma pessoa?

Não sei se isso presume um realismo moral, presume que temos intuições sobre valores, que pensamos em termos de “bom” ou “ruim” e avaliamos ações em escala de acordo com resultados ou condutas. A atual discussão entre realismo/anti-realismo/cognitivismo/construtivismo/ceticismo na moral ilustra diversas formas de lidar com o problema desde o ponto de vista da filosofia analítica. Se pegamos o ponto de vista fenomenológico, ou mesmo existencial, vamos lidar com a moral de uma forma um pouco diferente.

Enquanto eu fazia o teste, tencionei quase sempre à marcar “neutro”. Todos os exemplos que eles me davam me soavam como exemplos de contabilidade, não de valores. É moral matar 3 ao invéz de matar 6? Me parece que este não é o problema moral. O problema moral é ter de fazer esta opção. As brincadeiras utilitárias, estes joguinhos com either/or, são interessantes formas de lidar com problemas políticos, e talvez eles tenham resultados, de fato, mais ou menos adequados. Mas eles não são moralmente mais adequados.

Mesma coisa o problema do navio: “O navio está afundando, não há coletes salva-vidas para todos, tu sabe nadar, fulano não sabe, tu estás com o colete, porque tens maiores chances de sobreviver, fulano não tem o colete. Não dar o colete para o fulano é moralmente: 1) muito adequado 2) bem adequado 3) adequado 4) neutro 5) pouco adequado 6) muito pouco adequado 7) nada adequado”.

Esperar uma resposta baseada em valores para esta situação me parece no mínimo bizarro. A questão moral, aqui, é evidentemente porquê não existem coletes para todos? A subsequente elaboração é um problema totalmente diferente, que também tem consequências no nível de sentimentos. Mas não estou certo que ele possa ser qualificado como “mais” ou “menos” moral, quando esta situação limite entra em jogo, a moral deixa de ser uma questão relevante. Não existem opções morais na situação limite.

Se pensamos a moral no sentido de um sistema de valores, de condutas, que regem a forma como alguém pensa que levar a própria vida é mais adequado, talvez possamos estudar a coerência deste sitema de valores com as situações limite – por exemplo, como uma menina educada enquanto pro-life encara uma gravidez precoce e de risco; ou como um pacifista encara a necessidade de ter que matar ou morrer. Me surpreende, no entanto, que exista esta inclinação de medir a “quantidade” de moral em determinadas ações ou resultados.

Talvez o estudo da Harvard sirva para ver a coerência de posições morais, por exemplo, que a mesma pessoa que indique ser contra matar alguém na situação “a”, seja a favor na situação “b”, e desenhar os possíveis motivos por trás destas opções. Ainda assim, não vejo o quanto isso realmente esclarece a forma como construímos juízos morais, quero dizer, como tu realmente pode alegar que está descobrindo qualquer coisa sobre a forma de conduta de alguém colocando respostas fixas para problemas com suposta relevância moral?

Façam o teste, comentem aqui o que vocês acharam.

2 comentários

  1. Muito bom, Fabrício.
    Ainda não consegui fazer o teste. A página não abriu por aqui.
    Concordo contigo, é mesmo bizarro medir esse tipo de coisa. Penso que valores morais não são coisas contabilizáveis. Ou, se são, as teorias que a isso se propõem, apresentam logo de cara, implicitamente, curiosos pressupostos antropológicos. Lembro-me, por exemplo, daqueles cálculos fisionômicos da virada do século retrasado para o passado. Lembra disso?
    Para mim, a questão sempre interessante é a coerência interna dos valores entre si e o quanto as incoerências expõem a vulnerabilidade/inconsistência de determinadas posições no arranjo interno da coisa toda. Ou seja, a questão “+ adequado vs. – adequado moralmente” nem me parece tão interessante diante da questão, por exemplo, do quão integralmente ruim um sujeito consegue ser.
    Enfim, valeu pela dica!
    Assim q fizer o teste te conto como fui. :D

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