O conceito de existência em Kierkegaard

Bom, seguindo o tema da minha dissertação (o conceito de existência na filosofia contemporânea),  resolvi expor alguns dos resultados do meu estudo sobre Kierkegaard. Em um primeiro momento, temos que levar em consideração que Kierkegaard não é um autor sistemático, isto é, ele não tem uma obra na qual ele delineie um modo novo de filosofar em detrimento dos tradicionais (como aconteceu com Kant, Hegel, Heidegger, etc.).  Kierkegaard possui insights sobre determinados conceitos e críticas a modos de filosofar importantes.

Além disso, Kierkegaard fala bastante. A obra que analisei, o Concluding unscientific postscript to philosophical fragments, possui cerca de 600 páginas e, de filosofia, poderiam ser extraídas umas 150 páginas com as principais teses. Ali, temos bastante de teologia, filosofia, literatura, crítica da cultura e sua famosa ironia (que, para filósofos acostumados com se P, então Q, acaba virando uma revolução).  Em muitos casos, parece até que, se sortearmos uma página, vamos encontrar exatamente o que procurávamos, sem qualquer esforço; é só desbastar o terreno, isto é,  jogar a mão no meio dos arbustos, que podemos encontrar (ou não) uma pequena cereja.

Em relação à tarefa da obra como um todo, Kierkegaard anuncia a pergunta: como eu me torno cristão? A tentativa de responder esta pergunta, para ele, só pode ser realizada pela primeira pessoa do singular, ou seja, somente eu, em minha própria situação existencial, posso responder a esta questão.

Nesse sentido, Kierkegaard passa a formular dois modos de me relacionar comigo mesmo: um objetivo, no qual formulo uma questão objetiva, perguntando pela verdade do Cristianismo. Aqui, o pensamento especulativo ou histórico são tomados como o saco-de-pancadas. O problema, diz ele, é que com tal modo de pensar, não podemos responder à pergunta pelo tornar-se cristão na primeira pessoa do singular, o que caracteriza sempre uma relação cômica do sujeito consigo mesmo: ele sempre precisa estudar mais e mais,  tentando tornar-se objetivo e desinteressado por sua própria felicidade.

Já o modo subjetivo de se relacionar consigo mesmo, que constitui um estágio ético e ético-religioso no pensamento kierkegaardiano, significa o interesse infinito e apaixonado do sujeito por sua própria felicidade. Este modo também pode ser entendido como uma relação-de-existência: cada sujeito, enquanto ser humano existente, reflete ou relaciona-se com a sua interioridade, que é intransmissível e incomunicável a terceiros.

Para Kierkegaard, portanto, a questão não está em saber o que um indivíduo conhece ou com o que ele se relaciona. Esta é, a seu ver, uma preocupação objetiva. A questão fundamental e, por isso, subjetiva, está em como tal indivíduo se relaciona. Tentar descrever este como significa descrever a relação que ele mesmo, enquanto indivíduo existente, em sua existência, possui consigo mesmo ou com algo que lhe é dito (uma leitura um tanto fenomenológico, daria para se dizer).

Porém, os pepinos começam quando a gente tenta entender o que Kierkegaard quer dizer com “interioridade”, “segredo” “trágico-cômico”, “infinito-finito”, “temporal-eterno”, etc. Estes conceitos são entendidos objetivamente por Kierkegaard, como coisas, ou podem ser entendidos de outro modo?

Tugendhat tenta dar uma saída para isso no seu livro Autoconsciência e Autodeterminação. Segundo ele, acerca do conceito de “existir”, temos a definição de um relacionar-se do sujeito com uma síntese dos pares conceituais expostos acima. Nesse sentido, tais conceitos não seriam entendidos como objetos ou entes, mas como estruturas, determinações do próprio sujeito (em terminologia analítica, diríamos predicados de segunda ordem, qualificadores da existência). Assim, se existir é o relacionar-se com uma síntese, diz Tugendhat, vale também o inverso: ” o relacionar-se da pessoa com a síntese é um relacionar-se da pessoa com seu existir e isto significa um relacionar-se consigo mesma”. Com isso, Tugendhat pretende mostrar que é possível colocar o conceito de existência fora dos quadros de uma metafísica dualista.

Porém, como Tugendhat só se preocupa com frases assertóricas que sejam interessantes para o tema que ele está analisando, eu me pergunto se a sua reformulação funcionaria para o todo da obra de Kierkegaard, ou seja, para o paradigma filosófico no qual ele se situa. Seria possível reformular, fora da tradição metafísica, conceitos como “dialética”, “interioridade” ou mesmo conceitos não-tradicionais como “segredo”? Esta tarefa não vai ser possível de ser relizada na dissertação e, assim, deixo a questão para ver um backflip sensacional (vide 2’43”).

Além da tese da existência como relacionar-se consigo mesmo, outra inovação fundamental deste conceito em Kierkegaard é a redução de seu uso. Ora, se somente o ser humano relaciona-se consigo mesmo, somente a ele, então, a categoria da existência pode ser atribuída. Tendo isto presente, compreendemos a afirmação de Kierkegaard acerca de Deus: “Deus não pensa, Ele cria; Deus não existe, ele é eterno”.  Assim, o elemento diferenciador entre ser humano e outras entidades é a existência, isto é, a relação que o primeiro tem consigo mesmo, e não a racionalidade. Desta perspectiva, temos uma das formulações da crítica à noção de “essência ou natureza humana”, que irá se espalhar pela filosofia posterior, como o assim chamado “existencialismo” (Jaspers, Heidegger, Sartre, Camus, Marcel, etc.).

A partir desta exposição, minha tese é a de que o Poscriptum é uma obra que procura descrever, de maneira adequada, como é possível a um sujeito singular tornar-se cristão. E, como foi visto, este modo é descrito por Kierkegaard a partir da estrutura da existência, entendida como um relacionamento do sujeito consigo mesmo. Nesta linha de interpretação, os famosos estágios da existência, estético, ético e religioso, nada mais seriam do que a descrição dos modos de auto-compreensão do sujeito, cada qual distinto pelo seu modo de relação consigo mesmo (e com Deus) e pelo seu estado afetivo.

Porém, vejo dois problema filosóficos fundamentais aqui: [1] o critério último de Kierkegaard continua sendo o modo como eu me relaciono com o Cristianismo, isto é, com Deus; e [2] se todo e qualquer pensamento objetivo deve ser rechaçado para compreendermos nossa existência e, se a principal tarefa de cada teórico é compreender sua própria existência, então, não há um método kierkegaardiano controlável intersubjetivamente ou uma filosofia que possa ser comunicada (no sentido subjetivo). Ainda mais, se quero me tornar kierkegaardiano, então, não irei falar sobre Kierkegaard, não precisarei nem mesmo o ler, já que tenho como tarefa principal investigar minha própria existência. Mas, afinal, como eu soube disso?

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4 comentários

  1. Camila Abadie · · Responder

    Oi, Marcos!
    Eu, porém, vejo três problemas nos dois problemas filosóficos que levantaste:
    1. Cristianismo e Deus não são a mesma coisa para Kierkegaard, e isso faz bastante diferença já que um dos principais objetivos das suas obras é combater o que ele chamou de “cristandade” – uma versão ainda pior do próprio cristianismo.
    2. Teu segundo problema poderia ser subdividido em outros problemas menores, pois mesmo consistindo em uma unidade, abordam âmbitos distintos da questão. ;)
    3. Não sei com certeza se, em Kierkegaard, todo e qualquer pensamento objetivo deva ser rechaçado como fonte de conhecimento da existência, afinal, em termos de obras heteronímicas, estamos no terreno da ironia. De todo modo, Kierkegaard não se preocupa em oferecer um método controlável, passível de repetição e por meio do qual os indivíduos venham a conhecer a si mesmos. Agir assim seria cair em uma séria auto-contradição metodológica, a qual terminaria por implodir a própria proposta de Kierkegaard. Assim, quem se preocupa com ou pretende tornar-se kierkegaardiano simplesmente não entendeu a ideia fundamental.
    Ao que me parece, e diferentemente da maioria dos filósofos, Kierkegaard não se opõe em nada à ideia de ser usado como escada, como passagem para algo que está além dele e para o qual ele aponta. No entanto, a hipótese de ficar sabendo da necessidade de investigação sobre a própria existência exatamente nos termos por ele definidos sem se recorrer, sequer indiretamente, a ele, é totalmente impossível, e talvez isso mesmo aponte para a ocorrência de um método, de algo objetivo, ainda que indireto e não definível nos termos estritamente analíticos.
    Talvez haja mais no Kierkegaard do que nossas ferramentas usuais de pesquisa estejam aptas a nos possibilitar. ;)

  2. marcosfanton · · Responder

    Aê, Camila!! Sabia que tu irias aparecer! :P
    Seguinte:
    [1] Falo em Cristianismo no sentido subjetivo que Kierkegaard dá: na promessa de felicidade eterna para um sujeito individual eternamente interessado. E isto significa também em um determinado modo de se relacionar com Deus. Tudo bem, eles não são sinônimos, mas, diria, em termos não muito precisos, que ambos (Cristianismo e Deus) fazem parte do mesmo critério para Kierkegaard desenvolver sua análise da existência, da verdade, do indivíduo, etc. Acredito que tu também concordarias com isso. A minha bronca seria em colocar Deus como critério para descrever filosoficamente a relação do sujeito consigo mesmo;
    [2] o meu segundo problema filosófico seria uma tosca tentativa, sem perceber, de fazer um silogismo. Deixando isso de lado, o problema é: Encontramos um método intersubjetivamente válido em Kierkegaard? Claro, isso pode desembocar em vários problemas, como tu mesma apontaste. Contudo, por que estou perguntando isso? Porque eu acredito que, para filosofarmos, precisamos de paradigmas filosóficos ou, em certo sentido, de um método que possamos compartilhar com outras pessoas, que outras pessoas também possam aderir e utilizar. Por isso, penso que ele tenha que ser claro, plausível, exposto. Então, nós poderíamos discordar exatamente disso: de como entendemos a filosofia.
    A minha dúvida em relação ao conceito de existência é a ambiguidade com que podemos o ler: é uma existência ôntica ou ontológica (em termos heideggerianos)? Isto é, é uma existência singular, individual, de cada um empiricamente; ou é a descrição de uma estrutura filosófica? Minhas últimas frases do post foram para provocar esta tensão – apesar de terem sido mal-escritas.
    [3] Em relação ao conhecimento objetivo, me baseio na seguinte tese de Kierkegaard: “Todo conhecimento essencial pertence à existência; ou, apenas o conhecimento cuja relação com a existência é essencial é conhecimento essencial”. E este conhecimento é apenas o ético e o ético-religioso. Assim, se esta é uma tese metodológica, como eu mesmo, como teórico, aplico-a a mim mesmo?
    Além disso, se tu me dizes que “estamos no terreno da ironia”, quais os critérios para definirmos quando Kierkegaard está ironizando? E o que esta ironia quer indicar? Se ela aponta para algum lugar, podemos interpretá-la (intersubjetivamente)?

  3. Josias Arantes · · Responder

    Embora eu seja iniciante no estudo do pensamento Kierkegardiano, gostaria de expor aqui o meu pensamento sobre as questões acima levantadas.
    Segundo penso, Kierkegaard deixa claro que a relação do indivíduo com o seu Deus só é verdadeira a partir do “instante”, conceito desenvolvido por Kierkegaard, e que se refere à aceitação ou não do indivíduo em sua existência, da “verdade eterna” (“Jesus Cristo como encarnação do ‘eterno’ no tempo”). A partir do instante em que o indivíduo aceita tal verdade, ele se relaciona com ela mediante a fé, a qual prescinde da razão ou do pensamento objetivo como forma de validá-la. O fato de um indivíduo ser “teísta”, ou seja, ser crente em Deus, não o torna um cristão. O cristão autêntico se relaciona com Deus através de sua fé em Cristo, o qual representa e expressa a verdade a respeito de Deus, o seu projeto de libertação da existência humana dos princípios e regras que regem a existência da maioria dos existentes, os quais fazem com que o indivíduo perca-se de si em nome de uma cultura, nação, ou antes, fazem com que o indivíduo, livre em suas escolhas e decisões, se guie a si mesmo para ser conforme a maioria, que por sua vez, é influenciada (escravizada) pelos parâmetros culturais e pelas instituições convencionadas da sociedade, as quais têm como objetivo o colocar o “geral” sobre a individualidade do existente. Ser um “si-mesmo” ante Deus significa viver segundo o “modelo único” de verdade válida para a existência humana – a pessoa e a ação de Jesus Cristo que realiza a vontade de Deus em sua própria vida. Ser conforme o “Modelo” eis a tarefa existencial de todo ser humano. Sendo assim, somente a crença na encarnação de Deus no tempo através de Jesus Cristo pode tornar livre o indivíduo, é nessa liberdade perante o seu Deus que todo sujeito pode realizar-se a si mesmo como existente, porque para Deus nada há de impossível. Aí dá-se a relação sintética entre o finito ou temporal (o existente) e o infinito ou eterno (Deus). Portanto, Deus só tem valor na relação do sujeito consigo mesmo enquanto libertador, de modo que, o indivíduo que tem fé pode realizar no tempo (em sua finitude), o seu desejo de infinito, e em suas ações terá sempre como critério fundamental a realização da vontade de Deus (amor, vida e liberdade). Segundo Kierkegard o conhecimento objetivo não tem valor absoluto; i.é para o conhecimento do mistério da existência de nada vale a razão e a investigação; todavia, isto não significa que o conhecimento objetivo seja desprovido de validade. A ironia está na questão da escolha do indíviduo, a verdade objetiva não pode libertá-lo, pelo conhecimento, da alienação de si em prol de uma cultura (academicista por exemplo), ou sociedade. Todavia, a maioria escolhe e crê que pode realizar-se através da mediação externa, do cumprimento de regras, da obediência a princípios e regras que objetivam sempre a manutenção de “status quo”, que por sua vez delimita e determina a sobreposição do “Geral” sobre o “Indivíduo”. Por isso o estádio ético não é capaz de realizar o indivíduo, pois não o tem como fim, mas como meio de manutenção da sociedade e de suas instituições. Isso não quer dizer que a ética não tenha validade; todavia, a sua realização só se torna absoluta e verdadeiramente livre, quando o indivíduo ao relacionar-se consigo mesmo mediante o seu relacionamento com a “Verdade” (Cristo) realiza em seu cotidiano existencial a vontade de Deus, que se manifesta no ensinamento de Cristo Deus: “amarás ao teu próximo como a ti mesmo”. Não porque o próximo é meu igual, mas ao contrário, porque ele é diferente, é aquele a quem não posso conhecer, e que não me conhece, e porque somente realizando a vontade do “Pai” podemos nos tornar a nós mesmos, sempre conforme o único “Modelo” de existência válido. Para o qual não precisa-se de conhecimento nem método investigativo, mas de fé. Termino minha humilde colocação com as palavras do próprio Kierkegaar em “TEMOR e TREMOR:

    “[…] o Indivíduo é superior ao geral, de maneira que, para recordar uma distinção dogmática hoje raramente usada, o Indivíduo determina a sua relação com o geral tomando como referência o absoluto, e não a relação ao absoluto em referência ao geral. […] há um dever absoluto para com Deus; porque, nesse dever, o Indivíduo se refere como tal absolutamente ao absoluto. […] o amor para com Deus pode levar o cavaleiro da fé a dar o seu amor para com o próximo, a expressão contrária do que, do ponto de vista moral, é o dever”.

    Josias Arantes

  4. marcosfanton · · Responder

    Olá, Josias. Obrigado por visitar o blog!
    Cara, as discussões acima indicam o meu ponto em relação a Kierkegaard: Mesmo com isso que tu escreveste, como você lê Kierkegaard? Como um filósofo, um teólogo? Mesmo que tu me digas que ele não é nem um nem outro ou ambos, isto fica meio vago, porque, afinal, precisamos tentar estabelecer um diálogo com outras pessoas, o que significa em conceitos claros e delimitados.
    Fora isso, como é possível balizar toda a descrição de uma estrutura – a da existência do ser humano – na fé e na relação com Cristo? Se assim o fosse, ela não seria universalizável e todas as pessoas que não tem fé justamente nisso, cairiam pra fora da possibilidade desta “síntese”. Como isso seria plausível?
    Fora isso, se há uma relação de fé entre apenas o sujeito e Cristo, para quê lermos Kierkegaard – se esta relação deve ser singular? Ou, ainda, como tu mesmo compreendeste o texto de Kierkegaard? A partir da fé? Só é possível compreender os textos dele a partir da fé? (Estas últimas questões surgem, porque eu não considero enunciados filosóficos como metaenunciados ou algo para se fazer “depois”, mas como já a expressão de um modo de filosofar).
    Bom, apenas para deixar claro, eu te faço essas questões mais por não conhecer Kierkegaard do que alguém que está criticando o que escreveste.
    Abç.

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