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Teoria Crítica entre segunda e terceira geração: 80 anos de Habermas e 60 anos de Honneth

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Filipe Campello

Eu havia prometido comentar a palestra de Habermas por ocasião dos seus 80 anos. Agora tornou-se mais propício, depois do Simpósio no último dia 17 em homenagem aos 60 anos de Honneth.

A homenagem a Habermas na Deutsche Nationalbibliothek iniciou-se com algumas felicitações ao aniversariante, como a da editora da Suhrkamp Ulla Unseld-Berkéwicz e a de Alexander Kluge, amigo de longa data de Habermas e que se tornou cineasta com o incentivo de Adorno. A palestra de Habermas (o texto está disponível aqui) foi uma rememoração de sua trajetória em Frankfurt: lembranças do seu período de estudante, histórias vividas por aqui, o convívio com seus amigos ali presentes, etc. O alemão dele é difícil de ser entendido, em grande parte devido às sequelas do lábio leporino. Mas sua lucidez e dinamicidade impressionava, característica de quem viveu permeado pela reflexão e que,  ali, impactava com uma trajetória de pensamento que já se consolidara e se firmara em sua unidade.

Os 60 anos de Honneth, por sua vez, indicava um pensamento que ainda busca sua unidade, a ser encontrada somente com a compreensão daquilo que ainda se quer dizer. Na quinta havíamos comemorado o seu aniversário após o colóquio semanal com um jogo de futebol (divisão dos times: kantianos x hegelianos. Honneth, claro, jogou com os hegelianos e o filho, com os kantianos,) seguido de uma confraternização. Na sexta houve o Simpósio em sua homenagem intitulado “Anerkennung und Kritik” (Reconhecimento e Crítica),  que se caracterizou efetivamente por uma discussão intensa sobre seu pensamento: uma crítica do reconhecimento, como sugeriu o próprio Honneth.  As palestras apresentaram importantes considerações ao seu trabalho, seguidas da discussão com o próprio Honneth e outros, como Rainer Forst e Albrecht Wellmer (um adendo: No sábado eu estava no Café Laumer, que Adorno frequentava, quando ouço alguém falando de Davidson, McDowell, crenças, normatividade,… era Wellmer com Honneth, num papo normal para uma tarde de aniversário). Aos comentários críticos, publicados no Festschrift (cf. link abaixo) Honneth respondia com a sinceridade de quem está num processo de  reflexão sobre o que ainda há de ser dito, já apontando ali para aspectos a serem considerados no desenvolvimento de sua teoria.

Habermas, em seu artigo em homenagem a Honneth no Die Zeit, após resumir o desenvolvimento teórico de Honneth e mostrar o que ele considera ainda como lacunas (ao meu ver, astucioso até, porque Habermas ali também aponta para uma espécie de “déficit sociológico” da teoria de Honneth, revidando a mesma crítica que recebe de Honneth em Kritik der Macht) conclui, numa significativa demonstração do legado da teoria crítica entre segunda e terceira geração: “Eu só posso fazer a retrospectiva do tempo que Honneth tem atrás de si. O 60º aniversário é a data certa para desejar êxito no desenvolvimento de seu ambicioso projeto”. Incentivo de quem já está por concluir o seu e sabe que, com 60 anos, ainda há muito o que se fazer.

A imprensa noticiou amplamente ambos os aniversários (sobre Habermas: Die Zeit; Frankfurter Allgemeine;  ainda sobre ele escreveu Zygmunt Bauman no Frankfurter Rundschau e Charles Taylor no Süddeutsche; sobre Honneth no Frankfurter Rundschau) e foram publicados em homenagem a Habermas uma Studienausgabe com 5 volumes e para Honneth um Festschrift com quase 800 páginas intitulado Sozialphilosophie und Kritik, com artigos de Charles Taylor, Rainer Forst, Robert Pippin, Ludwig Siep, Nancy Fraser, dentre vários outros.

Written by filipecampello

July 29, 2009 at 10:53 AM

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Questão de método

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Filipe Campello

Em seu comentário a meu último post, Marcos me perguntou sobre a discussão metodológica daqui de Frankfurt. Estava respondendo nos comentários, mas, por considerar esse aspecto mais amplo (e, por outro lado, tem a ver com a pergunta da Tatiana, no que se refere também à questão metodológica), preferi postar.

Bem, esse debate é complicado, porque já envolve um amplo tratamento filosófico. Eu diria que são dois eixos que basicamente conduzem a preferência metodológica aqui em Frankfurt. O primeiro refere-se à herança da Escola de Frankfurt, na qual, desde a conferência que Adorno proferiu quando assumiu o posto de Professor, intitulada Die Aktualität der Philosophie, ele defendera que só a filosofia pode mover-se pela diversidade de material proveniente do estágio atual das ciências especializadas, ao tempo em que ela não deve ter o direito de pôr-se acima das ciências. Cito Adorno: “Só a filosofia pode utilizar a abundância do material e a concretude dos problemas no estágio atual das ciências especializadas. Ela não terá, com isso, o direito de elevar-se acima das ciências especializadas, integrando seus ‘resultados’ como acabados e meditando sobre eles a uma boa distância. Ao contrário, os problemas filosóficos encontram-se sempre incluídos nos debates científicos mais acirrados, e, de algum modo, irremediavelmente incluídos” (Adorno, Schriften 1, 334). A isso Habermas e Honneth, cada um a seu modo, deram prosseguimento. Isso, obviamente, não é pacífico. Lembro que uma vez discuti isso com o Stein, quando, em sua casa, ele tinha me mostrado sua Antropologia Filosófica, dizendo que naquele mesmo dia a tinha acabado. Na minha leitura, ela traz antes de tudo esse problema. Pelo que me parece (acompanhei a elaboração do livro, mas ainda não pude ter acesso a ele depois de lançado) uma das questões fundamentais ali é qual deve ser o método de uma antropologia filosófica, e mostra que não há como desenvolvê-la sem levar em conta um diálogo sério com as ciências especializadas. Esse tipo de delineamento caracteriza em geral o que se entende por pensamento pós-metafísico, ou, num outro sentido, uma metafísica crítica, como, por exemplo, o que o Luft propõe. Mesmo que se aceite esse tipo de orientação ainda permanece em aberto qual o método a ser adotado neste diálogo e qual o status específico da filosofia nesse tipo de tratamento, o que seria bastante extenso pra tratar aqui.

O segundo eixo é o da filosofia analítica. Eu acho Frankfurt uma das universidades alemães mais americanas (a cidade, por motivos óbvios, já é assim).  Claro que, por um lado, isso se deve a circunstâncias históricas, nas quais se destaca, em relação à filosofia, o exílio da Escola de Frankfurt nos EUA. A orientação analítica, que iniciamlente teve sua influência por aqui não enquanto ligada à Escola de Frankfurt, mas, pelo contrário, paralela a ela, tem uma influência forte também no tratamento de questões da filosofia continental. Desse modo, Frankfurt segue a tendência das últimas décadas de aproximar ambas perspectivas.

Ao colocar o que entendo como duas linhas metodológicas de Frankfurt, a minha intenção é de ampliar o debate dos últimos dias aqui no blog. A pergunta por si só leva suas respostas a proporções enormes (a pergunta se refere a aspectos ontológicos, epistemológicos, metodológicos). Ao meu entender (e também o Marcos aponta pra isso no final do seu post), a distinção metodológica entre fenomenologia e hermenêutica é bastante tênue (e, portanto, mais complicada).  Aqui só fiz ligá-la a um caso específico daqui de Frankfurt, o que pode não servir para aprofundar essa distinção, mas que, por outro lado, põe em diálogo ambas perspectivas com um outro modo de tratamento da linguagem, como seria o caso de Habermas. Concluo com a lembrança que amanhã o Jorjão (como diz um amigo meu) faz 80 anos (pra vocês terem idéia do que significa “transferência”, será “feriado” no seminário do Honneth). Por ocasião do seu aniversário, hoje terá uma palestra do Habermas abrindo uma exposição sobre o seu pensamento na Deutsche Nationalbibliothek. Depois postarei algo sobre esse momento.

Written by filipecampello

June 17, 2009 at 1:39 PM

Tópicos de Frankfurt

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Filipe Campello

 

Depois de um período de ausência, volto a postar, aproveitando o retorno para fazer um aggiornamento geral, destacando algumas das discussões por aqui. 

Em março ocorreu no Instituto de Pesquisas Sociais um debate entre  o psicanalista francês Christophe Dejours , Emmanuel Renault e Axel Honneth. Dejours apresentou um resumo dos papers The Centrality of Work e Subjectivity, Work and Action, cuja argumentação apresenta uma articulação entre desejo, subjetividade e trabalho numa perspectiva psicanalítica (Uma forma resumida dese último artigo encontra-se aqui). Emmanuel Renault expôs o tema “Recognition and work. Comparison between Dejours’ and Honneth’s models”, discutindo, como o título esclarece, os modelos dos dois autores. Em sua réplica, Honneth observa a inversão da sua proposta em relação à de Dejours. Enquanto em Dejours o reconhecimento está inserido na noção de trabalho, em Honneth a abordagem sobre o trabalho é desenvolvida enquanto uma das esferas de reconhecimento, no qual a noção de reconhecimento compreende uma abordagem mais ampla do que aquela entendida por Dejours (Há uma tradução em português do texto de Honneth Trabalho e Reconhecimento).

No mês passado, David Miller, importante teórico político de Oxford, esteve aqui para uma palestra intitulada “Democracy’s Domain: lecture outline”. O objetivo de Miller é estabelecer as fronteiras da democracia, discutindo quem se deve incluir e quem se deve excluir quando se estruturam instituições democráticas. O ponto aqui é discutir qual deve ser o domínio democrático e qual teoria da democracia pode melhor ajudar a responder essa questão. Miller parte de uma distinção entre (1) uma constituição interna da noção de demos, compreendendo um exclusionary pull, e (2) uma abordagem que se centra nos impactos de decisões democráticas, sendo entendida, assim, como um inclusionary push. Ele vai perseguir uma perspectiva que se encontre entre essas duas posições.  Apesar da argumentação sugerir aspectos importantes,  pelo caráter desse post restrinjo-me à indicação do tema discutido. Alguns elementos em torno dessa discussão podem ser encontrados no livro de Miller Citizenship and National Identity, bem como no livro de Iris M. Young Inclusion and Democracy.

Agora algo em torno dos seminários. Um deles, ministrado por Willaschek, é sobre o conceito de Anfechtbarkeit (defeasibility). A idéia central é discutir a hipótese de que crenças possam ser válidas não necessariamente quando justificadas, mas quando não há razões para pô-las em questão. Estamos discutindo autores como Austin, Wittgenstein, Brandom, Peirce. Por se tratar de um debate mais amplo, voltarei a esse assunto num próximo post, no qual pretendo vincular essa abordagem com aquela que está sendo discutida num outro seminário que participo sobre “Intuição e Conceito”, ministrada pelo professor visitante australiano Christensen.  A propósito do seminário com Willaschek, é a convite dele que em 27 de Junho estará aqui John Martin Fischer para um workshop sobre “Responsabilidade” (Verantwortung), no qual será discutido seu livro Responsibility and Control.

No colóquio dos orientandos com o Honneth lemos um texto da Martha Nussbaum (Whether from Reason or Prejudice, contido num livro com uma discussão caracteristicamente americana: Philosophy of Sex) e um interessante livro da Judith Butler, recém-lançado (Frames of War: When is Life Grievable?). Por conta do acúmulo de apresentação do trabalhos de orientandos para esse semestre, Honneth deixou para o próximo a discussão sobre o também recém-lançado livro da Korsgaard (Self-constitution: Agency, Identity and Integrity), que, por sinal, está sendo discutido atualmente no Colóquio de doutorandos com Willaschek.

Já o atual projeto do Grupo internacional de estudos em teoria crítica, vinculado ao Instituto de pesquisas Sociais, centra-se na discussão atual sobre o conceito de igualdade. Estamos discutindo basicamente dois autores: Christoph Menke (por sinal, é com ele um outro seminário que estou frequentando sobre o conceito de Sittlichkeit em Hegel e Nietzsche), que apresenta sua proposta no livro Spiegelungen der Gleichheit (“Reflexos da igualdade”) e Jacques Rancière, com Das Unvernehmen  (algo como “A impercepção”). O projeto segue até julho. A propósito, na próxima quarta terá um workshop no Instituto entre Honneth e Rancière, mediado por Menke, sobre a diferença da abordagem política dos dois autores. Depois devo postar algo sobre esse debate.

Bem, após esse delineamento amplo das atividades por aqui, nos próximos posts tratarei de especificar melhor algumas das discussões.

Written by filipecampello

June 1, 2009 at 6:37 PM

Justiça como justificação? Entrevista com Rainer Forst

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Na última sexta recebemos Rainer Forst no Instituto de Pesquisa Social de Frankfurt para a entrevista que marca a conclusão do projeto “Rechtfertigung und Gerechtigkeit. Die Spuren der Frankfurter Kritischen Theorie in den Schriften von Rainer Forst“ (Justificação e justiça. Os vestígios da teoria crítica de Frankfurt nos escritos de Rainer Forst). Desse modo, deu-se continuidade a outros projetos do grupo internacional de Teoria Crítica, no qual foram entrevistados nos últimos dois anos Axel Honneth e Jürgen Habermas. É sobre essa entrevista que inicio minha participação aqui no blog. Forst é um kantiano. Ele trabalha com uma concepção bastante específica (em grande parte kantiana) de pessoa, de natureza humana, aquilo tudo. Mesmo que isso seja evidente na sua teoria, não imaginava que ele deixaria essa posição tão clara quando fôssemos entrevistá-lo. Pensava isso até ouvir expressões do tipo “como um bom kantiano”, e aquelas risadinhas irônicas quando se fala de Hegel. Mas Forst é um bom kantiano. A sua leitura da razão prática diverge de boa parte deles e me pareceu particularmente interessante, assim como outros conceitos, como o de história – aqui mais próxima do Kant da “Paz Perpétua” (talvez depois escreva melhor sobre isso). A idéia básica da teoria da justiça de Forst é considerar como bem fundamental o direito à justificação: ninguém pode estar submetido a uma norma que não seja justificada. Bem, obviamente isso é bastante amplo e seria preciso discorrer sobre vários aspectos que fundamentam sua argumentação, desenvolvida em Das Recht auf Rechtfertigung (O direito à justificação), antecedido por Kontexte der Gerechtigkeit (Contextos da justiça) e Toleranz im Konflikt. Mas Forst sustenta uma posição que pretende ir além da concepção não-metafísica rawlsiana e da pós-metafísica de Habermas (ele discute isso em um dos capítulos do Das Recht…) . A propósito, lembrei que o Forst contava que Apel, em suas aulas, conseguia encontrar em qualquer comentário elementos pra sustentar sua posição ( e na verdade não é só Apel). Uma questão que permaneceu é em que medida uma estrutura normativa pode não conter um a priori, ou ainda quais os elementos que estão em jogo nesta discussão da (pós- / não-, ou seja lá o que for) metafísica. Dá pra dizer que Habermas se dividiu: Honneth ficou com o lado hegeliano, Forst com o kantiano. (também o desenvolvimento disso extrapolaria o caráter de um post).

*relacionando isso aqui com a pergunta do Fabrício no post anterior, acho que não fica dúvidas sobre o que o Forst responderia.

Written by filipecampello

February 9, 2009 at 7:52 PM