Condescendência Moral e Eleição

Conversas sobre moral se tornaram outro nome para condescendência e políticamente correto? Eu não sei responder esta pergunta. Creio que ninguém honesto sobre o que faz em termos de filosofia moral pode responder esta pergunta. Responder ela é profundamente condescendente, para início de conversa.

Quando e como estamos autorizados a falar de um parâmetro mais alto de moral sem cair em um tipo de moralismo? Ao mesmo tempo, como lidar com uma série de intuições nossas que gritam contra algumas práticas correntes? Creio que cada vez mais o desafio é mediar as nossas intuições morais em relação com as práticas políticas vigentes – mas sem com isso fazer uma moralização política. Porque falo isso?

Por dois motivos.

O primeiro, é a notícia que saiu recentemente, quando o governo americano admitiu que:

1) Waterboarding não é tortura

2) Prisioneiros de guerra foram expostos à esta prática.

3) Se for necessário, isso será feito novamente.

4) Isso não está aberto para discussão.

Gostaria de problematizar isso a partir de um vídeo. Trata-se de uma entrevista de John McCain, onde ele diz que os Estados Unidos, desde sua superioridade moral (moral highground) não pode ter este tipo de prática. O que me chama atenção nesta posição do McCain não é exatamente o que ele diz acreditar, mas as circunstâncias do que ele diz: como é possível ao McCain justificar estas sentenças ao mesmo tempo que ele representa o partido atualmente no poder nos Estados Unidos – e que defende a tortura? Então é isso que sobrou para o moral ? Falas condescendentes de somos os detentores de isso e aquilo.

Com isso, gostaria de problematizar um pouco um livro chamado A liberdade difícil. Não vou citar o texto, que não tenho à mão. Mas vou citar um artigo, de Ephraim Meir (minha tradução, por favor não reproduzam):

Para Levinas, eleição não é um privilégio, mas uma responsabilidade; é a nobreza de entrar em uma relação desigual. Consciência moral é, assim, consciência de eleição. Esta posição, “separada das nações”, é para Levinas percebida em Israel, que é acima de tudo uma categoria moral.

(…)

Também a idéia de eleição que é expressa nos artigos retornam na filosofia de Levinas. A eleição de Israel longe de contradizer o universalismo, é uma função deste. Ser eleito não é consciência de direitos excepcionais, mas de tarefas excepcionais: é a própria prerrogativa de consciência moral. A concepção Judaica de eleição, longe de ser anterior a um universalismo, onde todas as diferenças são escondidas, inclui esta abolição de diferenças como uma condição, ainda que seja indispensável a ela.Também na filosofia de Levinas, o Eu é “eleito”.

Eu não quero comprar uma briga aqui, eu quero mais é propor uma reflexão. Leiam o Meir. Assistam o McCain de novo. Prestem atenção na questão do Highground moral nos dois textos. O sentido de um conservadorismo moral e de uma postura de higher-ground derivada de uma certa eleição me parece presente nos dois discursos. O curioso é o que este conservadorismo parece esconder: um certo recurso à moral para escapar da discussão política no fim das contas – reparem como o McCain se esquiva da pergunta sobre o juiz ao final de seu belo discurso; depois reparem como Meir (assim como Levinas) tem um pavor patológico das discussões políticas.

Dizer que a moral deve fundamentar a política parece um discurso vazio. O que significa isso? Qual moral? Desde que ponto de vista? A moral do eleito? Qual eleito? Com qual autoridade?

Neste sentido, creio que tanto Kant quanto Hobbes ainda nos oferecem mais saídas que nossos contemporâneos moralistas – que parecem retornar para uma idéia profundamente imanente e conservadora de moral. Se Kant falava de um dever moral, ele também falava de uma superveniência de morais no processo histórico – e depois fomos bem sucedidos em desacralizar a história kantiana. Hobbes nos oferece um contrato – é um contrato brutal, é verdade -mas pelo menos não temos que aceitar condescendências; ou migalhas morais oferecidas como um discurso edificante.

Com isso, será que devemos simplesmente relativizar a tortura? E relevar a moral à um discurso de segunda ordem que diz apenas sobre intuições regionais, que não podem (e não devem) ser universalizadas? Uma intuição moral, ou uma crença sobre moral (e eu sei que a forma de justificação de uma intuição e de uma crença podem ser distintas, mas não quero entrar nesta discussão agora), não podem fundamentar decisões políticas?

Claro que podem. E estas mesmas intuições e crenças nos demonstram que não existem evidências que demonstram uma relação causal entre posturas como a tortura e o resultado que estas mesmas práticas buscam. Assim, o custo que pagamos para nos livrar de nossas intuições que dizem que isso tá completamente errado é altíssimo (e não correspondido). Não tem um highground moral, é só uma intuição – se preferirmos ser fenomenológicos (e eu prefiro) é uma intenção. Uma forma de se aproximar de um problema. Não é a forma, e não tem eleição nenhuma que me chama desde o infinito.

Acredito que existe um cinismo muito grande nesta conversa de eleição e de highground moral, e é esta provocação que eu queria deixar. O McCain faz um discurso muito bonito sobre como toda a conduta é errada e inaceitável, e como os americanos sabem mais que isso porque são um exemplo de eleição. Mesma coisa o papo de eleição e responsabilidade pelo outro.

Ao mesmo tempo, quem faz este discurso muitas vezes é o primeiro a representar um partido que apoia esta mesma prática que agora a pouco ia contra o higherground moral – ou o cidadão que vai tentar me dizer como viver a minha vida de forma responsável; creio que ambas posturam demonstram uma condescendência moral que não ajuda a entender a complexidade da situação política que enfrentamos, nem a riqueza do processo que nos leva a formar uma consciência moral.

Ainda quero explorar aqui um pouco mais esta relação entre moral e política, e a relevância de intuições morais no processo político, mas começar com este debate parece ser uma boa idéia.

4 comentários

  1. paralunio · · Responder

    Por que que tu acha que eles argumentam a necessidade de um moral highground?

  2. bem, no caso do McCain, basta escutar o discurso dele. A obrigação que os Estados Unidos tem de repelir práticas como a tortura deriva deles serem representantes de um bem-maior.

    Quanto ao Meir, é claro que ele deriva uma eleição que dá ao eleito um fundamento mais alto a partir do qual julgar. Se tu queres argumentar isso teologicamente, desde uma idéia forte de imanência, não tenho nenhum problema. No entanto, esta argumentação do ponto de vista filosófico é problemática. Afinal de contas, não podemos argumentar filosoficamente que uns são mais responsáveis que outros por causa deste ou daquele ato fundador que lhes dá uma “maioridade moral”.

    No entanto, para o Meir existe uma profunda necessidade de um high(er) ground moral que fundamenta uma reponsabilidade radical (derivada de uma tal eleição). Sem este highground, a própria idéia de eleição e de responsabilidade radical que ele deriva não seguem.

    Mesma coisa para o McCain, sem esta autoridade moral superior que autoriza o bem-agir normativo, todo o resto cai por terra.

  3. paralunio · · Responder

    Esquecendo então o papo do “moral highground”, como se daria a fundamentação de uma decisão política a partir de uma intuição/intenção moral? Digo, haveria a possibilidade de, digamos, uma descrição de um ato político? Como tu utilizaria a fenomenologia?

  4. […] falei longamente sobre as armadilhas do papo de eleição, em um escrito que infelizmente não repercutiu, e continuo sustentando que o plano político é superveniente ao […]

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