Um breve comentário sobre a bibliografia recente sobre E. Tugendhat

Apesar de Tugendhat ser considerado um dos maiores filósofos vivos da atualidade e ainda haver a reclamação do pouco material bibliográfico disponível sobre ele, tal situação parece estar mudando – e, talvez, mude muito em muito pouco tempo. Três publicações me chamaram muito a atenção depois de uma breve pesquisa:

(1) A obra organizada por Darlei Dall’Agnol, Verdade e respeito: a filosofia de Ernst Tugendhat. que é também uma homenagem aos seus 75 anos. Acredito que esta é a obra mais atual sobre a filosofia de Tugendhat em suas várias fases, pois, além de possuir (i) um esboço de sua trajetória filosófica; (ii) artigos que tratam de suas publicações iniciais sobre filosofia analítica da linguagem; (iii) e, posteriormente, sobre ética; há, ainda, (iv) uma parte dedicada à antropologia filosófica e suas últimas conferências e (v) outra com as réplicas do próprio.

A recepção da filosofia de Tugendhat no Brasil, segundo uma dissertação que encontrei meio sem querer na biblioteca da PUC/RS, iniciou publicamente em 1976, com o artigo do prof. E. Stein, “A ontologia da finitude e a tarefa da verdade na era do niilismo” (em Melancolia), ensaio com “uma das primeiras, senão a primeira, citação de Tugendhat por um autor brasileiro”. Também foram dos seminários de Stein, de 1991 a 93, que surgiu a tradução e publicação da primeira parte das Lições introdutórias à filosofia analítica da linguagem, cuja persistência de Ronai Rocha tornou possível a publicação integral desta obra. Na UFRJ, em 93, os professores Guido de Almeida, Raul Landim e Luiz Bicca, dedicaram-se à filosofia analítica e à filosofia moral de Tugendhat. E já em São Paulo, temos a tradução das lições 5 e 6, sobre Wittgenstein, de Autoconsciência e autodeterminação, realizada pelo prof. Plínio J. Smith. Achei interessante registrar este estudo histórico, feito por Hermílio P. dos Santos Filhos, já que a sua dissertação é a tradução integral da terceira seção (Práxis) da obra Philosophische Aufsätze (Suhrkamp, 1992). Me admira não ter sido publicada, já que a única tradução disponível de parte desta seção está na edição espanhola Ser-verdad-acción (Gedisa, 1998), que não contém os ensaios Linguagem e ética e O desamparo dos filósofos diante das dificuldades morais da atualidade. O título da dissertação de Hermílio é Práxis: tradução e análise de ensaios filosóficos de E. Tugendhat, defendida em agosto de 1994.

(2) GLOCK, Hans-Johann, What is analytic philosophy? (Cambridge, 2008), que, no primeiro parágrafo da introdução do livro, cita Tugendhat como um dos defensores da filosofia analítica. Apesar de ainda não ter lido a obra , acredito que as duas citações de Tugendhat que encontramos no índice onomástico já valem como um indício de abertura da ortodoxia analítica;

(3) ZABALA, Santiago. The hermeneutic nature of analytic philosophy: a study of Ernst Tugendhat (Outra obra que ainda não li, pois a achei ontem). Esta parece ser a primeira grande publicação que pretende ser, além de uma introdução à filosofia de Tugendhat, centrada nas obras Lições introdutórias à filosofia analítica da linguagem e Autoconsciência e autodeterminação, ou seja, cujo enfoque é a filosofia teórica de Tugendhat, um estudo aprofundado (espero!) sobre a relação do filósofo com a metafísica – ou, com o fim dela, já que Zabala tenta mostrar a influência marcante da filosofia pós-metafísica de Heidegger e a tentativa de superação da pergunta pelo ser pela filosofia analítica da linguagem. Parece, apenas pela entrevista encontrada no site do próprio autor, que uma das principais intenções de Zabala é a destruição da dualidade analíticos-versus-continentais. Seu principal argumentos é: se estamos em uma era pós-metafísica, temos de deixar de lado: (1) a estrutura subjetiva da filosofia tradicional; e, ainda, (2) o método objetivo da filosofia analítica, já que uma “metalinguagem cultural” tornou-se sem sentido. Assim, vinculando linguistic turn e fim da metafísica, Zabala tenta mostrar que Tugendhat constrói uma filosofia analítica pós-metafísica, possuindo uma natureza hermenêutica: “a ampliação potencial de horizontes, que pode resultar do encontro com outras comunidades de fala” (TUGENDHAT, Reflexões sobre o método da filosofia do ponto de vista analítico. Trad.: Róbson R. Reis. Problemata. v.1, n.1., 1998. pp. 131-144).


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2 comentários

  1. Prezado Marcos, gostaria de compartilhar com você a importância que Tungedhat passou a ter, recentemente, no meio jurídico.. A concepção do filósofo sobre os direitos sociais enquanto fins e não apenas instrumento para satisfação de liberdades individuais, passou a ser discutido principalmente no tema da justiciabilidade desses direitos sociais. Os juristas colombianos também utilizam esta concepção do autor.
    Um abraço.

  2. José V.Bonet Sánchez · · Responder

    Hay algunos libros míos, como mi tesis doctoral de 1992 (refeenciada en el Diccionario de filsoofía de Ferrater Mora, 1994) y el libro más reciente José V. Bonet, La pregunta más humana de Ernst Tugendhat, Publicaciones de la Universidad de Valencia, 2013, libro referido a todo el conjunto de la filosofía del autor. Tambièn estoy publicando diversos artículos sobre aspectos parciales de la misma.

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