Cobertura do Colóquio Filosofia hermenêutica e fenomenológica em Ijuí

O II Colóquio de Filosofia hermenêutica e fenomenológica: hermenêutica, ciência e técnica,  foi realizado semana passada, nos dias 28 a 30 de agosto, na Universidade de Ijuí. Como aconteceu no Colóquio anterior, em que a Camila encarregou-se de fazer uma cobertura sucinta das palestras, eu também vou tentar realizar aqui um resumo das apresentações e do que foi debatido. 

O Colóquio começou com a palestra do Prof. Paulo R. Schneider, com o título Perspectivas da essência da ciência e da técnica, dividida, grosso modo, em quatro partes: (1) Considerações histórico-sociais da filosofia e da ciência no séc. XIX-XX; (2) A relação que Heisenberg estabelece entre ciência, filosofia e arte; (3) A concepção de ciência e técnica no segundo Heidegger; (4) Considerações finais.

(1) A apresentação começa com uma contextualização do final do séc. XIX até metade do séc. XX, período considerado por Schnädelbach o “século da ciência” (Philosophie in Deutschland. 1831-1933). Nessa época, ocorre uma mudança funcional na ciência: comprometendo-se com o processo de industrialização, ela torna-se também uma força produtiva, qual seja, uma forma de processo de pesquisa e tecnologia. Além disso, a ciência desliga-se da filosofia ao reagir contra o pretenso monopólio de cientificidade do idealismo alemão e alcança novos níveis culturais e sociais, “cientificizando” o mundo da vida e mapeando as próprias idéias filosóficas a partir de perspectivas sociológicas. 

(2) A principal pergunta que Heisenberg tentou responder em seu texto Die Bedeutung des Schönen in der exakte Naturwissenschaft (A significação do belo nas ciências exatas) é: “de onde surge a emergência das novas concepções de totalidade nas ciências? de onde surgem as grandes idéias revolucionárias, os grandes paradigmas?” Heisenberg, com isso, tentará aproximar a concepção de beleza ao âmbito das ciências exatas, na medida em que ela torna-se uma ocorrência compreensiva. 

Duas concepções de belo são lembradas por Heisenberg: a primeira é a determinação do belo como exata correspondência de todas as parte em um totalidade determinada; a segunda provém de Plotino, que definia a beleza como o transluzir eterno do Uno na aparição material. 

A primeira concepção encontra-se presente desde a Escola Pitagórica até a teoria da relatividade. Pitágoras é o grande teórico aqui, já que sua filosofia reuniu a estrutura matemática como fonte de beleza harmônica e, ainda, como o princípio explicativo e compreensivo de todo o ser (a arché) – um princípio formal ideal de relação matemática. 

A partir dessa relação tríplice, Heisenberg percorrerá Platão, Galileu, Kepler, Newton e os físicos da teoria da relatividade e da teoria quântica. A questão recorrente agora é: “como se explica que por meio de um súbito, brilhante e belo surgimento teórico apareça a compreensão de um grande conjunto teórico bem antes que se possa prová-lo em detalhes?”. Desta dúvida, Heisenberg direciona-se para sua segunda concepção de belo, tentando mostrar a pré-existência de uma capacidade original para reconhecermos modelos fundamentais – aqui, os arquétipos de Jung e Pauli são examinados. 

Por fim, P. Schneider apresenta os pressupostos fundamentais de física de Heisenberg, centralizados no conceito de “energia”. O ser humano, com isso, passa a ser visto como reconhecendo-se a sim mesmo em cada detalhe a partir do todo conjugado da civilização ocidental em possível evolução; ele pode contemplar o belo a partir de uma objetivação compreensiva de uma totalidade objetiva, em que o homem reconhece a sua produção e, ao mesmo tempo, a si mesmo.

(3) A exposição de Heidegger concentra-se no artigo Wissenschaft und Besinnung (Ciência e meditação ou pensamento de sentido, segundo a tradução da Vozes), que encontramos em Ensaios e conferências. Schneider ressalta a dificuldade em lermos os textos heideggerianos sobre a ciência, uma vez que o autor transita constantemente entre os genitivos subjetivo e objetivo – deixando ao leitor o esforço da interpretação. Por exemplo, a definição “A ciência é a teoria do real” pode ser vista (1) como uma teoria sobre o real, que investiga o que é objetivamente real (aqui temos o genitivo objetivo); ou (2) como uma teoria envolvida desde sempre por aquilo que é real e que, portanto, está no comando efetivo e nunca pode ser conhecido completamente (genitivo subjetivo). Nesse sentido, o uso comum do genitivo objetivo por nós recebe uma nova inversão, dando-lhe uma dimensão de profundidade, na qual somos levados a aceitar o genitivo subjetivo como o determinante. Algo outro, afirma Heidegger, domina a ciência e permanece encoberto, sem que ela sequer passa perto.  Por exemplo, na física, a Natureza é o elemento incontornável com o qual o cientista não consegue alcançar sua essência a partir da representação científica; na psiquiatria, é o Dasein humano; na ciência histórica, é a historicidade; na filologia, é a linguagem. Portanto, a inacessibilidade do incontornável marca a própria essência da ciência, é seu traço fundamental. 

Meditação (Besinnung) torna-se, então, precisamente, a atividade de se dar conta da situação em que se está, um deixar-se envolver pelo sentido. E aqui, ao se referir ao pensamento grego, Heidegger vincula-o ao surgimento da ciência e da técnica moderna, a partir de sua tese sobre a história do esquecimento do ser. Como resultado, Heidegger considera os gregos como o (único) ponto de partida da meditação.

(4) Em suas considerações finais, Schneider ressalta a refutação da idéia de causalidade por Heidegger, uma vez que a facticidade do porquê da causalidade não explica causalmente o porquê. E, aceitando esta categoria, o homem também objetifica-se, pois a explicação de si mesmo já é antecipada por uma explicação causal. Também daqui Heisenberg não conseguiu escapar.

As discussões que se realizaram após a apresentação tiveram, em grande parte, a intenção de perceber a insuficiência do diagnóstico realizado por Heidegger sobre a ciência e a técnica, na medida em que ele situa-as em uma dimensão inalcançável, do inefável, etc. Se assim fosse, o próprio trabalho da filosofia estaria dissolvido a nada, pois não haveria qualquer espaço para troca de razões e contra-razões.

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