“Não existem fatos, apenas interpretações”

Fabrício Pontin

Abro minha resposta à Tatiana com a frase de Nietzsche por uma questão estratégica, parece que Nietzsche sugere ao colocar a prevalência interpretativa no processo de estabelecimento de “verdades” uma sugestão de hermenêutica radical – todo o fato, toda a realidade, é dotada de uma relevância interpretativa – é um ato de vontade-de-verdade que constitui a realidade de uma determinada proposição.

Com isso, estabelecemos uma primeira forma de verificar o que significa “hermenêutica”. Hermenêutica pode ser inicialmente entendida como uma forma de priorizar a interpretação do mundo sobre a realidade do mundo. Neste sentido, se pensamos em termos de relativismo cultural, uma perspectiva hermeneutica vai sugerir que diferentes visões-de-mundo constituem diferentes verdades sobre o mundo, e o dizer a respeito do mundo enuncia coisas que são verdadeiras ou falsas apenas dentro deste dizer – as coisas, elas mesmas, não são nem verdadeiras, nem falsas. Elas estão abertas para uma intencionalização linguistica pura.

Mas este primeiro movimento linguístico-hermeneutico é ainda bastante limitado, e ele não constitui a totalidade do que se convenciona chamar de hermeneutica. Poderia-se, ainda que ensaísticamente, dividir o “movimento” hermeneutico.

Comecei descrevendo a forma mais radical de hermeneutica, que vai ser representada sobretudo por autores como Nietzsche e Foucault. Esta forma ampla de hermeneutica vai estabelecer uma prioridade interpretativa, e apenas interpretativa, para o linguístico.

Temos, além disso, uma hermenêutica de fundo comunicativo. Aqui, vamos ter Gadamer e Habermas como principais representantes. O Turn Hermeneutico representa para Habermas uma forma de reler autores como Kant, Hegel e mesmo Nietzsche, só que desta vez através da politização da hermeneutica. Então a hermeneutica vira uma ferramenta para possibilitar o consenso, é através dos processos argumentativos buscar formas de mediar diferentes interpretações sobre o mundo. Gadamer, por outro lado, vai tentar “urbanizar” o campo fenomenológico Heideggeriano (voltarei a este ponto mais tarde), através da idéia de campo e atuação hermeneutica. Mas para Gadamer podemos descobrir algo sobre o mundo através deste processo interpretativo, existe um fundo Real para o processo interpretativo, nem que seja a realidade do intérprete e o respeito à integralidade do intérprete. Aqui podemos ver como Habermas não poderia pensar sua análise dialógica sem Gadamer. No entanto, a idéia de razão comunicativa, ainda que baseada em uma hermeneutica, é um pouco mais formal que a proposta de Gadamer, que no fim das contas procura retornar ao semanticismo e coerentismo de fundo aristotélico, enquanto a idéia de Habermas procura voltar ao Universalismo Semântico de fundo Kantiano.

Finalmente, podemos situar o esforço hermenêutico na sua relação com a pragmática e com a semiótica. Nisso, teremos duas tradições um pouco diferentes, Umberto Eco representa o turn interpretativo-semiótico na hermeneutica, enquanto Jacques Derrida vai levar isso para uma hermeneutica-desconstrucionista. Eco vai se voltar para Wittgenstein e Pierce na elaboração de uma formalidade hermeneutica, a re-construção de processos de referência e contra-referência argumentativa, e limitações textuais e semânticas para a interpretação mesmo. Derrida, inversalmente, opera na gramática filosófica uma antropologia radical, um turn para a incontrabilidade do sentido daquilo que é escrito ou dito – a hermenêutica é um jogo de linguagem completamente incontrolável, Derrida certamente não se importaria se a gente chamasse o processo dialógico de um “diálogo entre loucos”. Aqui, as possibilidades de politização são geralmente desastradas. Ou descambamos para o ad-hoc da Alteridade Radical, ou para as incursões pragmáticas-platônicas do Umberto Eco tardio. Ainda assim, no sentido do jogo antropológico, a proposta hermeneutica de Derrida tem contribuições fantásticas, e Eco certamente nos ajuda a entender a diferença entre um texto “aberto” e um texto “fechado” – ou, como eu gosto de falar, entre Ulysses e a Constituição.

Bom, chegamos aqui no momento que preciso falar algo sobre Fenomenologia.

Primeiro, Fenomenologia é um termo unívoco? Tanto quanto “Analiticidade” ou “Adequatio”. São termos que adquirem diferentes sentidos conforme quem fala sobre eles. Mas existe, sim, um fundo comum para o que entendemos como Fenomenologia. Isso podemos chamar de “compreensão”. A idéia de “compreensão” serve como guia argumentativo para como podemos seguir a abordagem da fenomenologia , esta compreensão vai ser guiada por uma invenção de significados para a realidade que encontramos “lá-fora”, neste sentido, a fenomenologia vai superar a tensão entre internalismo e externalismo através da idéia de Mundo introduzida por Husserl e seguida por Heidegger. Então, o binômio mundo-compreensão ou compreensão-de-mundo, pode nos dar o primeiro elemento do que significa, propriamente, uma pesquisa fenomenológica.

A partir disso, fica fácil perceber como essa idéia de compreensão e de mundo vai dar os elementos para uma hermeneutica. Se voltamos para cada um dos autores acima colocados, vamos ver como os pressupostos de suas respectivas leituras de fenomenologia implicam em diferentes leituras do processo hermeneutico, mais ainda, como as suas hermeneuticas vão implicar em diferentes ontologias e mesmo ontologias sociais.

Claro, alguns dos autores que mencionei sequer têm métodos bem desenhados (Nietzche, Foucault), e por isso mesmo sugerem hermeneuticas que vão ser guiadas para o processo de destruição de significado, mas que não reintegram elementos construtivos, re-interpretativos, ou coerentistas. Neste sentido, o esforço político tanto de Nietzsche quando Foucault torna-se um tanto estranho – quase improdutivo. Apenas tardiamente Foucault irá voltar para uma análise de fundo Kantiano, para sugerir elementos emancipativos no processo de interpretação. Nietzsche talvez tenha sugerido algo como isso na idéia de Vontade-de-Poder, mas nunca fica claro se esta vontade-de-poder, levada à sério, não sugere uma totalização da ação política.

Significativamente, Gadamer e Habermas – e Husserl talvez com mais força, embora a sua Krisis seja criminalmente ignorada – sugerem um controle forte metodológico para o processo de interpretação e construção de mundo. Podemos, sim, significar o mundo à vontade, mas isso não significa que todo ato de significação vai ser bem sucedido “A lua é feita de queijo” é uma interpretação equivocada, não importa o quanto eu deseje afirmar ela politicamente. Ou quanto a gente creia nesta afirmação.

Finalmente, para Derrida a incontrabilidade do sentido encontra um limite na Alteridade e na Vontade-de-Justiça. Mas Derrida não é claro no período tardio de sua obra em como podemos fazer isso, ou mesmo o que significam estas palavras. Então ficamos jogados no mesmo circulo vicioso de incontrabilidade onde a proposta da politização da vontade-de-justiça fica largada ao vazio.

Existe, ainda depois de Habermas, todo um esforço para a retomada de uma leitura hermeneutica dentro da Teoria Crítica, creio que aqui verificamos um esforço de Seyla Benhabib (no Claims of Culture, especialmente) e de Axel Honneth (me impressionei muito com o Disrespect) em retomar uma “hermeneuticização” da política, inclusive tentnado superar as formalidades que Habermas impõe ao processo dialógico. Mas isso é um assunto que o Filipe poderia elaborar mais.

Sobre Heidegger, escolhi estratégicamente ignorar Heidegger aqui pela pergunta ser ligada ao fenômeno político, e Heidegger ter feito a sua opção pelo Totalitarismo e pelo silêncio bastante cedo. Mas seria importante dizer o quanto a noção de Construção-de-mundo, introduzida em Ser-e-tempo e elaborada nos conceitos fundamentais da metafísica é importante para Arendt e Jonas, por exemplo, que vão indicar que a forma do agir comunicativo contrói realidades sociais – então uma sociedade que fala mais em termos de tolerância, é mais tolerante. Uma sociedade que fala mais em termos de violência, é mais violenta. Daí a necessidade, em autores como Jonas, Arendt e mesmo Gadamer de trazer de volta o elemento moral para os processos políticos de educação, de pedagogia.

Bom, haveriam mais coisas para serem colocadas, mas vou aguardar perguntas e comentários.

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